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Hub Hotel DesignX: tendências que sobrevive à operação

Tendências chegam à hotelaria por muitos caminhos. Elas aparecem nas feiras internacionais, nos novos materiais, nas mudanças de comportamento, nos avanços tecnológicos, nas redes sociais e na própria maneira como as pessoas passam a viajar, trabalhar, descansar e ocupar os espaços. Mas entre identificar uma mudança e incorporá-la a um hotel existe uma distância considerável.

Uma solução pode parecer inovadora em uma apresentação e perder rapidamente sua relevância. Um material pode ser visualmente interessante, mas não resistir à rotina da operação. Uma tecnologia pode prometer eficiência e terminar acrescentando complexidade. E aquilo que funciona em um mercado ou em uma categoria de hotel nem sempre responde às necessidades de outro empreendimento.

É justamente nessa passagem entre tendência, projeto, produto e operação que estará concentrado o segundo painel do Hub Hotel DesignX — Design, Operação e Experiência na Nova Hospitalidade, encontro promovido pelo Hotelier News em parceria com Camila Contato, no dia 23 de novembro, no Hotel Unique, em São Paulo.

Palestrantes Painel Tendências

Com o tema Tendências — Estética, inovação e operação, o painel reunirá Eduardo Manzano, fundador e diretor de Design do EMDAStudio; Sergio Fahrer, fundador e designer do Estúdio Fahrer; e Francisco Santos, fundador da Brazilian Host. A mediação será de Camila Contato, da Contato Consultoria.

Os três convidados observam a inovação a partir de lugares diferentes. Manzano parte da arquitetura e da estratégia hoteleira. Fahrer investiga matéria, ergonomia, produção e novas formas de uso. Santos atua no momento em que centenas de decisões precisam sair dos desenhos, chegar à obra e resultar em um empreendimento pronto para operar.

Juntos, permitem discutir uma questão essencial para o setor: como reconhecer aquilo que realmente representa uma transformação e distinguir o que tem potencial de permanecer daquilo que é apenas novidade.

Arquitetura entre experiência, operação e negócio

A trajetória de Manzano está diretamente ligada à evolução da arquitetura hoteleira brasileira.

Projetos EMDAStudio

Fundador e diretor de Design do EMDAStudio, o arquiteto soma mais de 35 anos de atuação em hospitalidade, arquitetura corporativa e planejamento urbano e participou de mais de 100 projetos de hotéis e empreendimentos turísticos para marcas como Marriott, Hyatt, Starwood, Wyndham, Hilton e Meliá, além de grupos nacionais. Ao longo da carreira, também ocupou posições de liderança em escritórios internacionais como VOA Associates e Perkins+Will.

Essa experiência lhe permitiu acompanhar diferentes momentos da hotelaria.

Manzano viveu uma fase em que grandes redes buscavam reproduzir uma linguagem relativamente homogênea em diferentes países, com ambientes neutros e padronização como sinal de consistência. Hoje, sua leitura aponta para outro comportamento: hóspedes procuram reconhecer o destino, sua cultura e suas particularidades dentro do próprio hotel.

A mudança ajuda a mostrar por que falar de tendências não significa simplesmente acompanhar estilos.

Para Manzano, arquitetura hoteleira precisa conciliar narrativa, identidade local, experiência, operação, viabilidade econômica e longevidade.

Sua própria metodologia foi influenciada pela experiência com projetos ligados ao universo Disney. Ao longo de 13 anos trabalhando em um escritório envolvido nesse ecossistema, incorporou a ideia de que, antes de projetar um espaço, é necessário compreender a história que aquele empreendimento pretende contar. Pesquisas históricas, culturais e antropológicas passaram a integrar o processo de concepção do EMDAStudio.

Isso ajuda a deslocar a discussão de tendência para contexto.

Uma cor, um material, uma tecnologia ou uma tipologia de espaço pode aparecer em inúmeros projetos ao redor do mundo. Mas sua pertinência depende do público, do destino, da marca, do investimento e da maneira como aquele hotel pretende operar.

