Na hotelaria, nossa missão é fazer o hóspede se sentir seguro e acolhido. Mas, e as nossas equipes? Muitas vezes, confundimos um ambiente “feliz” com um ambiente onde ninguém discorda. A verdade é que o silêncio em uma reunião raramente significa concordância; na maioria das vezes, ele esconde o medo da retaliação.
Olá, sou Marian. Hoteleira por paixão há 20 anos, descobri na Felicidade o alicerce para uma liderança mais humana e eficiente. Todo mês, convido você a explorar comigo o mundo da hospitalidade sob a ótica do bem-estar. Que as reflexões aqui compartilhadas inspirem seu florescimento e guiem sua jornada individual e coletiva.
Se você acompanhou meu último texto, viu que a felicidade nas organizações vai muito além de benefícios cosméticos. Hoje, quero mergulhar em um conceito que considero o alicerce de tudo: a Segurança Psicológica.
Felicidade não é ausência de conflitos
Diferente do que muitos pensam, segurança psicológica não é sobre “ser legal” o tempo todo ou baixar a régua da excelência. É, na verdade, criar um ambiente onde as pessoas sintam que não serão punidas ou humilhadas por admitir um erro, fazer uma pergunta “boba” ou sugerir uma ideia fora da caixa.
Quando o medo habita o ambiente de trabalho, o cérebro entra em modo de sobrevivência. Gastamos uma energia imensa tentando parecer perfeitos, e é exatamente aqui que o estresse crônico se instala. Lembra dos dados de adoecimento mental que mencionei anteriormente? Grande parte deles nasce da pressão de nunca poder falhar.
De acordo com o relatório The State of the Global Workplace, da Gallup, funcionários que não sentem que suas opiniões contam no trabalho têm três vezes mais chances de procurar outro emprego no próximo ano. Em um setor com turnover historicamente alto como o nosso, a segurança psicológica é a ferramenta de retenção mais barata e eficaz que existe.
Como líderes, precisamos ser os “anfitriões” dessa segurança:
Vulnerabilidade: Se eu, como líder, não admito minhas falhas, crio uma cultura de perfeccionismo. Quando eu digo “eu errei, o que podemos aprender aqui?”, dou permissão para que meu time seja humano.
Curiosidade em vez de culpa: Quando algo sai errado na operação, a pergunta não deve ser “quem foi?”, mas sim “o que no nosso processo permitiu que isso acontecesse?”.
Estudos liderados por Amy Edmondson, professora de Harvard e precursora do conceito, mostram que equipes com alta segurança psicológica reportam mais erros, mas cometem efetivamente menos falhas graves. Isso acontece porque o aprendizado é imediato, evitando que um pequeno deslize operacional se torne um prejuízo reputacional ou financeiro para o hotel.
Acredito profundamente que a felicidade nas organizações é sustentada por três pilares interdependentes:
Contexto: O papel da empresa em projetar ambientes, culturas e processos que facilitem — em vez de dificultar — o desenvolvimento humano e o bem-estar.
Liderança: O líder como o grande catalisador do engajamento. Dados da consultoria Gallup mostram que 70% da variação no engajamento dos times é responsabilidade direta do gestor, o que reforça o peso da nossa conduta diária na saúde mental de quem lideramos.
Indivíduo: A importância de cada um assumir o seu protagonismo. Trata-se de reconhecer as próprias forças e fraquezas para se desenvolver não apenas como profissional, mas como um ser humano consciente e resiliente.
Empresas que priorizam a segurança psicológica não apenas retêm talentos; elas criam comunidades de inovação e cuidado. Afinal, ninguém consegue entregar hospitalidade de se estiver com o coração apertado pelo medo.
Para refletir hoje: Na sua próxima reunião, observe quem não fala. Eles estão em silêncio porque concordam com tudo ou porque não se sentem seguros para discordar?
Como líderes, nosso papel não é apenas gerenciar vozes, mas curar os silêncios que, por muitas vezes, passam despercebidos pelos nossos olhos e guardam uma grande potência de transformação.
Se você chegou até aqui, muito obrigada! Vamos seguir juntos construindo ambientes onde o bem-estar e os resultados caminham juntos.
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Marian Fermino é sócia-fundador da JOY2B, empresa dedicada a promover Felicidade e Bem-Estar como estratégia consciente para pessoas e negócios. A executiva acredita profundamente que o sucesso organizacional nasce do bem-estar, do engajamento e do desenvolvimento humano.
(*) Crédito da foto: Arquivo pessoal












