InícioHub DesignXHospitalidadeCASACOR Mato Grosso transforma Corian em linguagem de design

CASACOR Mato Grosso transforma Corian em linguagem de design

A CASACOR Mato Grosso 2026 encerrou sua edição no dia 30 de agosto, em Cuiabá, celebrando 25 anos de presença no estado. Foram 25 ambientes, além de uma ativação especial, reunidos sob o tema Mente e Coração, proposta que colocou em diálogo razão e emoção, funcionalidade e sensibilidade. Depois de 15 anos ocupando espaços comerciais, a mostra voltou a uma residência — um casarão da década de 1970 no bairro Santa Rosa — recuperando a escala mais intimista do morar.

Sala Jogo da Vida, assinada por Thiago Sola e Flávia Sola

Em meio às diferentes interpretações do tema, um aspecto chama atenção para quem observa arquitetura também pelo ponto de vista da indústria e da hotelaria: a transformação do material em produto.

O Studio NU, especializado no desenvolvimento de soluções em Corian®, participou de cinco projetos ligados à edição: Lounge Ânima, de Thais Lavrador; Além das Fronteiras, de Ivã Guimarães; Água, Pedra e Silêncio, de Rúbia Moraes; Sala Jogo da Vida, de Thiago Sola e Flávia Sola; e Restaurante Lar, de William Magaiver.

Mais interessante do que a quantidade de participações, porém, é perceber como o material deixa de aparecer apenas como superfície para assumir novas escalas e funções.

Quando a superfície se transforma em produto

Capa do Anuário CASACOR Mato Grosso 2026

Durante muito tempo, o solid surface foi associado principalmente a bancadas de cozinhas, banheiros e áreas de serviço. Os projetos apresentados em Mato Grosso ajudam a ampliar essa percepção.

Nos registros dos trabalhos desenvolvidos pelo Studio NU aparecem mesas, mobiliários de apoio, volumes tridimensionais, superfícies para jogos e peças desenhadas especialmente para cada arquitetura. Em alguns casos, relevos, curvas, espessuras aparentes e geometrias repetitivas fazem com que seja difícil identificar onde termina a superfície e começa o próprio objeto.

É justamente aí que o Corian deixa de funcionar apenas como acabamento e passa a participar efetivamente do desenvolvimento do produto.

A possibilidade de trabalhar o material com cortes, usinagem, colagens praticamente imperceptíveis e conformação de formas amplia a liberdade de projeto. A própria Corian destaca sua capacidade de criar elementos contínuos e geometrias personalizadas, incluindo peças termoformadas e superfícies com aparência praticamente sem emendas.

Para arquitetos e designers, isso significa poder desenhar algo que não precisa necessariamente partir de uma peça existente no mercado. E essa liberdade tem uma relação direta com a hotelaria.

Sala Jogo da Vida: mobiliário como parte da experiência

Prêmio de Melhor Experiência Sensorial

Um dos exemplos mais interessantes está na Sala Jogo da Vida, assinada por Thiago e Flávia Sola.

Inspirados em Mente e Coração, os profissionais procuraram afastar o ambiente do estereótipo de uma sala de jogos convencional. O projeto foi concebido como lugar de encontro, permanência e conexão — um espaço para o jogo, mas também para conversa e pausa.

Mobiliário, marcenaria, iluminação cênica e uma base de materiais em tonalidades quentes e terrosas constroem essa atmosfera. A intenção, segundo a apresentação do projeto, foi trabalhar materiais e cores capazes de atravessar o tempo sem provocar um envelhecimento estético rápido.

Nos elementos executados pelo Studio NU, o Corian é incorporado ao mobiliário de jogos e de apoio, aproximando desenho, superfície e função. O resultado chamou bastante atenção: a Sala Jogo da Vida recebeu o prêmio de Melhor Experiência Sensorial da CASACOR Mato Grosso 2026.

Há aqui uma boa provocação para a hotelaria. Salas de jogos, lounges, bibliotecas, clubes privativos e áreas de convivência podem deixar de ser conjuntos de móveis independentes e passar a ser desenvolvidos como experiências integradas, nas quais mesas, bares, iluminação, materiais e circulação fazem parte de uma mesma narrativa.

Ânima: entre razão e emoção

Além das Fronteiras, de Ivã Guimarães

Essa relação se torna ainda mais explícita no Lounge Ânima, de Thais Lavrador. O nome deriva da ideia de alma, essência e pulso vital. O projeto foi dividido conceitualmente entre Mente e Coração. De um lado, a Mente aparece em um espaço de bar e adega, com tecnologia incorporada de maneira discreta. Do outro, o Coração assume a forma de um living construído a partir de memórias afetivas e referências que atravessam gerações.

