InícioHub DesignXArquiteturaThe Dolder Grand: quando o luxo se transforma em repertório

The Dolder Grand: quando o luxo se transforma em repertório

Em Zurique, patrimônio, arquitetura contemporânea, arte, gastronomia, natureza e bem-estar formam uma experiência em camadas, mostrando que os grandes hotéis são construídos por espaços e relações. Alguns hotéis impressionam pela arquitetura. Outros são reconhecidos pela gastronomia, serviço, spa ou pela localização. O diferencial do The Dolder Grand está na maneira como todos esses elementos são articulados para formar uma experiência coerente.

Localizado no alto do Adlisberg, cercado pela floresta e com vistas para Zurique, o lago e os Alpes, o hotel ocupa uma posição singular: suficientemente próximo da cidade para participar de sua vida cultural e social, mas distante o bastante para produzir uma sensação de refúgio. Com 175 quartos e suítes, restaurantes, espaços para eventos, uma coleção de arte com mais de 100 obras e um spa de 4 mil metros quadrados (m²), o empreendimento funciona como um verdadeiro city resort.

Álem de reunir atributos de alto padrão, o Dolder Grand demonstra como o luxo contemporâneo pode ser construído a partir da coexistência entre tempos, linguagens e experiências diferentes.

Uma arquitetura que não apaga o tempo

Suíte com vista

A história do hotel começou em 1899, quando o empresário Heinrich Hürlimann convidou o arquiteto suíço Jacques Gros para projetar o então Dolder Grand Hotel & Curhaus. Inspirado pela tradição das construções em madeira e pelas paisagens suíças, Gros criou um edifício que combinava os recursos técnicos de um hotel moderno com uma imagem romântica e quase fantástica da arquitetura alpina.

Mais de um século depois, o desafio não era simplesmente restaurar a propriedade, mas prepará-la para uma nova geração de hóspedes sem eliminar sua identidade. Entre 2004 e 2008, o edifício histórico foi recuperado e integrado a duas novas alas projetadas pelo escritório Foster + Partners. As construções adicionadas posteriormente ao volume original foram removidas, as três torres históricas voltaram a ocupar uma posição central e as novas alas passaram a enquadrar o edifício principal. O hotel reabriu em abril de 2008 como um resort urbano contemporâneo.

Em vez de tentar imitar a arquitetura de 1899, o projeto contemporâneo assume sua própria época. Vidro, aço, paredes curvas e grandes superfícies transparentes dialogam com a construção histórica sem competir com ela. Essa relação entre antigo e novo oferece uma atenção especial: preservar o que importa do edifício no passado, identificar aquilo que sustenta sua memória e permitir que novas camadas continuem a escrever sua história.

Arte como parte da jornada

Suíte presidencial

No Dolder Grand, a arte aparece nos corredores, restaurantes, áreas de circulação, terraços e espaços de convivência, transformando o deslocamento pelo hotel em uma experiência cultural.

A coleção reúne cerca de 100 obras de 90 artistas, incluindo nomes como Salvador Dalí, Niki de Saint Phalle, Jean Tinguely, Joan Miró, Max Ernst, Anselm Kiefer, Keith Haring, Fernando Botero e Takashi Murakami. Boa parte das peças está instalada nas áreas públicas, fazendo com que hóspedes, visitantes e moradores de Zurique possam conviver com elas.

Entre as obras estão Femmes métamorphosées – Les sept arts, de Dalí, posicionada na entrada do The Restaurant; Le Monde, de Niki de Saint Phalle e Jean Tinguely, no percurso em direção ao spa; e Woman with Fruit, de Botero, no terraço. Cada peça possui um QR code com informações sobre o artista e o trabalho, permitindo que o visitante construa seu próprio roteiro pelo acervo.

O resultado é um hotel que introduz surpresa, provoca curiosidade e cria pequenas pausas na jornada. A experiência deixa de ser completamente previsível. Ao atravessar um corredor, entrar em um restaurante ou chegar ao spa, o hóspede pode encontrar algo que o faça desacelerar, observar e interpretar.

O bem-estar como infraestrutura da experiência

Spa do hotel

Com 4 mil m², o spa é um dos principais elementos do posicionamento do hotel. Entretanto, sua relevância inclui dimensão, variedade de tratamentos e na maneira como o bem-estar foi integrado à arquitetura e à operação.

O espaço reúne piscina de 25 metros, áreas de hidroterapia, saunas, banhos de vapor, ambientes de meditação, academia, salas de tratamentos e suítes privativas de spa. As áreas dedicadas às mulheres e aos homens possuem diferentes experiências térmicas e sensoriais, enquanto a Aqua Zone conecta água, luz natural, silêncio e paisagem.

