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Quais as preferências de viagens dos super-ricos?

Naves espaciais, submarinos, entre outas extravagâncias. Assim são as férias dos super-ricos. Quem possui US$ 50 milhões no banco não faz viagens comuns. Eles são diferentes da maioria das pessoas, destaca o Skift. Segundo Jimmy Carroll, cofundador da empresa de planejamento de viagens Pelorus, como se trata de um público que já vivenciou de tudo, é preciso criar experiências verdadeiramente exclusivas.

Um exemplo, aponta o executivo, foi a comemoração do aniversário de 40 anos de um empresário milionário, que decidiu levar os amigos para uma viagem. A equipe de Carroll criou um sequestro falso em uma região remota do Sudeste Asiático. Apenas o aniversariante e alguns atores contratados estavam cientes do plano. Foi então que ele e seu sócio, Geordie Mackay-Lewis, ambos ex-militares britânicos especializados em reconhecimento e extração, usaram suas habilidades para planejar e executar a simulação.

A aventura começou com o grupo explorando o maior sistema de cavernas do mundo, o Son Doong, no Vietnã. Durante a primeira parte da jornada, Carroll e sua equipe puderam perfilar psicologicamente os convidados desavisados. Cada viajante respondeu a perguntas sobre como reagiam a situações estressantes e seus sentimentos sobre estar subterrâneo, o que serviu para ocultar o verdadeiro propósito do questionário.

Os atores receberam histórias de fundo elaboradas, todos assinaram termos de responsabilidade, e foi adquirida uma seguridade extra. Mas conter as “vítimas” foi o maior desafio, já que ninguém queria que alguém corresse para a selva em pânico. Apesar de alguns contratempos, como um amigo especialmente perspicaz que começou a suspeitar, a viagem foi um sucesso.

A nova moeda social

Para os viajantes super-ricos, com ativos que variam de US$ 30 milhões a US$ 50 milhões, aventuras intensas e exclusivas se tornaram a última tendência. No mundo pós-pandemia, esse perfil procura por viagens que ofereçam experiências únicas, com medidas extremas de segurança e autenticidade.

“Muitos de nossos clientes são executivos de alto perfil e, portanto, muito conscientes da segurança”, reforça Carroll. Os endinheirados agora desejam correr com Aston Martins na Inglaterra ou interagir com pinguins imperadores na Antártica. Querem voar para o espaço ou mergulhar nas profundezas do oceano, lembrando as obras de Júlio Verne. No próximo ano, a Pelorus organizará uma festa de aniversário no verdadeiro Expresso do Oriente, uma viagem que está sendo planejada há dois anos e que custará “vários, vários milhões”.

Aventuras fora do comum

A demanda por aventuras entre os jovens privilegiados está aumentando. Segundo a Skift Research, 81% dos viajantes que ganham mais de US$ 500 mil por ano estão muito inclinados a buscar atividades emocionantes e aventureiras em suas viagens de luxo. E 78% desse grupo planejam aumentar seus orçamentos de viagem no próximo ano.

O mercado global de viagens de luxo foi avaliado em US$ 1,6 trilhão em 2022 e espera-se que mais que dobre na próxima década, atingindo US$ 3,7 trilhões até 2032, de acordo com a Spherical Insights.

Seja para um sequestro simulado, uma lua de mel ou um aniversário de casamento, Carroll enfatiza que “tudo se resume à atenção aos detalhes, personalização e criação de uma experiência inesquecível”.

O próximo passo para quem já fez de tudo e foi a todos os lugares é olhar para o alto ou para o fundo do mar. Bilionários como Jeff Bezos e Elon Musk lideram a corrida espacial, já enviando civis ao espaço por milhões de dólares. Embora ainda inacessível para muitos, o turismo espacial está se expandindo rapidamente. A economia espacial global deve atingir US$ 1,8 trilhão até 2035, com o mercado de turismo representando cerca de US$ 4 bilhões até 2030, segundo o Fórum Econômico Mundial.

Enquanto isso, várias novas aeronaves e balões espaciais estão surgindo para oferecer essa experiência aérea a um custo mais acessível. Algumas empresas planejam levar passageiros a 30 km de altitude em cápsulas pressurizadas elevadas por balões de hidrogênio, proporcionando uma visão da curvatura da Terra e da escuridão do espaço.

