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Sobre a escassez de mão de obra em A&B: o que aprendi na China sobre robôs de cozinha

O problema é o mesmo; a resposta, diferente

Em agosto de 2026, participei, a convite da Profa. Ana Paula Arbache, coordenadora do Programa Talentos ESG, no Módulo de Redução do Desperdício Alimentar – pela Associação  Resorts Brasil – para falar sobre as inovações da área na China. Uma das situações discutidas foi a carência de profissionais na cozinha, no salão e na recepção. As vagas de cozinheiro e auxiliar ficam abertas por meses. A rotatividade no salão é alta. E, a cada temporada, servir o mesmo custa mais caro. Na China, onde realizo imersões em inovações tecnológicas, ouço diagnóstico similar. A diferença está na velocidade da resposta. Enquanto no Brasil ainda debatemos escalas e retenção, a China integrou a robótica de serviço à operação de redes de restaurantes e hotéis. O resultado é palpável: o mercado chinês de robôs de cozinha deve passar de ¥3,7 bi em 2025 e chegar a ¥11,7 bi em 2030 (Global Cooking Robot Industry Development Report, via Jiemian, 2026). Neste artigo compartilho o que vi operando lá, e como uma empresa, a Botinkit, está tornando realidade a cozinha digital, inclusive fora da China.

A realidade brasileira: dados que não deixam dúvida

A escassez de mão de obra na hotelaria brasileira deixou de ser uma queixa de corredor e virou número. Segundo a Pesquisa Global de Escassez de Talentos 2026, do ManpowerGroup, 80% dos empregadores brasileiros enfrentam dificuldade para contratar (MANPOWERGROUP, 2026). A Comissão dos Administradores de Pessoal da Indústria Hoteleira (CAPIH) divulgou em janeiro de 2026 que o turnover médio do setor hoteleiro atingiu 52,45% em 2025, o que significa que, em média, mais da metade do quadro de colaboradores foi substituída ao longo do ano (REVISTA HOTEIS, 2026). Em levantamento publicado em dezembro de 2025 com dados da LCA 4 Intelligence, 73% das empresas hoteleiras relataram dificuldade em encontrar profissionais com o perfil desejado (TURISMO SPOT, 2026).

As causas são documentadas. Em reportagem da Revista Hotéis de agosto de 2025, a professora Mariana Aldrigui, da Universidade de São Paulo, aponta salários pouco competitivos frente a outros setores e escalas pesadas, em sua maioria 6×1, como entraves estruturais (REVISTA HOTEIS, 2025). O resultado é uma sobrecarga sobre quem fica, queda na qualidade do atendimento e, em resorts de lazer fora dos grandes centros, a impossibilidade de operar a cozinha 24 horas com padrão consistente. Reter um cozinheiro capacitado num local ermo é difícil. Manter a qualidade do atendimento com alto turnover no salão é ainda mais.

A resposta chinesa: escala e política industrial

A China enfrenta pressão demográfica documentada. Sua população envelhece em ritmo acelerado e a força de trabalho já recua em termos absolutos há mais de uma década, segundo dados oficiais do National Bureau of Statistics. O governo chinês incluiu a robótica e a manufatura inteligente como eixos prioritários no plano industrial Made in China 2025, que prevê expansão da automação e incentivos à produção nacional de robôs (SOUTH CHINA MORNING POST, 2018; WIKIPEDIA, 2015).

No setor de alimentos, a adoção já tem dimensão mensurável. Dados da consultoria AVC citados pela Jiemian News em março de 2026 mostram que, em 2023, o mercado online chinês já tinha 25 marcas vendendo robôs de cozinha (JIEMIAN NEWS, 2026). A rede Xiaocaiyuan instalou robôs de cozinha em 660 restaurantes e informou em prospecto de IPO o plano de investir 100 milhões de yuan na aquisição de cerca de 2.000 unidades adicionais. A rede Laoxiangji começou a instalar equipamentos automatizados em 2023 e, até agosto de 2025, já contava com 451 outlets usando robôs de cozinha, armários a vapor e estações automatizadas de sopa (JIEMIAN NEWS, 2026).