Há também duas suítes privativas de 70 m², equipadas com salas de tratamento, banho de vapor, hidromassagem, área de descanso, varanda e lareira. Mais do que oferecer um procedimento, o hotel constrói uma sequência espacial para a recuperação física e mental.

Essa abordagem mostra como o bem-estar está deixando de ser um serviço complementar para se tornar parte da infraestrutura da hospitalidade em hotéis de diversos destinos, inclusive no Brasil. Iluminação, temperatura, acústica, privacidade, alimentação, contato com a natureza e ritmo de atendimento passam a trabalhar conjuntamente. O spa é um território de transição entre o movimento e a pausa.

Gastronomia como arquitetura de experiências

Restaurante Mikuriya

A gastronomia amplia a diversidade de ocasiões dentro do hotel. O Dolder Grand possui quatro restaurantes, conceitos sazonais, lounge e bar, criando experiências que variam do fine dining à alimentação ao ar livre.

Comandado por Heiko Nieder, o The Restaurant possui duas estrelas Michelin e 19 pontos no GaultMillau. A proposta está baseada em combinações pouco convencionais, precisão técnica e menus que transformam a refeição em uma experiência de descoberta.

No Saltz, projetado pelo artista Rolf Sachs, a atmosfera é mais informal, com ingredientes e referências regionais. O Mikuriya oferece uma experiência japonesa para apenas oito pessoas no balcão, com os pratos preparados diante dos hóspedes. Já o Blooms, instalado próximo à floresta, entre hortas, ervas e árvores frutíferas, trabalha com criações vegetarianas e veganas, orgânicas, regionais e sazonais.

Cada restaurante atende a um estado emocional e a uma forma diferente de sociabilidade. Há espaços para celebração, contemplação, descoberta, encontros informais e contato com a natureza. Essa variedade transforma a gastronomia em instrumento de permanência. O hóspede não precisa deixar o hotel para encontrar novas experiências, enquanto o público local encontra diferentes motivos para frequentá-lo.

Um hotel que também pertence à cidade

Hotel integrado à cidade

Embora esteja cercado pela natureza, o Dolder Grand não se apresenta como um universo fechado. Restaurantes, lobby, bar, spa e programação cultural atraem moradores e visitantes, fazendo com que o empreendimento também funcione como ponto de encontro da cidade. O próprio hotel se define como um social hub, frequentado por públicos locais e internacionais.

Essa relação é estratégica. O empreendimento passa a oferecer diferentes portas de entrada: alguém pode chegar para jantar, visitar a coleção de arte, encontrar amigos, utilizar o spa ou participar de um evento. Cada visita pode criar familiaridade e construir uma relação futura com a marca.

O hotel deixa de ser apenas um lugar para quem está de passagem e passa a fazer parte da vida cotidiana do destino.

Sustentabilidade sem perder a experiência

A modernização também incorporou soluções ambientais. O sistema geotérmico do complexo utiliza 70 sondas instaladas a 152 metros de profundidade. De acordo com a empresa, a tecnologia contribuiu para reduzir pela metade o consumo energético, mesmo com a duplicação da área útil durante a reforma. Em 2024, painéis fotovoltaicos também foram instalados sobre as alas contemporâneas e na estação do Dolderbahn.

O aspecto mais interessante é que essas soluções não aparecem como um discurso separado da experiência. Elas fazem parte da inteligência invisível do edifício. Esse talvez seja um dos caminhos mais relevantes para a hotelaria: utilizar tecnologia para reduzir impactos e melhorar o desempenho operacional sem aumentar a complexidade percebida pelo hóspede.

O que o The Dolder Grand inspira à hotelaria

Obras de arte pelo hotel

O Dolder Grand mostra que o luxo não precisa estar associado apenas à raridade dos materiais ou à exuberância dos espaços. Ele pode surgir da profundidade do repertório oferecido.

A arquitetura preserva a memória e acolhe novas linguagens. A arte cria pausas e descobertas. O spa organiza uma jornada de recuperação. A gastronomia oferece diferentes formas de encontro. A natureza produz distanciamento da cidade, enquanto o hotel continua conectado à vida social de Zurique.

O verdadeiro diferencial está na curadoria e na capacidade de transformar componentes distintos em uma experiência reconhecível. O hotel entrega hospedagem, gastronomia, arte, bem-estar e também a possibilidade de viver diferentes histórias dentro do mesmo lugar.

Na minha opinião, essa é uma das melhores definições do luxo contemporâneo: encontrar mais significados em cada experiência.