Tendência também precisa envelhecer bem

Valoriza identidade local

Essa preocupação com permanência é especialmente relevante em um setor no qual um empreendimento pode levar anos entre concepção, desenvolvimento e abertura.

Quando um hotel finalmente recebe os primeiros hóspedes, algumas das referências que estavam em evidência no início do projeto já podem ter perdido força.

Por isso, uma das questões centrais para a arquitetura contemporânea está na capacidade de separar sinais de transformação estrutural de movimentos passageiros.

Mudanças ligadas ao comportamento costumam oferecer pistas importantes.

O crescimento dos espaços de convivência, a maior mistura entre trabalho e lazer, a procura por experiências locais, a flexibilização das áreas comuns e o desejo de personalização interferem diretamente na maneira de organizar os hotéis.

Um edifício projetado para durar décadas precisa acomodar essas mudanças sem depender de reformas profundas a cada nova onda estética.

Manzano tem defendido uma ideia de sustentabilidade que vai além de certificações e tecnologias: um projeto sustentável também é aquele que permanece relevante e evita intervenções desnecessárias ao longo do tempo. Retrofits e requalificações de estruturas existentes passam a fazer parte dessa lógica ambiental, econômica e urbana.

Material como campo de investigação

Estúdio Fahrer com uma trajetória nacional e internacional

Se Manzano observa tendências a partir da arquitetura e da hospitalidade, Sergio Fahrer leva o debate para a escala do objeto, da matéria e dos processos produtivos.

Designer, músico e fundador da Fahrer, iniciou sua trajetória em 1992 com a cadeira Blues, criada a partir de conhecimentos associados à construção de instrumentos musicais. A peça recebeu o Woodcraft Design Award em 1993 e abriu caminho para uma pesquisa que resultaria no desenvolvimento e na patente de uma técnica de multilaminação da madeira curvada.

Desde então, experimentação, ergonomia, estrutura e processos construtivos permanecem no centro de seu trabalho.

A Fahrer construiu uma trajetória autoral reconhecida nacional e internacionalmente, mas sua pesquisa ultrapassa o desenho de uma peça isolada. O estúdio atua também em projetos para hotéis, restaurantes e empresas, nos quais conforto, escala, resistência, manutenção e relação com a arquitetura passam a fazer parte do desenvolvimento.

É justamente esse repertório que permite trazer outra perspectiva para a discussão sobre tendências.

Uma novidade em material ou processo não se torna relevante simplesmente por ser inédita. Precisa encontrar uma aplicação coerente.

Observar a natureza para pensar novas soluções

Coleção Modos de Existir

Nos trabalhos mais recentes da Fahrer, essa investigação ganhou um novo campo com a bioinspiração.

A coleção Modos de Existir, apresentada em 2026, parte da observação de estratégias de organização encontradas na natureza para investigar relações entre matéria, estrutura e desenho. Sustentar, conectar, proteger, adaptar e ocupar passam a orientar peças construídas por meio de encaixes, sobreposições, modularidade e experimentações com madeira, mármore, vidro, espelho, tecidos e couro.

Não se trata de reproduzir formalmente uma folha, uma pedra ou uma paisagem. A referência está no modo como sistemas naturais resolvem problemas. Essa abordagem revela uma maneira interessante de compreender inovação: buscar princípios que possam gerar soluções, em vez de apenas reproduzir uma aparência que esteja em evidência.

A pesquisa com materiais também aparece em outros projetos do estúdio. A coleção Conexões, por exemplo, transformou tubos e conexões hidráulicas — materiais tradicionalmente escondidos dentro das construções — em peças de mobiliário e objetos funcionais, recebendo posteriormente reconhecimentos no International Design Awards e no SIT Furniture Design Award.

Para a hotelaria, esse tipo de investigação abre discussões sobre reaproveitamento, novos usos de materiais, identidade brasileira e formas menos convencionais de desenvolver produtos. Mas há uma condição fundamental: uma solução precisa permanecer adequada ao uso.

