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Os diferentes interesses na parceria ABIH-SP-Airbnb

Por Vinicius Medeiros 15 de outubro de 2020

Foi um movimento que, de certa forma, surpreendeu muito hoteleiro. Um acordo que envolve questões diversas e complementares, mas que atende a interesses diferentes. Certo é que a parceria ABIH-SP (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis de São Paulo) e Airbnb vai muito além do mote “impulsionar o turismo paulista”. O casamento tem mais a ver com distribuição, posicionamento de mercado e dados. Ah, claro, e barateamento de comissões.

Presidente da ABIH-SP, Ricardo Roman Jr. diz que o namoro começou no início do ano. “Eu que procurei a Flavia, logo que assumi”, conta o dirigente, em referência à diretora de Relações Institucionais do Airbnb para América Latina. “Toda diretoria foi unânime na parceria. A tecnologia está aí para ajudar, a inteligência artificial chegou. E é assim mesmo: toda disrupção gera crítica”, acrescenta.

A esquiva de Roman Jr. se fez necessária, porque outras entidades hoteleiras ficaram ouriçadas com a notícia. Para a reportagem, Manoel Linhares, presidente da ABIH Nacional, disse ser “totalmente contra os aplicativos”. “Há anos reivindicamos condições igualitárias na questão tributária. É uma concorrência desleal”, destacou Linhares, conhecido opositor em Brasília das plataformas de hospedagem alternativa. “É uma bandeira antiga, assim como o Ecad. Então, estamos tentando entender.”

ABIH-SP e a repercussão

Linhares disse que iria pedir mais detalhes sobre o memorando de intenções firmado entre as duas partes. “Queremos nos inteirar melhor sobre a parceria, mas tudo se resolve no diálogo. Agora, o Ricardo deveria ter levado ao conhecimento da ABIH Nacional, afinal há anos estamos lutando nessa questão dos aplicativos.” Em nota divulgada semana passada, a entidade disse ainda “não endossar acordos unilaterais celebrados com o Airbnb”.

Procurado pela reportagem para comentar a parceria, o FOHB (Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil) foi econômico. “A posição do FOHB sobre Airbnb continua a mesma: é preciso haver uma regulamentação clara para a plataforma. Todos os negócios possuem normativas claras e recolhem impostos. Por que eles deveriam ser exceção?”, disse a entidade, sem responder à pergunta feita pelo Hotelier News.

Já Alexandre Sampaio, presidente da FBHA (Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação), seguiu linha parecida. “Com a Reforma Tributária em debate em Brasília, a hotelaria deveria esperar um pouco para fazer uma aproximação dessa. Havendo equidade tributária, não vejo nenhum problema em uma parceria”, avalia. “A FBHA é contra o acordo, inicialmente”, acrescentou.

ABIH-SP, Airbnb e os interesses

O memorando de intenções citado por Linhares (e assinado entre as partes) baliza a parceria entre ABIH-SP e Airbnb. O documento tem cinco pilares: comercial, inteligência de mercado, qualificação para sustentabilidade, promoção turística e melhores práticas. “As conversas começaram em janeiro. Naquele momento, o interesse era unir esforços para promoção de destinos. Veio a pandemia e, agora, o acordo faz ainda mais sentido. Lá atrás, os cinco pilares já estavam previstos”, revela Flavia Matos, do Airbnb.

Para ela, o “valor institucional dessa parceria é muito grande”. E, de fato, é mesmo. Em guerra com muitas entidades de hotelaria mundo afora, a plataforma americana só tem acordo parecido com uma associação no Caribe, disse Flavia. Mais ainda, a iniciativa ajuda o Airbnb no plano de se consolidar entre as grandes OTAs do mercado. E, para isso, base é fundamental, além de reconhecimento. Fato é que, diante de todas essas batalhas contra a hotelaria, a empresa é mais vista como “concorrente desleal” do que qualquer outra coisa.

ABIH-SP - parceria Airbnb_Flavia Matos

Flavia disse que a plataforma está totalmente aberta a outras parcerias com entidades hoteleira

Ainda há pouco entendimento do mercado hoteleiro de que o Airbnb é mais um canal de distribuição – e que já “vende” quartos de hotéis. E, na verdade, a empresa tem planos ambiciosos na área, com intenção de se colocar como opção ao duopólio Booking.com e Expedia. Já houve outros movimentos neste sentido. “Sou de relações institucionais, não falo sobre os rumos do negócio. O que posso dizer é que a pandemia nos obrigou a enxugar muitos projetos. Hoje, certamente, estaríamos com muito mais hotéis na base do que agora com a parceria com ABIH-SP”, comenta Flavia.

Está vendo? Base é fundamental e, mesmo sem afirmar categoricamente, a executiva indica como a empresa deseja se posicionar. Além disso, a gorda fatia da hotelaria independente no país pode ser mais facilmente atingida com parceiros como a ABIH-SP, certo? Sem contar que acordos assim ajudam a mitigar certas antipatias, não? Seria um timing perfeito com o iminente IPO (Initial Public Offering) da plataforma americana? “Estamos no período de silêncio. Não posso comentar sobre estratégia de negócios”, esquivou-se Flavia.

Bem, a boa notícia é que o reconhecimento necessário para a execução do plano a empresa já tem. Pelo menos da ABIH-SP. “O Airbnb é mais um player no mercado de distribuição. Hoje, 15 hotéis associados estão testando a plataforma”, revela Roman Jr. “No momento atual, temos que estar em todas as prateleiras. Estamos com todos os principais distribuidores de hotéis do Brasil e do mundo. Ganhamos mais um. As informações que eles podem nos passar sobre o mercado são de extrema valia, e essa inteligência de mercado será levada aos associados. O mundo mudou e temos todo interesse em estar ao lado deles”, completa.

Os interesses estão aí. Um quer reconhecimento, trocar a pecha de concorrente desleal para efetivo parceiro de negócios e dar uma guinada definitiva na sua trajetória. O outro quer melhor distribuição e inteligência de mercado. Se a ABIH-SP conseguirá atingir o último interesse citado na abertura do texto, só o tamanho da base que a entidade entregará ao novo parceiro pode dizer. Agora, no diálogo tudo se resolve!

(*) Crédito da capa: Vinicius Medeiros/Hotelier News