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O papel invisível dos materiais na experiência hoteleira

Na hotelaria contemporânea, materiais constroem atmosfera, regulam a percepção, criam memória e influenciam a sensação de conforto antes mesmo de o hóspede racionalizar o espaço.

Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes para quem projeta, opera ou investe em hospitalidade: o valor de um ambiente não está apenas no que ele mostra, mas no que ele faz sentir.

Em 2026, essa percepção ganha força em diferentes territórios do design. Da CASACOR à Expo Revestir, do Salone del Mobile à Milano Design Week, do Fuorisalone à DW! Semana de Design de São Paulo, da Bienal de Arquitetura às feiras dedicadas a revestimentos, pedras e superfícies, como Cersaie e Marmomac, uma leitura se repete: textura, luz, pedra, madeira, tecidos, revestimentos e superfícies táteis deixaram de ser escolhas meramente estéticas para se tornarem parte da experiência.

O acabamento, nesse contexto, vira linguagem. Ele pode desacelerar, aquecer, acolher, ampliar, proteger, sofisticar ou aproximar. Pode sugerir silêncio, permanência, frescor, intimidade ou pertencimento. Pode transformar um lobby em zona de transição emocional, um quarto em refúgio, um banheiro em ritual de bem-estar, um restaurante em memória afetiva.

A superfície, quando bem pensada, passa a atuar como protagonista silenciosa da hospitalidade.

O hóspede sente antes de entender

ECOcero estreia na Expo Revestir com soluções acústicas

A experiência hoteleira começa muito antes da explicação racional. O corpo lê o espaço de forma rápida: a temperatura da luz, a textura de uma parede, o toque de uma madeira, a presença de uma pedra natural, a maciez de um tecido, o brilho ou a opacidade de um revestimento.

Esses elementos influenciam a sensação de conforto mesmo quando não são percebidos conscientemente.

Um material muito frio pode transmitir distanciamento. Uma superfície excessivamente brilhante pode gerar estímulo visual. Uma textura mineral, por outro lado, pode sugerir permanência, solidez e acolhimento. A madeira pode aproximar o ambiente da ideia de natureza e calor. Tecidos e tramas podem suavizar a acústica e trazer escala humana. A pedra pode transmitir permanência, território e autenticidade.

Por isso, falar de acabamento na hotelaria atual é falar de comportamento humano. O hóspede talvez não saiba nomear o revestimento aplicado na parede, mas ele percebe se o ambiente o convida a ficar, se o espaço parece confortável, se a luz conversa com a matéria, se os sons são suavizados, se a textura ajuda a criar uma memória.

É nessa camada invisível que o design ganha força estratégica.

2026 e a volta da matéria como experiência

Salone del Milano: matéria, luz, cor e arquitetura

Depois de anos em que a inovação foi muitas vezes associada ao digital, à automação e à eficiência operacional, 2026 aponta para outro equilíbrio: a tecnologia continua importante, mas a matéria volta ao centro da experiência.

Nos ambientes apresentados em mostras, feiras e instalações, a busca não está apenas por superfícies bonitas, mas por superfícies com presença. Materiais naturais, minerais, porosos, táteis, artesanais ou com aparência menos industrializada aparecem como resposta a um desejo crescente por ambientes mais sensoriais, humanos e memoráveis.

Na CASACOR, essa leitura aparece em espaços que trabalham pausa, acolhimento, sombra, vegetação, luz filtrada, pedra, madeira e composição de texturas. Na Expo Revestir, surge na valorização de revestimentos com profundidade visual, relevos, grandes formatos, pedras reinterpretadas, superfícies contínuas e acabamentos que simulam ou evocam materiais naturais. Em Milão, especialmente no Salone, Fuorisalone e Milano Design Week, o tema se amplia: matéria, luz, cor e arquitetura passam a construir narrativas imersivas.

Na DW! São Paulo, essa discussão ganha uma camada brasileira importante: identidade, memória, território, artesania, indústria e criatividade local aparecem como ingredientes para pensar experiências mais conectadas ao contexto.

Para a hotelaria, essa combinação é especialmente relevante. Hotéis não precisam apenas parecer atuais. Eles precisam criar vínculos. E vínculos são construídos por atmosferas.

Quando a superfície vira narrativa

Locanda Osteria: textura aveludada e mineral cria atmosfera

Um exemplo interessante vem da HD Surface, no projeto Locanda Osteria, em Agrigento, na Sicília. A hospedagem nasce da renovação de uma antiga padaria da Primeira Guerra Mundial e utiliza a coleção Argille como elemento central da experiência.

A escolha do material não funciona apenas como acabamento. Ela ajuda a costurar história, território e sensação de acolhimento.

Argille é descrita como uma superfície natural feita com argila, fibras vegetais e pó de mármore micronizado. Sua textura aveludada e mineral cria uma atmosfera suave, onde a luz se movimenta sobre as paredes em nuances e sombras delicadas. No projeto, ela aparece em paredes, portas, mobiliários e detalhes, criando continuidade visual e uma sensação de interior envolvente.

O interessante para a hotelaria não está apenas no produto, mas no raciocínio: quando a superfície se estende para diferentes elementos do espaço, ela cria unidade, reduz ruído visual e transforma o ambiente em uma experiência mais imersiva.

Não é só uma parede bonita. É uma narrativa material. Essa é uma provocação importante para hotéis: quando o material é pensado desde o conceito, ele deixa de ser especificação técnica e passa a ser parte do posicionamento da marca.

