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Estanplaza renova hotéis e transforma interiores em estratégia

Em hotelaria, renovar não deveria significar apagar. Um retrofit consistente precisa reconhecer o que ainda tem valor, compreender como o comportamento dos hóspedes mudou e encontrar novas maneiras de tornar o empreendimento relevante para a cidade, para a operação e para a marca.

Arquiteta Maria Magalhães, M Magalhães Estúdio

É a partir desse olhar que o M Magalhães Estúdio, liderado pela arquiteta Maria Magalhães, desenvolve o programa de renovação dos sete hotéis da rede Estanplaza em São Paulo.

Fundado em 2014, o escritório atua em projetos personalizados de arquitetura, interiores, mobiliário e decoração, com especial presença nos segmentos de hotelaria e gastronomia. Maria Magalhães é formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e possui mestrado em Design de Interiores pela Universitat Politècnica de Catalunya, em Barcelona. Sua trajetória inclui projetos realizados no Brasil e em outros países, além do design de interiores do Canopy by Hilton São Paulo Jardins, reconhecido pelo iF Design Award 2023 na categoria Hospitality Interiors.

No projeto da rede Estanplaza, o trabalho de interiores também estabelece um diálogo importante com a arte, que assume papel relevante na construção da identidade e da experiência de cada unidade. A curadoria artística é assinada por Guilherme Wisnik, contribuindo para integrar obras e arquitetura como parte da narrativa dos espaços.

Antes do projeto, a imersão

Render - Reposicionamento da experiência Estanplaza

A parceria entre o escritório e a Estanplaza começou em 2024. Antes de estabelecer acabamentos, cores ou novos layouts, a equipe realizou uma imersão nas sete unidades da rede: Gran Estanplaza Berrini, Estanplaza Berrini, Funchal Faria Lima, International, Nações Unidas, Ibirapuera e Paulista.

O objetivo era compreender a história da marca, identificar quais elementos deveriam permanecer e reconhecer as particularidades de cada empreendimento. A partir desse diagnóstico, o retrofit deixou de ser entendido como uma sequência de reformas independentes e passou a funcionar como um projeto de reposicionamento da experiência Estanplaza.

O desafio central estava em construir uma percepção mais coerente da rede sem transformar os sete hotéis em espaços visualmente idênticos. O hóspede deve reconhecer os atributos da Estanplaza em qualquer unidade, mas continuar percebendo a identidade própria de cada endereço.

Essa diferença é importante. Unidade de marca não é sinônimo de uniformidade. Quando a padronização elimina as particularidades dos lugares, a experiência tende a se tornar previsível e impessoal. No projeto da Estanplaza, a linguagem comum aparece na organização dos ambientes, na hospitalidade e na maneira como os espaços acolhem; já a individualidade se manifesta nos materiais, tecidos, cores, obras de arte e peças de mobiliário.

Preservar para transformar

Lobby com pé-direito duplo Estanplaza Berrini

Nos lobbies, alguns elementos arquitetônicos se repetiam e já faziam parte da memória da rede, como os pés-direitos duplos, as escadas, os guarda-corpos e a presença expressiva dos mármores.

Essa relação entre arte e arquitetura também aparece nas demais unidades. No Estanplaza Berrini, a tapeçaria que ocupa o lobby é assinada pelo artista Andres Sandoval, reforçando o caráter autoral da experiência proposta para cada hotel. A implantação das obras de arte é realizada pela Aria Implantação, responsável por fazer essa integração chegar ao espaço construído de forma coerente com a curadoria e com o projeto de interiores.

O respeito ao existente funciona, portanto, como fio condutor. Não se trata de conservar tudo, mas de reconhecer quais elementos ainda sustentam a identidade do empreendimento e podem participar de uma nova narrativa.

Essa abordagem também evita que o retrofit pareça uma ruptura artificial. O hóspede frequente continua reconhecendo o hotel, mas encontra uma atmosfera mais atual, acolhedora e conectada às novas formas de viver os espaços.

A chegada deixa de ser apenas operacional

Render – Áreas Comuns

Uma das principais mudanças está na experiência de entrada. Tradicionalmente, muitos hotéis corporativos organizam seus lobbies ao redor de um balcão de recepção facilmente identificável, fazendo do processo de check-in o elemento dominante da chegada.

Na nova proposta, a recepção é deslocada para uma posição mais discreta e intimista. Antes de encontrar o atendimento operacional, o visitante é recebido por ambientes que lembram salas de estar: livings confortáveis, bibliotecas, mesas, poltronas, vegetação e iluminação mais residencial.

