Apesar do discurso alarmista de executivos de tecnologia, os efeitos da IA (inteligência artificial) sobre o emprego ainda aparecem de forma moderada nos dados mais recentes. Uma pesquisa com CFOs nos Estados Unidos indica que cerca de 502 mil postos de trabalho devem ser eliminados em 2026 — o equivalente a 0,4% da força de trabalho do país, segundo informado pelo InfoMoney.
Nos últimos meses, lideranças do setor reforçaram previsões mais duras. O chefe de IA da Microsoft, Mustafa Suleyman, afirmou que a tecnologia pode desestruturar empregos de escritório em até 18 meses. Já o CEO da Anthropic, Dario Amodei, projeta a redução pela metade dos cargos de entrada nesse mesmo intervalo. Até o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, reconheceu que a IA já exerce impacto silencioso sobre o mercado, mesmo com a criação de vagas próxima de zero.
Na prática, porém, os números sugerem uma transição mais gradual. Levantamento do National Bureau of Economic Research, baseado em respostas de 750 CFOs, mostra que apenas 44% das empresas pretendem realizar cortes relacionados à IA. Ao extrapolar os dados para a economia americana, os pesquisadores estimam que metade das demissões deve atingir trabalhadores de escritório.
O avanço é relevante em termos proporcionais, representa um aumento de nove vezes frente às 55 mil demissões atribuídas à tecnologia no ano anterior, mas ainda distante de uma disrupção generalizada. “Não é o cenário de fim do mundo para empregos que às vezes aparece nas manchetes”, disse John Graham, coautor do estudo e diretor da pesquisa com CFOs da Duke.
Produtividade ainda não acompanha expectativas
Além do impacto no emprego, o estudo aponta um descompasso entre o entusiasmo com a IA e os resultados efetivos. Segundo os pesquisadores, as empresas ainda não conseguem traduzir os ganhos prometidos em aumento real de produtividade ou receita.
Essa percepção é compartilhada por economistas. Ronnie Walker, do Goldman Sachs, destacou que, apesar do volume de investimentos, “ainda não encontramos uma relação significativa entre produtividade e adoção de IA no nível da economia como um todo”.
Há também relatos de profissionais que apontam o efeito contrário: em alguns casos, a tecnologia tem aumentado a complexidade das rotinas, elevando o tempo gasto em determinadas tarefas em até 346%.
O paradoxo da inteligência artificial
Para explicar essa defasagem, os pesquisadores recorrem ao chamado paradoxo de Solow, conceito formulado pelo economista Robert Solow. A teoria sugere que grandes inovações podem estar amplamente disseminadas no cotidiano sem, necessariamente, aparecer nos indicadores econômicos.
“Você pode ver a era do computador em todos os lugares, menos nas estatísticas de produtividade”, disse Solow.
Segundo Graham, o cenário atual reflete mais uma expectativa do que um resultado consolidado. “As empresas investiram e estão percebendo várias coisas interessantes que estão começando a fazer ou esperam fazer no futuro próximo”, afirmou. “Mas isso ainda não está aparecendo na receita.”
Cortes pontuais e mercado em compasso de espera
Embora ainda restritos em escala, os cortes já começam a aparecer em casos específicos. Empresas como Block, Atlassian e Meta realizaram ou planejam reduções relevantes em seus quadros, associadas à adoção de IA.
Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho dá sinais de desaceleração. Nos Estados Unidos, foram registrados 92 mil cortes de empregos em um único mês, enquanto a taxa de desemprego subiu para 4,4%.
Pequenas empresas podem inverter a tendência
Um dos pontos mais relevantes do estudo é a possibilidade de compensação parcial dessas perdas. Empresas menores, especialmente aquelas com menos de 500 funcionários, tendem a ampliar contratações em funções técnicas à medida que avançam na adoção da IA.
“Se é que há alguma coisa, as pequenas empresas estão contratando um pouco na área técnica, o que vai compensar [as perdas] em alguma medida”, disse Graham.
Ainda assim, o levantamento reflete apenas o cenário de curto prazo. Para o médio e longo prazo, as incertezas permanecem — inclusive entre os próprios pesquisadores. “Quem sabe o que vai acontecer em 2028?”, afirmou Graham. “Não estou fazendo a previsão de que nunca haverá perda de empregos daqui a dois, três ou cinco anos por causa da IA.”
(*) Crédito da foto: Hotelier News