Para os super-ricos que procuram ainda mais aventura, há uma conexão significativa entre os que querem ser lançados ao espaço e os que desejam mergulhar nas profundezas dos oceanos. Empresas como a SpaceVIP oferecem experiências exóticas tanto espaciais quanto subaquáticas.

20 mil léguas submarinas

O mar profundo também está atraindo turistas aventureiros. A zona Hadal, conhecida por suas pressões extremas e escuridão total, abriga a Fossa das Marianas e seu ponto mais profundo, o Challenger Deep. Em maio, o bilionário Larry Connor anunciou planos de visitar o local do naufrágio do Titanic, mesmo após a tragédia com o submersível da OceanGate em 2023.

Os submersíveis da Triton Submarines, reconhecidos como o padrão ouro em submersíveis recreativos, variam de US$ 2,7 milhões a US$ 35 milhões. Eles são utilizados por hotéis de luxo, navios de cruzeiro e exploradores individuais, como Ray Dalio e James Cameron.

Craig Barnett, diretor de Vendas da Triton, conta que um cliente queria um submersível para explorar os pontos mais profundos de cinco oceanos, após já ter esquiado no Polo Norte e no Polo Sul, e escalado os picos mais altos dos sete continentes.

Hoje, o valor social não está mais em exibir bolsas Gucci ou Ferraris nas redes sociais, mas em compartilhar experiências únicas e significativas com amigos e família.

Controvérsias à vista

Diante da desigualdade de renda e dos efeitos devastadores das mudanças climáticas, a pergunta se levanta: alguém deveria gastar US$ 1,5 milhão para um tour mundial de whisky em um jato particular? Ou jantar uma refeição Michelin em um balão espacial a 32 km de altitude? Ou brincar com pinguins em seus habitats naturais, antes intocados pela humanidade?

Os provedores dessas experiências de luxo reconhecem essas questões. Roman Chiporukha, CEO da SpaceVIP, menciona que tecnologias espaciais resultaram em inovações cotidianas, como fones de ouvido sem fio e colchões de espuma de memória.

Missões civis da Triton ao Challenger Deep coletaram mais de 200 mil amostras científicas, levando à descoberta de 14 novas espécies. Carroll, da Pelorus, argumenta que as viagens de luxo distribuem riqueza em países carentes. A Pelorus Foundation, por exemplo, visa proteger a vida selvagem e os ambientes em risco.

Apesar dos avanços tecnológicos e esforços filantrópicos, as controvérsias sobre esses luxos exclusivos continuarão enquanto a demanda por aventuras de alto risco cresce. “Sempre tivemos problemas neste planeta”, diz Chiporukha. “Mas somos exploradores por natureza.”

Cenário do Brasil

Para este ano, o Brasil será o sexto país com maior migração de super-ricos para outras localidades, segundo pesquisa da consultoria Henley & Partners, divulgada no Valor Econômico. De acordo com o levantamento, 800 brasileiros com patrimônio de ao menos US$ 1 milhão vão deixar o país em 2024. O êxodo só perde para os da China, Reino Unido, Índia, Coreia do Sul e Rússia.

O estudo aponta que os brasileiros, assim como os indianos, saem do país em busca de um estilo de vida melhor, ambientes mais seguros e limpos, além de acesso a mais serviços de saúde e educação premium.

O levantamento destaca os EUA e Portugal como os destinos mais populares entre os ricos brasileiros. Os dois países aparecem entre os 10 que mais vão receber milionários de fora neste ano. Os EUA em segundo lugar (chegada de 3,8 mil) e Portugal em nono (entrada de 800).

Caso esse cenário se confirme, será o terceiro ano consecutivo com migração de milionários brasileiros para outros países (foram 1,2 mil em 2023 e 1,8 mil no ano anterior). “Apesar da recente mudança na Presidência [com a derrota de Jair Bolsonaro para Luiz Inácio Lula da Silva] e da melhora no crescimento econômico”, destaca o estudo.

(*) Crédito da foto: Freepik

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