Existe uma pergunta que raramente aparece nas reuniões de diretoria de um hotel, embora talvez seja mais importante do que discutir ocupação, diária média, EBITDA ou satisfação dos hóspedes: o que mudou na nossa exposição ao risco desde a última reunião?
Durante décadas, aprendemos a associar risco a acontecimentos concretos. Um incêndio, uma enchente, uma fraude, uma intoxicação alimentar ou um ataque cibernético. Quando algo ocorria, investigavam-se as causas, revisavam-se os controles e buscava-se evitar que o episódio se repetisse. A gestão de riscos tornou-se, em grande medida, uma disciplina voltada para fatos já materializados.
Essa lógica continua necessária. Mas já não é suficiente.

Hoje, um hotel pode perder competitividade porque uma onda de calor alterou a atratividade de um destino turístico. Pode interromper sua operação porque um fornecedor global de tecnologia distribuiu uma atualização defeituosa. Pode rever investimentos diante de mudanças regulatórias ou sofrer impactos provocados por tensões geopolíticas. Nada disso precisa acontecer dentro da organização para comprometer sua capacidade de atingir objetivos.
O risco deixou de estar apenas dentro do hotel. Passou a ser influenciado pelas relações que a organização estabelece com fornecedores, tecnologias, cadeias de suprimentos, investidores, reguladores e comunidades. A gestão de riscos deixa, assim, de ser apenas uma disciplina de prevenção e resposta para ocupar um lugar central na estratégia.
O futuro não muda quando os acontecimentos ocorrem. O futuro muda quando a exposição ao risco muda — e quase sempre percebemos isso tarde demais.
Essa mudança de perspectiva ajuda a compreender por que ESG passou a ocupar um espaço tão relevante nas organizações. Durante muito tempo, o tema foi associado quase exclusivamente à sustentabilidade ambiental, diversidade ou certificações. Esses assuntos permanecem fundamentais. Mas representam apenas parte da transformação.
A principal contribuição de ESG talvez seja outra: ampliar a capacidade das organizações de perceber mudanças no ambiente capazes de alterar sua exposição ao risco. ESG não cria riscos. Ele torna visíveis mudanças que modificam a forma como organizações alcançam seus objetivos.
O episódio envolvendo a CrowdStrike, em julho de 2024, ilustra essa mudança de forma exemplar. Uma atualização defeituosa de software interrompeu operações em companhias aéreas, aeroportos, hospitais, bancos, varejistas e organizações de hospitalidade em diferentes países. A discussão concentrou-se na tecnologia, na segurança cibernética e na responsabilidade do fornecedor.
Tudo isso era importante. Mas não explicava o essencial. O caso demonstrou que organizações altamente estruturadas podem perder capacidade operacional sem que nenhum de seus ativos próprios apresente defeito. A vulnerabilidade não estava apenas na atualização distribuída pela CrowdStrike. Estava na arquitetura de dependências construída ao longo dos últimos anos, na concentração tecnológica e na criticidade dos fornecedores.
A CrowdStrike não criou aquela exposição. Apenas a tornou visível.
Para a hotelaria, essa talvez seja a principal lição. Quanto mais integrada e digitalizada se torna a operação, maior passa a ser a necessidade de compreender as dependências que sustentam o negócio. A pergunta deixa de ser apenas “nossos sistemas estão funcionando?” e passa a ser “o que acontece se um parceiro crítico deixar de funcionar?”.
É essa mudança de perspectiva que inspira o Observatório de Riscos ESG para a Hotelaria. Nossa proposta não é acompanhar notícias. Notícias informam o que aconteceu. O trabalho do Observatório começa exatamente nesse ponto: compreender o que mudou, quais domínios de risco passaram a exigir atenção e quais decisões precisam ser revistas diante de uma nova exposição ao risco.
Cada episódio utilizará um acontecimento real para discutir um conceito de gestão de riscos aplicado à realidade da hotelaria. O tema mudará. A pergunta permanecerá a mesma:
O que mudou na exposição ao risco da hotelaria?
A gestão de riscos não existe para prever o futuro. Existe para aumentar a qualidade das decisões diante da incerteza.
ESG explica o que está mudando. A gestão de riscos explica por que isso importa.
O Observatório de Riscos ESG para a Hotelaria não monitora notícias. Monitora mudanças na exposição ao risco da hotelaria.
