Seguindo a tendência de alta observada desde o início do ano, o endividamento no Brasil voltou a crescer e, em maio, atingiu 78,2% das famílias, segundo dados da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), divulgados pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). O índice representa alta de 0,6 ponto percentual em relação a abril. Apesar disso, segue abaixo do observado no mesmo mês do ano passado, quando 78,8% das famílias relataram ter dívidas.
Mais preocupante, porém, foi o avanço da inadimplência, que subiu 0,4 ponto percentual frente ao mês anterior e 0,9 ponto em relação a maio de 2024, chegando a 29,5%. Este é o maior patamar registrado desde outubro do ano passado. Entre os inadimplentes, 12,5% afirmaram não ter condições de quitar suas dívidas — contra 12% no mesmo mês de 2024.
“Apesar do percentual de endividados ter ficado abaixo do registrado em 2024, o avanço na inadimplência evidencia um aumento da fragilidade financeira das famílias. O crédito precisa ser acessado com responsabilidade. Garantir o equilíbrio entre a individualização e a capacidade de pagamento será fundamental para o crescimento do País”, afirma José Roberto Tadros, presidente da CNC.
Dívidas mais curtas e risco de sobrecarga
Um dos indicadores mais relevantes da nova pesquisa é a redução das dívidas de longo prazo. Pela quinta vez consecutiva, caiu o percentual de famílias com compromissos superiores a um ano, agora em 32,8% — o menor índice desde junho. Em contrapartida, houve crescimento nas faixas de curto e médio prazos, sinalizando maior adesão a linhas de crédito com vencimentos mais próximos.
“As projeções da CNC indicam que o endividamento das famílias deve continuar crescendo ao longo de 2025. No entanto, a expectativa de alta também da inadimplência pode desacelerar esse movimento. O cenário se agrava com a perspectiva de novos programas de crédito do governo, que podem aumentar ainda mais o comprometimento da renda dos lares brasileiros”, avalia Felipe Tavares, economista-chefe da CNC.
Entre as modalidades de crédito, o cartão de crédito segue como a principal escolha, apontado por 83,6% das famílias. No entanto, esse número representa queda de 3,3 pontos percentuais em relação a maio do ano passado. Os carnês (17,2%) e o crédito pessoal (10,6%) apresentaram crescimento na preferência, com altas de 1 e 0,8 ponto, respectivamente, em um ano.
Apesar da alta nos índices de endividamento e inadimplência, a parcela da renda comprometida com dívidas deu sinais de alívio. O percentual de famílias que destinam mais da metade do orçamento às dívidas caiu para 19,7%, o menor nível desde julho de 2023. A média de comprometimento mensal também cedeu, atingindo 29,8% da renda familiar.
O levantamento da CNC também aponta uma divisão clara na percepção das famílias sobre seu próprio endividamento. Subiu para 15,5% a fatia dos que se consideram “muito endividados”, enquanto o grupo que afirma estar “pouco endividado” subiu para 33,4%. A polarização do sentimento financeiro reflete um cenário de incertezas e instabilidade na organização orçamentária das famílias.
Classe média sob maior pressão
Entre os recortes por faixa de renda, os dados mostram que a classe média foi a mais pressionada em maio. Entre os que ganham entre cinco e 10 salários mínimos, o endividamento cresceu 3,2 pontos percentuais. Esse grupo também se consolidou como o mais inadimplente da amostra, com alta de 1,5 ponto na comparação mensal e de 0,4 ponto na anual, totalizando 22,8%.
Já entre as famílias com renda entre três e cinco salários mínimos, a inadimplência teve o maior salto proporcional: 2,8 pontos percentuais em relação a maio de 2024.
No recorte por gênero, os homens lideraram a alta do endividamento e da inadimplência. A taxa de endividamento masculino passou de 77,9% em maio de 2024 para 78,2% neste ano. Entre as mulheres, a taxa caiu 1,9 ponto, chegando a 78,1%.
Na inadimplência, o padrão se repetiu: entre os homens, o índice subiu 1 ponto percentual, atingindo 29,6%, enquanto entre as mulheres houve recuo de 0,4 ponto, para 29,2%. O cenário acende um alerta sobre a necessidade de maior atenção à gestão financeira masculina, apontada como mais vulnerável pelos analistas da CNC.
(*) Crédito da foto: Divulgação














