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Expansão e eficiência desafiam mercado Mice

O Expo Center Norte, na zona norte de São Paulo, enfrenta um desafio que vai além da demanda por espaços para eventos. Se um dia os pavilhões se esvaziaram em razão de uma pandemia, agora, o objetivo principal é encontrar disponibilidade em uma agenda condicionada por um modus operandi bem definido: montagem, realização e desmontagem. Com mais de 300 eventos no calendário anual, o complexo tem poucos espaços livres para os próximos anos e trabalha em projetos de expansão para acompanhar o mercado.

Segundo Paulo Ventura, diretor do Expo Center Norte e presidente da Ubrafe (União Brasileira de Feiras e Eventos de Negócios), o empreendimento recebe 96 feiras e eventos de negócios por ano, sua principal atividade. A programação inclui ainda congressos, treinamentos, formaturas e outros encontros. Para o executivo, a limitação de capacidade está entre os fatores que justificam a ampliação da estrutura.

A ocupação média do espaço gira em torno de 68%, índice que, isoladamente, pode sugerir uma margem considerável para receber novas atividades. Na prática, porém, a leitura é diferente. Eventos de grande porte exigem intervalos para a montagem e a desmontagem das estruturas, o que impede o aproveitamento de janelas curtas entre duas programações.

“Dos 365 dias do ano, eu estar ocupado 240 é um mar de briga, é o céu de brigadeiro”, afirma Ventura. Ele explica que, em determinados intervalos, o complexo pode ter dezenas de milhares de metros quadrados vazios por apenas 1 ou 2 dias, período insuficiente para viabilizar outro evento.

Para o executivo, uma ocupação próxima de 70% já representa um patamar elevado para grandes espaços de eventos. O cálculo precisa considerar, ainda, períodos tradicionalmente menos favoráveis à realização de encontros corporativos, como parte de janeiro, Natal e Réveillon.

Expansão para atender à demanda

A limitação de datas disponíveis está por trás dos planos de expansão do Expo Center Norte. O empreendimento integra a Cidade Center Norte, projeto de desenvolvimento imobiliário que prevê conectar os ativos existentes a novas estruturas e áreas de uso misto — entre eles complexo de eventos, Shopping Center Norte, Lar Center e um hotel.

Entre os projetos citados por Ventura estão a ampliação dos pavilhões do Expo Center Norte, a construção de uma arena multiuso coberta para 21 mil pessoas e um novo empreendimento hoteleiro. O espaço está sendo desenvolvido em parceria com a Live Nation, que ficará responsável pela administração e contratação dos shows.

A proposta é que o espaço tenha uso múltiplo, podendo receber apresentações musicais, competições esportivas e determinadas atividades de congressos e negócios. A iniciativa busca ampliar a oferta de locais para grandes eventos em São Paulo, inclusive no segmento de entretenimento indoor.

O executivo também mencionou planos para uma nova unidade hoteleira, com capacidade estimada em cerca de 800 quartos. O projeto ainda está em fase de aprovação, e não há definição confirmada sobre a futura operadora. De acordo com Ventura, o desenvolvimento da Cidade Center Norte deve avançar ao longo de um horizonte de aproximadamente 10 anos.

A expansão imobiliária também prevê maior integração entre os empreendimentos e circulação de pedestres. Segundo o diretor, a proposta é concentrar o fluxo de veículos nas extremidades do complexo, com estacionamentos verticais, e priorizar áreas caminháveis no centro do projeto.

Paulo Ventura - Expo Center Norte - Mice
Ventura: “Sem saber lidar com pessoas, não há eventos”

Montagem rápida pode ampliar capacidade

Além da construção de novos espaços, Ventura aponta a modernização dos sistemas de montagem como uma das principais oportunidades para o setor. Quanto menor o tempo necessário para preparar e desmontar uma feira, maior a possibilidade de aproveitar os intervalos da agenda e receber outras programações.

O modelo tradicional, baseado no uso de madeira e em estruturas construídas para cada edição, tende a perder espaço para sistemas modulares e reutilizáveis. A mudança pode reduzir o tempo de montagem, diminuir a geração de resíduos e tornar o processo mais eficiente.

“Quanto mais tempo for ocupado com menos tempo, com mais evento e menos montagem, mais eventos vamos ter, mais disponibilidade vai acontecer, maior vai ser a ocupação”, diz Ventura.