Referências
COMMITTEE OF SPONSORING ORGANIZATIONS OF THE TREADWAY COMMISSION (COSO). Enterprise Risk Management: Integrating with Strategy and Performance. New York: COSO, 2017.
CROWDSTRIKE. Executive Summary: Root Cause Analysis – Channel File 291 Incident. Austin, TX: CrowdStrike, 2024. Disponível em: https://www.crowdstrike.com/wp-content/uploads/2024/08/Executive-Summary_Root-Cause-Analysis_Channel-File-291.pdf. Acesso em: 17 jul. 2026.
CROWDSTRIKE. Preliminary Post Incident Review (PIR): Content Configuration Update Impacting the Falcon Sensor and the Windows Operating System (BSOD). Austin, TX: CrowdStrike, 24 jul. 2024. Disponível em: https://www.crowdstrike.com/en-us/blog/falcon-content-update-preliminary-post-incident-report/. Acesso em: 17 jul. 2026.
IFRS FOUNDATION. IFRS S1: General Requirements for Disclosure of Sustainability-related Financial Information. London: IFRS Foundation, 2023.
IFRS FOUNDATION. IFRS S2: Climate-related Disclosures. London: IFRS Foundation, 2023.
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MUNCINELLI, Gianfranco; DROZDA MUNCINELLI, Andreia; LIMA, Edson Pinheiro de; STOCKER, Fabricio. Risk management in ESG: components of the preliminary conceptual model of the ESG Risk Canvas. South American Development Society Journal, São Paulo, v. 11, n. 33, p. 203–220, 2025.
MUNCINELLI, Gianfranco; LAURIA, Wilson Mendes; VASCONCELLOS, Alexandre Antonio Urioste. Metodologia FAIR no gerenciamento de riscos de cibersegurança em pequenos provedores. In: SIMPÓSIO DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO (SIMPEP), 33., 2025, Bauru. Anais […]. Bauru: SIMPEP, 2025.
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CSO (Chief Sales Officer) da GRCiber, Sócio da Muncinelli Consultoria e Treinamento. Professor em cursos de MBA em programas como FGV Management, Grupo Ânima, PUC-PR, dentre outros. Co-fundador do C2T – Formação de Conselheiros de Tecnologia na GoNew. Exerceu cargos executivos em empresas como Intedya (International Dynamic Advisors), Oi, Brasil Telecom, NET, Between do Brasil e GVT, atuando em gerenciamento de projetos e processos, desenvolvimento de negócios e suporte técnico. Membro do Conselho Consultivo do Grupo BTZ (Coordenador do Comitê de Risco).Foi membro do Conselho Consultivo do Hub ESG Alagev. Engenheiro Eletricista (UFSC), Pós-Doutor em Engenharia de Produção e Sistemas (UTFPR), Doutor em Engenharia de Produção e Sistemas (PUCPR) (assunto da tese: Capabilidade de Processos para Compliance com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados)), Mestre em Engenharia Elétrica (UTFPR), Data Protection Officer (Universidad San Jorge – Espanha), Compliance Officer (Universidad San Jorge – Espanha), Executive Program in Project Management (The George Washington University – EUA), MBA em Gestão Comercial (FGV), Especialista em Telecomunicações (PUCPR), Especialista em Gestão Empresarial (UFSC) e Especialista em Concepção e Análise de Dispositivos Eletromagnéticos (UFSC). Auditor Líder na ISO27001:2013, na ISO9001:2015 e na ISO50001:2018. Certificado IPMA-D Certified Project Management Associate. É membro da International Society for Transdisciplinary Engineering (ISTE) e do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), formado no Curso de Conselheiros de Administração e membro da Comissão de Gerenciamento de Riscos Corporativos. Membro da ABNT nas comissões: ABNT/CEE-093 “Gestão de Projetos, Programas e Portfólio”; ABNT/CB-021/CE 021 004 027 “Segurança da Informação, segurança cibernética e proteção da privacidade”; ABNT/CEE-063 “Gestão de Riscos”; ABNT/CEE-256 Comissão de Estudo Especial de Environmental, Social and Governance – ESG; ABNT/CEE-256/GT3 – Acompanhamento do ISO/PC 343 SDG Sustainable development goals management. Membro Consultor da Comissão de Direito Digital e Proteção de Dados da OAB, Seção do Paraná.
(*) Crédito da Foto: Arquivo pessoal










