Escrever sobre um cenário em constante mudança é, sem dúvida, um grande desafio — não em razão de projeções de longo prazo, mas pela possibilidade de mudanças drásticas no curto prazo, até mesmo no dia seguinte, o que pode tornar o texto rapidamente obsoleto. Ainda assim, o tema do recente “tarifaço” imposto pelos Estados Unidos merece reflexão, mesmo diante de potenciais reconfigurações no contexto geopolítico e econômico. O objetivo deste artigo não é discutir a medida em si, mas sim analisar seus possíveis desdobramentos – positivos e negativos – no setor de turismo.
Até o momento, o que se apresenta é a aplicação de uma alíquota de 50% sobre as importações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano, com vigência a partir de agosto. Cabe destacar que uma lista de quase 700 produtos foi excluída da medida.
Apesar de ser um custo adicional aplicado diretamente sobre bens, os efeitos podem, indiretamente, atingir o setor de serviços. Caso o percentual se mantenha, é provável uma retração nas relações comerciais entre os dois países, o que tende a impactar o fluxo de viagens corporativas e o transporte aéreo de cargas — uma vez que parte das exportações brasileiras utiliza o modal aéreo.
Outro possível reflexo se dá sobre o câmbio. Apesar da recente valorização do real em relação ao dólar, uma redução nas exportações brasileiras no curto prazo pode gerar uma inversão dessa tendência, acarretando desvalorização da moeda nacional.
Tanto pela menor demanda do real, quanto pelas incertezas constantes que o país possui. Esse cenário pode pressionar ainda mais a política de juros, com reflexos diretos sobre o custo de vida e o ambiente de negócios, como os investimentos em hotéis e parques.
A desvalorização cambial também incide diretamente sobre os custos operacionais da aviação civil, podendo provocar um movimento de alta nas tarifas aéreas, que atualmente se encontram em trajetória de queda.
Por outro lado, há efeitos que, ao menos em um primeiro momento, podem ser considerados positivos. O redirecionamento de produtos anteriormente destinados aos Estados Unidos para o mercado interno pode contribuir para a redução dos preços, especialmente nos segmentos de alimentos e bebidas. Isso pode aliviar, ainda que pontualmente, a inflação acumulada, que já se aproxima dos 6% no ano, beneficiando diretamente o setor de bares e restaurantes.
Entretanto, os efeitos de longo prazo são mais preocupantes. A perda de um mercado estratégico como o norte-americano pode desencadear um processo de desaceleração nos investimentos, fechamento de postos de trabalho e, consequentemente, redução da produção. Com menor oferta, a tendência é de elevação dos preços no médio e longo prazo.
No campo cambial, uma moeda brasileira mais desvalorizada pode, paradoxalmente, favorecer o turismo receptivo. Tal como ocorreu no início do ano, pode-se observar uma nova onda de visitantes sul-americanos — especialmente argentinos, uruguaios e chilenos — impulsionados pela atratividade de preços. Embora esse fluxo se concentre majoritariamente na região Sul do país, seus efeitos são significativos para a economia local.
Outro fator de atenção refere-se à possibilidade de sanções impostas aos países que mantêm relações comerciais com a Rússia. O Brasil, nesse contexto, seria diretamente afetado, dado o expressivo volume de importação de óleo diesel daquele país.
Caso essa hipótese se concretize, haverá pressão adicional sobre os custos do transporte rodoviário — amplamente utilizado no Brasil —, bem como sobre os serviços de transporte intermunicipal, interestadual e internacional de passageiros.
Embora o anúncio da última quinta-feira tenha trazido algum alívio momentâneo ao mercado brasileiro, o cenário permanece de cautela. O turismo, inevitavelmente, sentirá os impactos do tarifaço, e é de se esperar que não haja uma escalada nas tensões, o que agravaria ainda mais os efeitos econômicos para o Brasil.
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Guilherme Dietze é economista e Presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP
(*) Crédito da foto: Arquivo HN














