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Guilherme Dietze: uma grande oportunidade sendo perdida pelo Brasil

Há um conhecido ditado popular que diz: “Cavalo selado não passa duas vezes”, expressão que ilustra a necessidade de se aproveitar as oportunidades quando surgem, pois elas podem não se repetir. O Brasil vive, neste momento, uma conjuntura semelhante – ainda que de forma silenciosa e pouco perceptível para boa parte da população – na qual se apresenta uma rara oportunidade de impulsionar investimentos e alavancar um crescimento econômico mais robusto do que o atualmente observado.

Entre as principais economias globais, observa-se um claro sinal de desaceleração. Segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), os Estados Unidos devem passar de um crescimento de 2,8% em 2024 para uma taxa inferior a 2% nos dois anos subsequentes. A China, que registrou expansão de 5% no ano passado, tem previsão de crescimento de apenas 4% para os próximos dois anos. A Rússia, por sua vez, deverá recuar de uma elevação de 4,1% para algo entre 1% e 1,5%.

Mais do que os números, os contextos políticos e econômicos dessas nações trazem incertezas adicionais. Nos Estados Unidos, a retórica protecionista e ao anúncio de novos aumentos tarifários por Donald Trump, gera instabilidade nas relações comerciais internacionais. A China, por sua vez, enfrenta limitações estruturais em seu modelo de crescimento. Já a Rússia opera sob um sistema político e econômico peculiar, que afasta investidores em razão de sua imprevisibilidade.

Paralelamente à moderação no crescimento dessas economias, verifica-se um aumento no volume global de investimentos estrangeiros diretos. De acordo com levantamento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os fluxos de investimentos internacionais cresceram 1% em 2024, totalizando US$ 1,5 trilhão. O Brasil ocupou a quarta posição entre os maiores receptores desses recursos, com US$ 59 bilhões, cifra inferior à registrada em 2023, quando o país recebeu US$ 64 bilhões.

Diante de um cenário global marcado por incertezas crescentes e moderação nas economias desenvolvidas, investidores tendem a buscar alternativas que aliem potencial de expansão, rentabilidade e segurança. É exatamente nesse ponto que reside a grande oportunidade brasileira.

O Brasil detém características únicas: uma população de mais de 200 milhões de consumidores, um Produto Interno Bruto (PIB) superior a US$ 2 trilhões, uma democracia consolidada, um sistema jurídico funcional e um vasto campo na área de infraestrutura para crescer. Poucos países no mundo reúnem atributos similares. A Argentina, embora com expectativa de crescimento superior a 5% neste ano, possui uma economia que representa cerca de um terço da brasileira. A Índia, com projeções de crescimento de 6,2% em 2025 e 6,3% em 2026, também enfrenta enormes desafios estruturais, como elevada pobreza e complexidades sociopolíticas.

Diante disso, o Brasil teria plenas condições de atrair vultosos volumes de capital internacional, canalizando-os para projetos de infraestrutura, inovação e expansão empresarial. Contudo, o movimento observado internamente segue em sentido contrário, gerando insegurança jurídica e institucional para o investidor.

Exemplos disso são a constante mudança de regras, como a tentativa de aumento na tributação do IOF, o crescimento da dívida pública em virtude de déficits fiscais recorrentes, uma carga tributária excessiva e níveis elevados da taxa de juros. Tais fatores minam a confiança do investidor, desestimulam o empreendedorismo e comprometem o ambiente de negócios.

Caso o governo adotasse um compromisso real com o superávit primário, os efeitos positivos seriam evidentes sobre as taxas de juros, câmbio e inflação. Da mesma forma, uma política voltada à redução da carga tributária abriria espaço para maior investimento por parte do setor produtivo. Com bons projetos de infraestrutura e um ambiente institucional mais previsível e amigável, seria possível vislumbrar o Brasil como um verdadeiro canteiro de obras.

Infelizmente, como tantas vezes na história nacional, as grandes oportunidades tendem a ser desperdiçadas. As transformações estruturais seguem sendo adiadas. O cavalo selado está passando, de forma nítida. Porém, ao que tudo indica, os recursos – em volume crescente – tomarão outros destinos.

Guilherme Dietze é economista e Presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP

(*) Crédito da foto: Arquivo HN

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