O lobby passa a comunicar hospitalidade antes mesmo de qualquer interação verbal. Em vez de dizer apenas “faça seu check-in”, o espaço parece dizer “entre, permaneça e sinta-se à vontade”.

Cada unidade recebe ainda uma obra de arte de grandes dimensões, utilizada como elemento capaz de criar identidade, orientar o olhar e marcar a memória da chegada.

Hotéis mais abertos para São Paulo

Áreas comuns Estanplaza Berrini

O retrofit também reconsidera a relação dos hotéis com seus bairros. Boa parte das unidades está localizada em regiões de forte presença corporativa, onde milhares de pessoas circulam diariamente, mas nem sempre enxergam o hotel como um espaço que possam utilizar sem estar hospedadas.

A proposta é tornar as fachadas mais permeáveis e criar experiências de café e boulangerie voltadas também para quem trabalha, mora ou passa pelo entorno. Com isso, o hotel deixa de funcionar como uma estrutura isolada e passa a participar de maneira mais ativa da vida urbana.

Restaurantes, cafés, lounges e áreas de encontro podem ampliar o uso dos espaços ao longo do dia, gerar novas receitas e estabelecer vínculos mais frequentes com o público local. A hospitalidade passa a acontecer também na relação cotidiana com a vizinhança.

Essa aproximação dialoga com o posicionamento da própria Estanplaza, que apresenta atitude anfitriã, atmosfera, gastronomia e suítes integradas como pilares de sua experiência. A rede reúne sete hotéis com diferentes personalidades em regiões estratégicas da capital paulista.

Quartos para diferentes momentos da permanência

Render – Quarto Estanplaza Berrini

Nos apartamentos, o ponto de partida foi reconhecer que a maneira de utilizar um quarto de hotel mudou significativamente nas últimas décadas.

Hoje, o mesmo ambiente pode precisar atender ao trabalho remoto, a uma refeição rápida, ao descanso, ao entretenimento e a períodos mais longos de permanência. O quarto passa a funcionar como um pequeno território pessoal dentro da viagem.

A resposta do projeto foi organizar diferentes “espaços” de uso: espaço para trabalhar e comer, área de estar e lazer e zona de descanso. A solução cria uma experiência mais residencial e se repete nas diferentes unidades como uma assinatura da rede.

Nos renders, o mobiliário ajuda a delimitar essas funções sem necessariamente criar paredes. Sofás, mesas, estantes, luminárias e cabeceiras formam pequenas cenas dentro do mesmo ambiente. A madeira e os tecidos acrescentam calor, enquanto a iluminação combina fontes gerais e pontos mais próximos da escala doméstica.

A coerência é construída pelo conceito. Os sofás podem compartilhar o mesmo desenho, mas recebem tecidos diferentes. As estantes, luminárias e cabeceiras são adaptadas à identidade de cada hotel. Assim, os apartamentos pertencem à mesma família, mas não parecem cópias uns dos outros.

Retrofit como ferramenta de posicionamento

Hotel Estanplaza Berrini

O trabalho desenvolvido para a Rede Estanplaza demonstra que o retrofit pode ultrapassar a atualização física do patrimônio construído.

Ao organizar uma experiência coerente entre sete hotéis, o design passa a atuar como instrumento de gestão de marca. A arquitetura traduz atributos abstratos — acolhimento, proximidade, personalidade e atitude anfitriã — em decisões concretas sobre circulação, atendimento, iluminação, mobiliário, arte e relacionamento com a rua.

O projeto mostra que preservar é reconhecer a memória que permite transformar com maior precisão. Em vez de substituir indiscriminadamente, o escritório identifica o que deve continuar, o que precisa ser reinterpretado e o que já não responde às necessidades atuais.

O retrofit da Estanplaza propõe uma continuidade: hotéis reconhecíveis, mas preparados para novos hábitos; espaços corporativos, mas com atmosfera residencial; empreendimentos destinados aos hóspedes, mas cada vez mais abertos à cidade.

No fim, o resultado estará na possibilidade de o hóspede reconhecer a Estanplaza em qualquer um dos sete endereços — e, ao mesmo tempo, guardar uma memória diferente de cada um deles.

(*) Crédito das imagens: Renders: M Magalhães Estúdio
Retrato de Maria Magalhães: Isabela Mayer
Fotografias do Estanplaza Berrini: Carolina Lacaz