O executivo avalia que a adoção de estruturas reutilizáveis deve avançar nos próximos 5 anos, impulsionada pela evolução dos materiais e pela redução dos custos dos sistemas construtivos. Em novembro, a Ubrafe planeja levar uma missão à China para conhecer fornecedores e modelos de montagem que possam ser aplicados no Brasil.

A mudança, no entanto, não depende apenas da tecnologia. Ventura ressalta que organizadores e expositores também precisam rever critérios de planejamento. Em vez de priorizar exclusivamente o tamanho e a aparência dos estandes, a definição dos espaços deve partir dos objetivos comerciais de cada empresa, como geração de contatos, reuniões e captação de clientes.

Para ele, o desafio é encontrar equilíbrio entre investimento, visibilidade e funcionalidade. A adoção de áreas compartilhadas, por exemplo, pode reduzir custos, mas precisa preservar a identificação das marcas e a qualidade da experiência dos visitantes.

Setor ainda busca indicadores comuns

Outro desafio apontado por Ventura é a falta de métricas padronizadas para acompanhar o desempenho dos grandes espaços de eventos. Diferentemente da hotelaria, que utiliza indicadores como ocupação, diária média e RevPar, o segmento de pavilhões precisa considerar características específicas da operação.

Uma das dificuldades está em definir como medir a ocupação. O cálculo pode considerar os metros quadrados utilizados ou os dias em que o espaço esteve ocupado, mas cada critério oferece uma leitura diferente do aproveitamento da estrutura. Um evento que utiliza apenas parte de um pavilhão por poucos dias, por exemplo, não representa a mesma ocupação de uma feira que toma toda a área por um período prolongado.

Para acompanhar seus resultados, o Expo Center Norte desenvolveu indicadores internos relacionados à ocupação por área e ao valor médio do metro quadrado comercializado. A metodologia, entretanto, não é padronizada para todo o mercado, o que dificulta comparações entre empreendimentos e a construção de séries históricas.

Na avaliação do presidente da Ubrafe, cabe às entidades setoriais contribuir para a criação de referências comuns e ampliar a disponibilidade de dados. A falta de histórico consolidado limita, por exemplo, a possibilidade de dimensionar com precisão o crescimento do mercado ao longo das últimas décadas.

A associação também acompanha o impacto dos eventos de negócios na economia de São Paulo. Segundo Ventura, um levantamento realizado em parceria com a SPTuris (Secretaria de Turismo de São Paulo) considera despesas com hospedagem, alimentação e transporte e estima em cerca de R$ 12 bilhões o impacto anual dessas atividades na cidade. O número se refere a esses componentes da hospitalidade, e não à totalidade da movimentação econômica gerada pelo setor.

O executivo avalia que ainda é necessário mensurar outras frentes, incluindo:

  • Contratação de trabalhadores temporários;
  • Montagem de estandes;
  • Compra de materiais;
  • Serviços de logística.

Eventos de negócios além do turismo

A atuação da Ubrafe também busca ampliar a integração entre os diferentes agentes da cadeia de eventos de negócios. De acordo com Ventura, a associação reúne mais de 120 associados, entre organizadores de feiras, administradores de espaços e fornecedores de serviços.

A entidade passou por uma mudança de perfil após a retomada das atividades presenciais. Em 2022, quando Ventura assumiu a presidência, a associação tinha cerca de 18 associados. A proposta, desde então, foi ampliar a representação para além das empresas promotoras de feiras e incorporar outros participantes da cadeia produtiva.

Para o executivo, feiras de negócios não devem ser analisadas apenas pela perspectiva do turismo. Embora movimentem hotéis, restaurantes, transportes e aeroportos, esses encontros também atendem diretamente a setores como saúde, alimentação, engenharia e indústria.

Ventura considera que a relevância do mercado depende também da capacidade de os organizadores entregarem o que prometem aos participantes. “Conteúdo, oportunidades de negócio e qualidade da experiência precisam justificar o tempo investido pelo público. Um evento tem que ser relevante. Ele tem que entregar algo, seja negócio, conhecimento ou ambos”, concluiu.

Na visão do diretor, a combinação entre expansão física, melhor aproveitamento da agenda, indicadores mais consistentes e evolução dos modelos construtivos será determinante para o desenvolvimento do setor. Com a demanda pressionando a disponibilidade dos espaços, a capacidade de realizar mais eventos no mesmo período passa a ser tão importante quanto a construção de novas estruturas.

(*) Crédito da capa: Divulgação/Expo Center Norte

(*) Crédito da foto: Lucas Kina/Hotelier News

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