Um móvel de hotel enfrenta ciclos de utilização muito diferentes daqueles de uma residência. Ergonomia, estabilidade, possibilidade de reparo, facilidade de limpeza e reposição de componentes tornam-se tão importantes quanto originalidade e expressão.

Sustentabilidade além do discurso

Coleção inspirada no campo bioinspiração

É justamente nessa aproximação entre criatividade e desempenho que sustentabilidade também ganha uma dimensão mais concreta.

Na hotelaria, escolhas ambientais não começam apenas na redução do consumo de água ou energia.

Elas também passam pela durabilidade dos materiais, pela procedência da matéria-prima, pela logística, pela capacidade de reparo, pela produção local e pela vida útil dos produtos.

Uma peça que precisa ser substituída repetidamente pode gerar impactos ambientais e financeiros maiores do que outra com investimento inicial superior, mas desenhada para permanecer em operação por muitos anos.

Da mesma forma, um projeto que utiliza estruturas existentes pode evitar demolições e reduzir o consumo de novos recursos.A sustentabilidade passa, portanto, a participar da economia do ciclo de vida.

Para investidores e operadores, essa perspectiva também permite sair da comparação baseada apenas no preço inicial e observar manutenção, reposição, consumo de recursos e tempo de uso.

Do papel para mundo real

Projetos Brazilian Host

É justamente nesse momento que a experiência de Francisco Santos acrescenta outra dimensão ao painel.

Fundador da Brazilian Host, Santos atua no mercado de implantação hoteleira desde 2000. A empresa, criada no início dos anos 2000, acumulou mais de 250 projetos concluídos e desenvolveu um modelo de atuação que integra planejamento, especificação, suprimentos, fabricação, armazenamento, logística, montagem e entrega de soluções de FF&E e OS&E.

Seu portfólio inclui trabalhos para redes como Marriott, Hilton, Fasano e Accor, além de empreendimentos de diferentes segmentos e escalas.

Entre os projetos recentes está o W São Paulo, para o qual a Brazilian Host participou da implantação de quartos e áreas comuns, além do desenvolvimento e fornecimento de soluções específicas para um projeto marcado por alto grau de personalização.

É nesse estágio que uma série de decisões que pareciam abstratas passa a ter consequências concretas.

Um produto precisa chegar no prazo. Um acabamento precisa estar disponível na quantidade necessária. Uma peça desenhada sob medida precisa poder ser fabricada repetidamente com controle de qualidade. Materiais precisam atravessar etapas de transporte, armazenamento e instalação sem comprometer sua integridade.

E dezenas — às vezes centenas — de fornecedores precisam operar dentro de uma mesma programação.

Inovação também é previsibilidade

Essa perspectiva revela algo importante: inovação na hotelaria não significa necessariamente adicionar complexidade.

W São Paulo
Hotel W São Paulo

Em muitos casos, inovar pode significar reduzir interfaces, antecipar problemas e tornar a implantação mais previsível.

A Brazilian Host vem trabalhando justamente com a integração de etapas que tradicionalmente ficariam distribuídas entre diferentes fornecedores. Projeto, suprimentos, fabricação, armazenamento, logística e montagem passam a ser acompanhados dentro de uma estrutura coordenada.

Para Francisco Santos, a implantação envolve centenas de decisões interdependentes.

Um atraso de fabricação pode afetar montagem. Uma alteração tardia de especificação pode gerar incompatibilidade. Uma peça que não considera acesso, transporte ou montagem pode simplesmente não chegar ao local para o qual foi desenhada.

É nesse momento que a colaboração entre arquitetura, design, fornecimento, implantação e operação deixa de ser desejável e passa a ser necessária.

Onde buscar referências

O segundo painel também aproxima três maneiras diferentes de construir repertório.

