Os dados do estudo “Turismo 60+: O Brasil que Viaja Depois dos 60”, conduzido pelo data8 em parceria com o Expo Fórum de Turismo 60+ e com apoio do Ministério do Turismo, trazem um alerta importante para a hotelaria. A pesquisa ouviu 1.012 brasileiros com 60 anos ou mais, nas cinco regiões do país, e revelou que 74% não sentem que as viagens são pensadas para a sua faixa etária.
O dado chama ainda mais atenção quando olhamos para o perfil desse viajante. Não estamos falando de um público que viaja pouco ou que tem baixa capacidade de consumo. Deles, 52% fazem pelo menos três viagens por ano, 34% gastam R$ 10 mil ou mais anualmente com turismo e 87% têm flexibilidade para viajar fora de feriados e períodos tradicionais de férias.
Para um setor que convive com a sazonalidade, esse último número, sozinho, já deveria despertar interesse. O desafio, portanto, não está na demanda e, sim, em compreender quem é esse novo viajante e o que ele espera da experiência! Esse viajante é um consumidor mais experiente, autônomo, conectado e disposto a viajar, mas que valoriza conforto, segurança, clareza de informação, facilidade na jornada de compra e liberdade para viver a viagem no seu próprio ritmo.
E é justamente aí que começam as oportunidades para a hotelaria. mas precisamos ir além da acessibilidade
Nesse sentido, preparar um hotel para o público 60+ não significa apenas instalar barras de apoio, melhorar a iluminação ou garantir pisos seguros. Tudo isso é importante, mas representa apenas uma parte da experiência. A longevidade exige um olhar mais amplo, e alguns exemplos seguem abaixo:
- Está na facilidade para fazer uma reserva. Na legibilidade do site. Na opção de falar com uma pessoa quando necessário. Na clareza das informações. No ritmo das atividades. Na acústica do restaurante. Na mobilidade dentro do hotel e, está principalmente, na forma como o hóspede é tratado.
Uma estrutura pode estar perfeitamente adaptada e, ainda assim, a experiência ser ruim se a equipe enxergar a idade antes de enxergar a pessoa. Infantilizar, presumir limitações, falar com o acompanhante em vez de se dirigir diretamente ao hóspede, ou oferecer ajuda sem perguntar são comportamentos que revelam um problema maior: o ageísmo ainda está presente, muitas vezes de forma inconsciente, na prestação de serviços. Por isso, preparar o staff é tão importante quanto preparar a estrutura física.
Hospitalidade também é intergeracional
O viajante 60+ também não deve ser tratado como um grupo homogêneo. Uma pessoa de 60 anos pode estar trabalhando, praticando esportes e viajando sozinha. Outra, aos 75, pode preferir experiências culturais e um ritmo mais tranquilo. Pessoas da mesma idade podem ter expectativas, interesses e níveis de autonomia completamente diferentes.
A idade cronológica, sozinha, diz pouco sobre como alguém deseja viajar. Por isso, a hotelaria precisa avançar de uma lógica de “produto para idosos” para uma lógica de hospitalidade inclusiva e intergeracional. Isso significa criar experiências que possam acolher diferentes gerações no mesmo espaço, sem infantilizar o hóspede mais velho nem segregá-lo.
Um hotel capaz de receber bem uma pessoa de 30, 50, 70 ou 80 anos não está criando produtos separados para cada idade. Está ampliando sua capacidade de reconhecer diferentes necessidades, ritmos e escolhas.
E isso também conversa diretamente com ESG.
Quando falamos da dimensão social, precisamos incluir a diversidade etária. O ageísmo pode aparecer tanto nas relações de trabalho quanto na maneira como produtos, serviços e experiências são desenhados. A longevidade, portanto, não é apenas uma questão de mercado. É também uma questão de inclusão.
O que muda para a hotelaria
Talvez a maior mudança seja deixar de enxergar o hóspede 60+ a partir daquilo que ele supostamente perdeu com a idade e começar a reconhecê-lo pelo que acumulou ao longo da vida: experiência, repertório, autonomia, maior flexibilidade de tempo e novas expectativas sobre como quer ser recebido.
Isso abre espaço para novos produtos e experiências: estadias mais longas, viagens fora da alta temporada, turismo de aprendizagem, experiências culturais, natureza, bem-estar, convivência e viagens intergeracionais.
Tudo isso começa com uma mudança mais simples: escutar esse cliente. Entender como ele compra, o que valoriza, quais barreiras encontra e que tipo de experiência deseja viver. Porque o verdadeiro desafio da hotelaria não é simplesmente adaptar hotéis para pessoas mais velhas.
É redesenhar a hospitalidade para uma sociedade que está vivendo mais e quem compreender essa transformação, deixará de enxergar o viajante 60+ como nicho para reconhecê-lo pelo que ele já é: um dos protagonistas do futuro do turismo.
Referências Bibliográficas
DATA8; EXPO FÓRUM DE TURISMO 60+. Turismo 60+: O Brasil que Viaja Depois dos 60. São Paulo, 2026. Disponível em: https://www.forumdeturismo60.com.br/agenda/. Acesso em: 9 set. 2026.
BRASILTURIS. Pesquisa mostra que turismo ainda falha em atender público 60+. 12 maio 2026. Disponível em: https://brasilturis.com.br/2026/05/12/pesquisa-mostra-que-turismo-ainda-falha-em-atender-publico-60/. Acesso em: 9 set. 2026.
MELHOR VIAGEM. Pesquisa do perfil do viajante sênior é divulgada no 4º Expo Fórum de Turismo 60+. 2026. Disponível em: https://mviagem.com.br/pesquisa-traz-perfil-do-viajante-60/. Acesso em: 9 set. 2026.
INFOMONEY. Com mais autonomia, brasileiros 60+ se tornam mais importantes para setor de turismo. 12 jul. 2026. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/consumo/com-mais-autonomia-brasileiros-60-se-tornam-mais-importantes-para-setor-de-turismo/. Acesso em: 9 set. 2026.
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Especialista em longevidade, carreira e diversidade etária. Atua como consultora e palestrante em projetos de ESG, com foco na inclusão 50+ e na economia da longevidade.
Sócia-fundadora da Pontes & Conexões e cofundadora do LongeTalks, desenvolve iniciativas em hotelaria e turismo que integram experiência, bem-estar e sustentabilidade.
(*) Crédito da foto: Arquivo Pessoal da Autora





