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Guilherme Dietze: Brasil: um piquenique à beira do vulcão?

Nos últimos dias, o renomado gestor de fundos de investimentos, Luís Stuhlberger, comparou a situação econômica do Brasil a um piquenique à beira de um vulcão. De fato, sua análise encontra respaldo no atual cenário do país, que, apesar de apresentar indicadores favoráveis, como crescimento do PIB e redução do desemprego, enfrenta desafios estruturais que comprometem o médio e longo prazo. O aumento da taxa de juros e a valorização do câmbio refletem, essencialmente, a resposta do mercado ao desequilíbrio fiscal.

Embora a metáfora do vulcão em erupção ressalte o potencial destrutivo, talvez não seja a mais apropriada, uma vez que, em uma análise preliminar, não há indícios de uma recessão iminente. O boletim Focus, em seu relatório da última semana de janeiro, projeta uma desaceleração econômica, com o crescimento do PIB caindo dos atuais 3,5% para cerca de 2% em 2025.

Contudo, as projeções econômicas continuam se deteriorando. A estimativa de inflação, que há um mês era de 4,96%, já subiu para 5,50%, enquanto a taxa Selic, taxa básica de juros, pode atingir o patamar de 15% ao ano.

É notório que a raiz do problema está na questão fiscal. O governo demonstrou uma comunicação deficiente em novembro do ano passado, dando a impressão de que adotaria medidas para conter os gastos públicos. No entanto, o que se verificou foi apenas uma tentativa de limitar o crescimento das despesas, sem cortes efetivos. Desde então, passados mais de dois meses, o tema do ajuste fiscal permaneceu em segundo plano. Recentemente, o governo anunciou uma estimativa de déficit de 0,1% do PIB para 2024, mas o mercado reagiu com ceticismo, projetando um percentual próximo de 1%.

A ausência de uma resposta imediata por parte do governo sugere que a questão fiscal não tem sido tratada como prioridade. Caso contrário, medidas emergenciais e um discurso mais claro para o mercado já teriam sido adotados. Essa incerteza afeta diretamente as expectativas econômicas, tornando o crescimento dependente de estímulos artificiais, como o aumento dos gastos públicos, o que pressiona ainda mais a inflação e dificulta o trabalho do Banco Central na condução da política monetária.

Há quem defenda que a ampliação dos gastos públicos é essencial, pois representa investimentos em áreas estratégicas como educação e saúde. No entanto, essa lógica precisa ser compatível com a realidade fiscal do país. O Brasil não possui grau de investimento e tem observado um aumento acelerado da relação dívida/PIB, que, em pouco mais de um ano, subiu 10 pontos percentuais, aproximando-se dos 80%, com projeções de atingir 100%. Diante desse cenário, os investidores, ao perceberem o aumento do risco fiscal, exigem prêmios mais elevados para financiar a dívida pública. Como reflexo, os títulos do Tesouro Nacional estão oferecendo retornos expressivos, na casa de IPCA + 7%.

Embora uma recessão brusca não pareça iminente, a demora na implementação de ajustes fiscais contribui para a rápida deterioração de variáveis-chave, como juros, câmbio e inflação. Esse cenário pode, em breve, impor a necessidade de uma desaceleração mais intensa da economia, tornando inevitável uma retração no ritmo de crescimento. Assim, a chamada “galinha voadora” da economia brasileira tende a perder altitude mais rapidamente do que se esperava.

Guilherme Dietze é economista e Presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP

(**) Crédito da foto: Arquivo HN

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