Com cenário econômico instável, envolvendo juros elevados, custos de construção pressionados e crédito restrito, o desenvolvimento de hotéis no Brasil exige, cada vez mais, um perfil flexível dos investidores. A combinação de atributos deste empresário deve compor planejamento, estrutura financeira e capacidade de adaptação ao mercado. Em nova fase após acompanhar a retomada da demanda pós-pandemia, os esforços agora se voltam para viabilidade econômica dos projetos e modelos capazes de gerar retorno sustentável no longo prazo.
Segundo análise dos os executivos entrevistados pela reportagem do Hotelier News, a expansão continuará acontecendo, mas de forma mais criteriosa. Para eles, o mercado deverá privilegiar projetos bem estruturados, marcas consolidadas e ativos capazes de demonstrar rentabilidade consistente.
É importante mencionar que esse cenário será um dos temas debatidos no Hotel Trends Conference 2026, promovido pelo Hotelier News em parceria com a Noctua Advisory. O evento reunirá investidores, incorporadores, redes hoteleiras e especialistas para discutir os caminhos da expansão da hotelaria brasileira diante do novo ambiente econômico.
Viabilidade de projetos à prova
Mais do que encontrar capital, portanto, o desafio é convencer investidores de que o empreendimento terá desempenho sustentável ao longo do tempo. Segundo Pedro Cypriano, sócio da Noctua Advisory, o mercado tende a se tornar mais seletivo nos próximos anos.
“Os empreendimentos que apresentarem demanda comprovada, posicionamento bem definido, projeções financeiras consistentes e um modelo operacional eficiente continuarão atraindo investidores, apesar do ambiente de juros elevados”, diz.

Para ele, inteligência de mercado, estudos de demanda e projeções financeiras ganharão peso cada vez maior nas decisões de investimento. Assim, os planos de expansão dependerão menos de percepção e mais de dados sobre demanda, comportamento do consumidor e potencial de rentabilidade de cada destino.
De acordo com Leonardo Lido, diretor Sênior de Desenvolvimento da Hilton para o Brasil, a avaliação também é positiva. O desempenho recente dos hotéis da rede no país reforça a confiança em novos investimentos. “Nós trabalhamos em estreita colaboração com proprietários e investidores para avaliar ciclos de mercado, identificar oportunidades e desenvolver estratégias que contribuam para o sucesso de cada empreendimento”, comenta.
Segundo o executivo, aproximadamente metade do portfólio da Hilton no Brasil já é formado por conversões, modelo que continuará relevante na estratégia de crescimento da companhia.
Capital continua caro
Embora o interesse dos investidores permaneça, os custos ainda são um obstáculo importante. Na visão de Ricardo Bluvol, vice-presidente Sênior de Desenvolvimento e Relação com Investidor da Atlantica Hospitality International, alguns pontos continuam pressionando a viabilidade econômica de projetos do segmento. Entre eles, estão:
- Juros elevados;
- Inflação;
- Aumento dos custos de construção;
- Escassez de linhas específicas de financiamento.
“O cenário econômico atual, adicionado ao custo crescente de terrenos e construção nas principais capitais, permanece entre os principais desafios para os próximos anos. A reforma tributária e discussões sobre jornada de trabalho também entram nessa equação”, complementa.
Cypriano compartilha da mesma avaliação. Para ele, os custos de construção seguem elevados, tornando ainda mais importante uma engenharia financeira eficiente. “O funding seguirá diversificado, sem uma única ‘bala de prata’. Além do crédito tradicional em regiões incentivadas, ganham espaço fundos imobiliários, estruturas de equity, multipropriedade e parcerias entre incorporadores e operadores”, explica.

Bluvol acrescenta que fundos imobiliários, private equity, family offices e incorporadores regionais estão ampliando suas participações no financiamento de novos empreendimentos.
Conversões e alternativas
A dificuldade para encontrar terrenos bem localizados nas grandes capitais também fortalece as conversões. Ativos já existentes oferecem uma alternativa mais rápida e menos intensiva em capital, além da possibilidade de estar bem localizado mais rápido. Na Atlantica, por exemplo, mais de 50 hotéis passaram por esse processo, enquanto a Hilton conta com metade da operação no Brasil composta por unidades do modelo.
Terrenos em áreas nobres enfrentam forte concorrência de outros segmentos imobiliários, enquanto oportunidades aparecem principalmente em projetos de uso misto e branded residences.
Enquanto os grandes centros enfrentam limitações de oferta imobiliária, cidades médias continuam atraindo investimentos. Bluvol cita polos regionais, cidades ligadas ao agronegócio e capitais com demanda crescente como mercados que ainda oferecem espaço para expansão. Ele acredita que o crescimento das viagens de bleisure favorece empreendimentos capazes de atender tanto o viajante corporativo quanto o público de lazer.
Na Hilton, Lido afirma que a empresa continua avaliando oportunidades em hotéis urbanos, empreendimentos voltados para convenções, aeroportos e lazer. O executivo também confirma que a companhia negocia novos projetos all inclusive no Brasil.
Multipropriedade mais madura
No segmento de lazer, a avaliação é de que a multipropriedade continuará impulsionando investimentos, mas em um ritmo diferente daquele observado nos últimos anos. Para Bluvol, a demanda doméstica permanece aquecida e continuará sustentando novos projetos.

Já Cypriano acredita que o setor entra em uma fase de maior maturidade e deve ter o crescimento liderado por projetos com localização estratégica, produto diferenciado, governança sólida e capacidade comprovada de operação e comercialização. Sendo assim, o foco deixa de ser simplesmente lançar novos empreendimentos e passa a ser desenvolver ativos sustentáveis, capazes de entregar experiência ao cliente e retorno consistente aos investidores.
A avaliação conjunta dos especialistas é que o desenvolvimento hoteleiro continuará avançando no Brasil, mas exigindo muito mais do que disponibilidade de capital. Projetos bem estruturados, inteligência de mercado, eficiência operacional, marcas fortes e modelos de negócio capazes de reduzir riscos tendem a definir quais empreendimentos sairão do papel nos próximos anos.
Serviço
Hotel Trends Conference
Datas: 2 e 3 de setembro de 2026
Local: Renaissance São Paulo
Endereço: Alameda Santos, 2233 – Jardim Paulista
Horário: de 8h às 18h30 (1º dia) e de 8h às 16h (2º dia)
Informações e ingressos: https://bit.ly/4gLPzy2
O Hotel Trends Conference é uma realização do Hotelier News, em parceria com a Noctua Advisory. Em sua 5ª edição, o encontro tem como patrocinadores o Grupo R1, Wyndham Hotels & Resorts, Accor, Atrio Hotel Management, Best Western Hotels & Resorts, Estancorp, Hplus, Hilton, Hyatt Hotels, Letsbook, Lighthouse, Marriott International, TOTVS, Atlantica Hospitality International, Climber RMS, Equipotel, Onfly, STR, Anserve, Duarte Garcia Serra Netto e Terra, Hotelaria Brasil, Hotéis Deville, IHG Hotels & Resorts, RCI, Realgems e RZK Advogados.

(*) Crédito da capa: Magnific
(*) Crédito das fotos: Divulgação