Textura, luz e memória

Soft touch walls by San Marco

A San Marco, com a proposta Soft Touch Walls, também aponta para uma tendência relevante: paredes com efeito tátil, texturas aveludadas, reflexos suaves e conforto visual. Em projetos de hospitalidade, esse tipo de acabamento pode ajudar a criar atmosferas mais acolhedoras e sofisticadas, especialmente em quartos, lounges, spas, áreas de espera e restaurantes.

A parede deixa de ser uma superfície neutra e passa a interagir com a luz. Esse ponto é essencial. Não existe superfície sensorial sem luz. A mesma textura pode parecer fria, dramática, natural, sofisticada ou acolhedora dependendo da temperatura, incidência e intensidade luminosa. Por isso, materiais e iluminação não deveriam ser pensados separadamente.

Na experiência do hóspede, luz, textura, sons, aromas, temperatura, materiais e objetos trabalham juntos. Eles despertam lembranças, criam associações e constroem conexões emocionais. É esse conjunto que faz um espaço ser lembrado.

Um quarto pode ter bons móveis, boa metragem e boa tecnologia. Mas se a luz incomoda, se os materiais parecem artificiais, se as superfícies não conversam entre si ou se o ambiente transmite excesso de estímulo, a percepção de conforto se perde. Hospitalidade é coerência sensorial.

Materiais naturais como tecnologia de conforto

Materia Viva da Novacolor

Outra leitura importante vem da linha Materia Viva, da Novacolor, que trabalha revestimentos minerais à base de cal com fragmentos de materiais como tijolo moído, cortiça, pedra-pomes, conchas, cânhamo e mármore.

A proposta traduz bem uma tendência de 2026: natureza não apenas como estética, mas como linguagem material.

Superfícies com aparência natural, irregularidade controlada, toque mais orgânico e profundidade visual respondem a uma busca por ambientes menos padronizados. Na hotelaria, isso pode ser um diferencial importante, especialmente em um mercado em que muitos empreendimentos correm o risco de parecer iguais.

A naturalidade ajuda a criar singularidade. Mas é preciso cuidado: o uso de materiais naturais ou inspirados na natureza não deve ser apenas decorativo. Para gerar valor real, eles precisam dialogar com operação, manutenção, durabilidade, limpeza, acústica, conforto térmico, identidade local e posicionamento do hotel.

A melhor superfície não é apenas a mais bonita. É aquela que sustenta a experiência prometida.

Oportunidade para hotéis: sair do acabamento e entrar na atmosfera

Espaço Aria da CasaCor SP 2026 da Arq. Camila Othon

Para hotéis, resorts, pousadas e empreendimentos de alto padrão, a discussão sobre superfícies abre uma oportunidade estratégica. Em vez de perguntar apenas “qual revestimento usar?”, talvez a pergunta mais relevante seja: “qual sensação queremos construir?

Se a proposta é bem-estar, os materiais precisam ajudar a desacelerar. Se a proposta é sofisticação urbana, as superfícies precisam transmitir precisão, conforto e elegância sem excesso.

Se a proposta é conexão com o território, pedra, madeira, fibras, cores e texturas podem traduzir a paisagem, a cultura e a memória local.

Se a proposta é longa permanência, os materiais precisam gerar familiaridade, aconchego e resistência ao uso contínuo.

Se a proposta é luxo contemporâneo, talvez o diferencial esteja menos no brilho evidente e mais na qualidade silenciosa da matéria.

Esse raciocínio vale para quartos, banheiros, corredores, restaurantes, recepções, áreas de eventos, spas, rooftops e espaços externos. Cada superfície comunica algo. E quando tudo comunica ao mesmo tempo, o projeto pode virar ruído ou experiência.

A nova sofisticação é sensorial

Salone Internazionale Mobile de MASCHERONI

O luxo contemporâneo na hotelaria não está necessariamente em adicionar mais materiais nobres ou criar ambientes visualmente impactantes. Está em saber dosar estímulos, construir continuidade, escolher texturas com intenção e criar espaços que pareçam naturalmente confortáveis. É uma sofisticação menos óbvia, mas muito mais memorável.

O hóspede atual busca eficiência, sim. Busca tecnologia, praticidade e conveniência. Mas também busca pausa, pertencimento, cuidado e bem-estar. Em um mundo saturado de telas, velocidade e informação, o contato com materiais que despertam presença pode se tornar um diferencial competitivo.

A superfície tátil convida o corpo a perceber o espaço.

A pedra sugere permanência.
A madeira aproxima.
O tecido acolhe.
A cal respira.
A textura cria profundidade.
A luz revela.
O silêncio organiza.
A matéria constrói memória.

Conclusão

Hóspede entra, circula, repousa, lembra e deseja voltar

Em 2026, a grande tendência das superfícies está apenas na capacidade de transformar matéria em experiência. Para a hotelaria, isso significa entender que materiais não são decisões finais de projeto. Eles são parte da estratégia de hospitalidade. Eles ajudam a definir como o hóspede entra, circula, repousa, lembra e deseja voltar.

Superfícies bem escolhidas revestem paredes, pisos e mobiliários para acolher, orientar, silenciar, aquecer, conectar e dar identidade ao espaço. No fim, talvez o acabamento mais importante de um hotel não seja aquele que o hóspede fotografa. É aquele que ele sente.

(*) Crédito das fotos: Divulgação

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