Salone Internazionale Mobile de MASCHERONI

Para Manzano, a referência vem da história, cultura, comportamento, operação e a própria observação das equipes dos hotéis participam do processo. Ao longo da carreira, ele destaca inclusive o aprendizado obtido ouvindo profissionais como camareiras e garçons, aproximando a concepção arquitetônica de quem utiliza os espaços diariamente.

Para Fahrer, repertório pode surgir da música, da indústria, da natureza, de um material convencional utilizado de maneira inesperada ou de processos construtivos ainda pouco explorados.

Para Santos, as referências também chegam pela experiência acumulada em centenas de implantações, pelas exigências de diferentes redes e pelas soluções encontradas para fazer projetos complexos funcionarem dentro de orçamento, prazo e padrão de qualidade.

Feiras, exposições, viagens e eventos continuam importantes como espaços de descoberta. Mas talvez o repertório mais valioso surja quando aquilo que foi observado consegue atravessar uma etapa adicional: ser testado contra a realidade do empreendimento.

Do comportamento ao projeto

Por trás dessas discussões existe uma transformação ainda maior: o comportamento do hóspede. O hotel contemporâneo recebe pessoas que alternam trabalho e lazer, utilizam espaços comuns de maneiras diferentes, esperam conectividade sem esforço, valorizam experiências locais e, ao mesmo tempo, comparam hospedagens em escala global.

Lobbies deixam de ser apenas áreas de passagem. Quartos incorporam diferentes modos de uso. Restaurantes precisam dialogar com hóspedes e moradores. Espaços de trabalho se misturam a ambientes de convivência. Tecnologia precisa desaparecer na experiência em vez de exigir aprendizado. A tendência relevante, nesse contexto, é a mudança de comportamento que está por trás delas.

Inovação precisa atravessar toda a cadeia

Ao reunir Eduardo Manzano, Sergio Fahrer e Francisco Santos, o segundo painel do Hub Hotel DesignX coloca lado a lado profissionais que trabalham em momentos diferentes do desenvolvimento de um empreendimento.

Manzano traz a perspectiva da arquitetura, estratégia e experiência hoteleira. Fahrer acrescenta a investigação sobre materiais, ergonomia, processos produtivos e design autoral. Santos leva a discussão para suprimentos, fabricação, logística, implantação e entrega.

Os três repertórios convergem em um ponto: inovação não pode ser analisada isoladamente. Uma decisão tomada na concepção terá consequências na fabricação. O produto desenvolvido precisará responder à implantação. E aquilo que foi instalado continuará sendo testado todos os dias pela equipe e pelo hóspede.

É justamente por isso que a relação entre quem projeta, produz, fornece, implanta e opera se torna cada vez mais estratégica. Quanto mais cedo essas áreas conversarem, maiores as chances de antecipar incompatibilidades, reduzir desperdícios, controlar custos e preservar a intenção original do projeto.

Entre novidade e permanência

Talvez o maior desafio ao falar sobre tendências esteja justamente em resistir à velocidade com que novas referências surgem. Nem tudo o que é novo precisa ser incorporado. E nem tudo o que permanece precisa continuar sendo feito da mesma maneira.

O valor está em compreender o que mudou no comportamento das pessoas, quais recursos permitem responder melhor a essas mudanças e quais decisões continuarão fazendo sentido quando o entusiasmo inicial pela novidade desaparecer.

Na hotelaria, isso significa combinar sensibilidade estética com análise técnica, criatividade com operação e inovação com longevidade.

Porque uma tendência só se transforma em valor quando consegue sair da inspiração, atravessar o projeto, sobreviver à implantação e continuar funcionando depois que o hotel abre suas portas.


Hub Hotel DesignX — Design, Operação e Experiência na Nova Hospitalidade
Painel 2 — Tendências: Estética, inovação e operação
23 de novembro de 2026
Hotel Unique — São Paulo
Welcome Coffee: 8h
Painéis: 9h às 12h
Vagas limitadas. Inscreva-se clicando aqui!

(*) Crédito das fotos: Divulgação

Hotel Unique