As peças produzidas em Corian ajudam a revelar outra característica interessante do material: sua capacidade de adquirir uma presença quase escultórica. Mesas e apoios deixam de ser elementos neutros. Relevos, volumes, curvas e repetições geométricas transformam o mobiliário em parte da identidade visual do ambiente.

É uma mudança importante de perspectiva: não se escolhe apenas um material para fabricar o móvel; explora-se o material para descobrir qual móvel pode surgir dele.

Restaurante Lar: o encontro com a hospitalidade

Restaurante Lar, de William Magaiver

No Restaurante Lar, de William Magaiver, a aproximação com o universo da hotelaria é ainda mais direta. O ambiente foi concebido como uma experiência gastronômica intimista, com forte presença de vermelho e combinações com caramelo, roxo e branco. A releitura de referências dos anos 1970 aparece em uma linguagem contemporânea, acolhedora e bastante cenográfica.

O projeto ainda foi escolhido como um dos quatro ambientes a estampar as diferentes capas do Anuário CASACOR Mato Grosso 2026, reconhecimento que ampliou seu destaque dentro da mostra. A participação do Studio NU nesse ambiente abre uma discussão especialmente pertinente para bares e restaurantes de hotéis.

Em food service, desenho e operação precisam caminhar juntos. Uma superfície bonita que não suporte limpeza frequente, manutenção ou uso intenso rapidamente se transforma em problema operacional.

Corian® é um material sólido e não poroso, que pode ser unido com juntas não aparentes e apresenta facilidade de limpeza. Para aplicações em alimentação, a fabricante informa também certificação NSF/ANSI Standard 51 para contato com alimentos.

Essa combinação ajuda a explicar por que o material aparece internacionalmente em bares, mesas, buffets, balcões, restaurantes e áreas públicas de hotéis.

Cinco ambientes, cinco maneiras de pensar o material

Água, Pedra e Silêncio, de Rúbia Moraes

A presença do Studio NU ainda se estendeu à Sala de Leitura Além das Fronteiras, de Ivã Guimarães, e ao ambiente Água, Pedra e Silêncio, de Rúbia Moraes.

No primeiro, a proposta vai além da leitura e cria um lugar destinado também às conversas e aos momentos de pausa. Referências gráficas aos anos 1970 convivem com uma interpretação contemporânea do ambiente.

Somadas às demais participações, essas experiências mostram justamente a amplitude que interessa quando pensamos em especificação: um mesmo material pode atravessar programas completamente diferentes sem precisar assumir sempre a mesma expressão formal.

Essa talvez seja uma das lições mais relevantes da mostra.

Por que a hotelaria deveria olhar para esses experimentos?

Material contribui para a identidade proprietária de um hotel

Hotéis têm um desafio diferente do residencial. Precisam criar identidade e emoção, mas convivem diariamente com alta frequência de uso, limpeza constante, manutenção, troca de hóspedes e necessidade de preservar um padrão visual durante muitos anos.

É justamente nessa fronteira entre design e operação que a experimentação apresentada na CASACOR ganha relevância.

Segundo a Corian, o solid surface é não poroso, pode formar superfícies praticamente contínuas, apresenta facilidade de limpeza e manutenção e pode ser restaurado ou reparado em diversas situações de desgaste. Na hotelaria, a própria fabricante destaca aplicações em quartos, banheiros, recepções, restaurantes e áreas comuns.

Mas existe uma segunda camada, talvez mais interessante. A possibilidade de fabricar peças personalizadas permite que o material contribua para a identidade proprietária de um hotel.

Uma mesa desenhada exclusivamente para um lobby, um balcão que se transforma em escultura, uma bancada integrada à iluminação, um móvel que incorpora a sinalização ou uma peça criada especificamente para determinado restaurante podem se tornar elementos reconhecíveis da marca.

Em um mercado no qual hotéis procuram cada vez mais diferenciar suas experiências, isso tem valor.

Da especificação para o desenvolvimento de produto

Experiência, identidade e desempenho

A participação do Studio NU na CASACOR Mato Grosso revela uma mudança que merece atenção. O debate já não é apenas qual superfície especificar, mas o que pode ser desenvolvido a partir dela. É uma diferença sutil, mas importante.

Ao aproximar arquitetos, designers, indústria e fabricantes especializados, materiais tradicionalmente associados à construção passam a participar do universo do design de produto. E móveis deixam de ser necessariamente itens escolhidos em um catálogo para se tornarem extensões da própria arquitetura.

Na hotelaria, onde experiência, identidade e desempenho precisam conviver durante todo o ciclo de vida do empreendimento, essa integração pode abrir um território bastante fértil.

A CASACOR Mato Grosso 2026 mostra que inovação material nem sempre significa descobrir um material novo. Às vezes, significa simplesmente olhar de uma maneira nova para aquilo que já sabemos fabricar.

(*) Crédito das fotos: Gilberto Galdino