Desde fundação, Airbnb ‘roubou’ meio bilhão de hóspedes da hotelaria

Ao olhar para trás é difícil apontar se 2008 foi um momento de avanço ou apenas de inflexão. Certo é que a entrada do Airbnb no mercado mudou por completo o setor de hospedagem. Hoje, definitivamente abraçada pelo consumidor, a plataforma é uma competição (às vezes desigual) forte para os hotéis. Prova disso é que a empresa, que vem dando sólidos passos para entrar de vez na hotelaria, já “roubou” 500 milhões de hóspedes desde sua fundação.

Inegavelmente inovador, o Airbnb é o marketplace de hospedagem mais popular do mundo. Segundo o levantamento divulgado pela empresa, mais de 100 milhões de hóspedes o utilizaram apenas nos últimos oito meses. Mais ainda, a cada segundo, seis clientes fazem check-in em uma das propriedades do seu inventário global. Só na América Latina, por exemplo, por noite a plataforma registra, em média, 157 mil pernoites.

Os números são inquestionáveis. Além disso, reiteram o que foi dito no abre do texto: o modelo de negócio do Airbnb foi abraçado pelo consumidor – principalmente jovem. Aproximadamente 70% das reservas realizadas nos últimos três anos foram feitas por hóspedes com menos de 40 anos. Já os millennials, gastaram mais de US$ 31 bilhões em reservas no marketplace.

Na visão de muitos hoteleiros, há mercado para todo mundo – e de fato é verdade. Assim como têm pessoas que preferem um ambiente mais impessoal, quase como sua casa, existe também quem não abre mão de hotéis, e por diferentes motivos. Serviços incluídos, infraestrutura e segurança são normalmente apontados como principais fatores em favor da hotelaria. A “rixa”, na verdade, está mesmo relacionada à competição desigual, visto que a incidência de impostos no setor de hospitalidade é bem superior.

airbnb

Em busca de uma concorrência mais justa, as associações hoteleiras lutam já há certo tempo pela regulamentação da plataforma. Em suas reinvindicações, o setor busca que as plataformas de hospedagem alternativas sejam reconhecidas como meios de hospedagem familiar. Outra possibilidade é fazer com que incida ISS (Imposto sobre Serviço) sobre os anfitriões.

“Não somos contra a inovação ou a tecnologia. Só buscamos poder igualitário de competição”, costuma repetir Manoel Linhares, presidente da ABIH Nacional (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis) e uma das vozes mais estridentes na hotelaria sobre a questão.

Airbnb: e desacelerando... 

Apesar dos números apresentados, o crescimento da plataforma apresenta indícios de desaceleração nos maiores mercados. Segundo estatísticas, em 2009, 86% dos hóspedes do Airbnb ficavam nos mercados americano e europeu. Em 2013, esse percentual recuou para 34%, chegando a apenas 13% em 2018. 

O número indica que a plataforma pode já ter atingido seu pico em mercados-chaves, caso justamente dos EUA e da Europa. É o que diz análise da Morgan Stanley Research, feita no fim do ano passado.

Segundo o relatório, em 2018, 27% dos viajantes ficaram em alojamentos do Airbnb nesses mercados, alta de dois pontos percentuais frente a 2017. O ano retrasado, por sua vez, apresentou crescimento de três pontos percentuais comparando a 2016. Já de 2015 a 2016, o incremento fora de oito pontos.

Airbnb - esquema de fraude em NYEm Nova York, 7 apartamentos de um mesmo anfitrião estavam no Airbnb

Motivos para a desaceleração seriam, na avaliação da Morgan Stanley Research, a forte competição montada pelas OTAs. Segundo o levantamento, Expedia e Booking.com devem crescer quase duas vezes mais rápido que o Airbnb nos próximos anos. 

Impasses na justiça também impactam negativamente na imagem da empresa em diferentes países. Em fevereiro, a prefeitura de Paris processou a plataforma por publicação de anúncios ilegais. Em 2018, o Japão anunciou que endureceria a legislação do segmento de hospedagens alternativas e compartilhamento de residências.

Por fim, matéria recente do New York Times desvendou um nebuloso esquema de fraude com propriedades inseridas na plataforma. Embora o Airbnb não tenha nenhuma participação no episódio, o caso expôs o frágil controle que a companhia submete seus anfitriões. 

Talvez seja por isso que a empresa vem dando sinais de querer investir mais no segmento hoteleiro. Pelos passos dados até agora, como a parceria com o SiteMinder, o caminho buscado talvez seja se transformar em um canal atrativo e viável para hotéis, principalmente independentes e pequenos. Outra sinalização é o possível aporte na Oyo Hotels & Rooms. A ver como se desenrolam as cenas dos próximos capítulos, seja no Brasil ou no exterior. (Colaborou Juliana Stern)

(*) Crédito da capa e da foto: freestocks-photos/Pixabay

(**) Crédito da foto: Chang W. Lee/The New York Times​

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