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Quando a hospitalidade também está no prato – Alimentação consciente, acolhimento e sustentabilidade também se constroem à mesa

Sempre tive uma curiosidade especial pela Alemanha. E ela começou muito antes de qualquer viagem, roteiro ou passagem comprada.

Nasci vegetariana e, desde muito cedo, me chamou a atenção descobrir que um país tão associado às salsichas e ao Schnitzel também tinha uma tradição vegetariana tão forte. Essa aparente contradição sempre despertou minha curiosidade e, de alguma forma, fez com que eu quisesse conhecer a Alemanha muito antes de imaginar quando essa viagem realmente aconteceria. Por isso, quando surgiu o convite da Lufthansa e do Munich Airport para conhecer Munique, fiquei especialmente feliz. Não era apenas uma viagem para conhecer um novo destino. Havia, para mim, uma curiosidade muito particular, conhecer de perto um país que, de alguma maneira, já fazia parte da minha história.

Na semana passada, estive em Munique e também conheci o Lago Tegernsee, a cerca de uma hora da cidade e conhecido por ser uma região onde vivem alguns dos principais jogadores do Bayern de Munique.

Um dos lugares que mais me encantou foi o Viktualienmarkt, no coração de Munique. Para quem trabalha com hospitalidade, é impossível não perceber como a alimentação também faz parte da forma como um destino acolhe. Mais do que um mercado de alimentos, ele representa uma cultura de valorização dos produtos locais, dos pequenos produtores, dos ingredientes frescos e da produção orgânica. Existe ali uma relação muito forte com a origem daquilo que se come, com a qualidade do produto e com quem está por trás daquela produção. E talvez não seja por acaso que a Alemanha também tenha uma gastronomia tão respeitada internacionalmente, com tantos restaurantes reconhecidos pelo Guia Michelin e chefs admirados mundialmente pela alta gastronomia.

Foi justamente essa combinação que mais me chamou a atenção, um país cuja gastronomia é mundialmente associada à carne e que, ao mesmo tempo, se tornou uma referência internacional quando falamos de vegetarianismo e veganismo.
Essa história não é recente. A Alemanha foi um dos importantes centros europeus do movimento vegetariano organizado moderno, ainda no século XIX. Ao longo das décadas, esse movimento foi se transformando, crescendo e ganhando novas dimensões, até chegar à forte presença que vemos hoje.

Há dois documentários que ajudam a entender um pouco dessa trajetória por perspectivas muito diferentes. The End of Meat, dirigido pelo alemão Marc Pierschel, é talvez o que mais diretamente traduz essa relação com a Alemanha. O documentário imagina como seria um mundo sem carne e discute questões ambientais, éticas e sociais relacionadas ao consumo de produtos de origem animal. Ao mesmo tempo, apresenta pessoas, iniciativas e empresas que estão ajudando a construir uma nova maneira de pensar a alimentação, mostrando restaurantes, supermercados, produtos e alguns dos pioneiros do movimento vegano no país.

Já The Game Changers, conhecido no Brasil como Dieta de Gladiadores, aborda o vegetarianismo por outro caminho. O foco está principalmente na saúde, na força, na performance esportiva e na ideia de que uma alimentação baseada em vegetais pode fornecer proteína e nutrientes suficientes até mesmo para atletas de alto rendimento.
São dois documentários que, de certa forma, se complementam. Enquanto The End of Meat olha para o impacto ambiental, os animais, a sociedade e o futuro da alimentação, The Game Changers questiona uma ideia muito arraigada, a de que carne é indispensável para força, músculos e desempenho. Um país que carrega uma tradição gastronômica tão forte, que tem na carne um de seus símbolos culturais, mas que também construiu uma das cenas vegetarianas e veganas mais relevantes do mundo. Um país que valoriza profundamente seus produtores, seus ingredientes e sua gastronomia, mas que também está aberto a repensar aquilo que coloca no prato.

Dois documentários, duas perspectivas diferentes e uma mesma provocação, será que aquilo que sempre acreditamos sobre alimentação precisa continuar sendo verdade?
Talvez seja essa a parte da Alemanha que mais me interessa. Não uma Alemanha que abandona suas tradições, mas uma Alemanha que parece capaz de reinventá-las. Um país que preserva uma cultura gastronômica secular e, ao mesmo tempo, abre espaço para novas formas de comer. Que valoriza o pequeno produtor e a alta gastronomia. Que celebra seus ingredientes tradicionais, mas também desenvolve produtos e restaurantes voltados para quem escolhe não consumir carne. Que consegue ser profundamente tradicional e, simultaneamente, surpreendentemente contemporâneo.

E talvez seja aí que essa conversa encontre a hotelaria e o turismo. Se hospitalidade significa acolher, a alimentação também precisa fazer parte desse acolhimento, respeitando diferentes escolhas e necessidades. Quando isso se soma à valorização de produtores locais e a práticas mais responsáveis, inclusão e sustentabilidade passam a fazer parte da experiência e a hotelaria ainda tem muito a explorar nesse sentido.

Estar em Munique e conhecer de perto o Viktualienmarkt, a cultura local, os produtores e tantos restaurantes da cidade, foi uma maneira muito especial de viver tudo aquilo que eu imaginava, com os meus próprios olhos e também com o meu próprio paladar. E posso dizer que comi muito, comi muito bem e sempre encontrei excelentes opções vegetarianas.

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Renata Loducca é mãe de dois adolescentes, Malu e Daniel, e da Cuca, uma border collie e grande companheira.
Formada em Administração Hoteleira pela Universidade de Cornell e construiu sua trajetória profissional na área de Alimentos & Bebidas em alguns dos principais hotéis de luxo do mundo, como Four Seasons Resort Punta Mita, Four Seasons Resort Whistler, Four Seasons São Paulo, Four Seasons Resort Los Cabos, Rosewood São Paulo e Palácio Tangará. Ao longo desse caminho, teve a oportunidade de participar de importantes processos de abertura e operação de hotéis.
Hoje é gestora de Customer Experience na Teresa Perez, onde a conciergeria B2B e B2C está no coração dessa área. Também fazem parte do departamento o plantão emergencial, que atua no contraturno, além das frentes de dicas e primeiros contatos.
Sua trajetória sempre esteve ligada à hospitalidade, ao cuidado com os detalhes e à criação de experiências que façam diferença para as pessoas.

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