A métrica que mais me chamou a atenção em campo: sob condições ideais, um operador gerenciando dois robôs de cozinha pode substituir o trabalho de três chefs profissionais, segundo declaração da Laoxiangji à Jiemian News. E isso não se restringe às grandes metrópoles. Em uma cidadezinha do interior, onde fiz um retiro taoísta, um restaurante local já usava robôs de entrega de bandejas. A tecnologia deixou de ser exceção e virou rotina.

No setor hoteleiro, a adoção de robôs de serviço é visível em entrega de quarto, limpeza de áreas comuns e recepção com inteligência artificial. Durante minhas imersões em hotéis chineses, é comum encontrar robôs autônomos subindo de elevador para fazer entregas de amenities e alimentos, operando 24 horas. A mentalidade que observo é de complementação: o robô assume o trajeto repetitivo para liberar o colaborador para o atendimento ao hóspede.

Botinkit: a cozinha digital que já opera em 19 países

Entre as soluções que acompanho, a Botinkit, sediada em Shenzhen, é um caso à parte. Co-fundada em 2021 por Shirley Chen, a empresa desenvolveu o robô de cozinha Omni, especializado em stir-frying e stewing, com controle de temperatura e dosagem automática de ingredientes. Em julho de 2023, a Botinkit levantou US$ 13 milhões em rodada Série A. Em outubro de 2024, a empresa levantou mais US$ 21 milhões em Série A+, liderada pela CCV Capital (TECHCRUNCH, 2023; COMPROMATH, 2024).

O que me convenceu na prática foram os números divulgados pela própria empresa e confirmados em reportagens técnicas. Em uma cozinha comercial de aproximadamente 100 m², a Botinkit reduz a equipe de seis a dez pessoas para uma ou duas. A empresa reporta redução de 30% na perda de ingredientes e queda de 40% no consumo de energia em comparação com fogões a gás comerciais. A interface é simples: o próprio chef programa a receita prato a prato, sobe para a nuvem — onde já há mais de 10 mil receitas catalogadas — e o operador local apenas seleciona o pedido no display e adiciona os ingredientes. O robô controla tempo, temperatura e movimento. Ao final, executa a limpeza automática do wok e dos tubos de tempero (TECHCRUNCH, 2023; BOTINKIT, 2026).

O caso que ilustra o potencial para a hotelaria brasileira é o da rede OKM, uma das maiores redes de buffet japonês da Austrália, com mais de 50 unidades. Segundo case publicado no site da Botinkit e reproduzido por distribuidores autorizados, a rede enfrentava escassez de chefs, inconsistência entre lojas e treinamento de oito semanas. Após a adoção dos robôs, o treinamento caiu para uma semana, a redução no custo de mão de obra da cozinha foi de 40% e a economia média por unidade é de aproximadamente AU$ 72.000 por ano (BOTINKIT, 2026; COLES REFRIGERATION, 2025).

A flexibilidade do equipamento também impressiona: o modelo Omni prepara desde uma porção individual até 10 kg de alimento em uma única rodada, o que viabiliza tanto o room service noturno quanto o buffet otimizado, com produção na medida do consumo e desperdício minimizado. Para o relatório ESG, isso é relevante: comida fresca, padronizada e menos resíduo.

O plano de ação: comece pequeno, meça e escale

O que vejo na China não é futuro. É rotina. E o que mais ouço de gestores brasileiros é: “Isso funciona lá, mas e aqui?” Pois funciona. A questão é por onde começar. Minha sugestão, baseada no que tenho implementado com empresas brasileiras, é simples: faça um piloto medido.

Escolha um restaurante, um turno, 90 dias. Meça a satisfação do hóspede, o custo de mão de obra e a consistência do prato antes de pensar em escala. Comece por A&B — é onde a escassez mais dói e onde os casos de automação são mais maduros. Um robô de cozinha para padronizar receitas, um robô de entrega de bandejas para liberar o garçom para o cliente, uma composteira acelerada para transformar resíduo orgânico em adubo em 24 horas. Cada um desses equipamentos já opera hoje em hotéis chineses e pode ser testado aqui.

A importação da China tem desafios regulatórios a serem detalhados, e o custo final chega, em média, ao dobro do preço de lá. Mas os paybacks, especialmente em robôs de limpeza e cozinha, frequentemente se pagam. O que falta não é tecnologia. É o primeiro passo.

Se pra você fizer sentido o tema de inovação tecnológica chinesa, siga os textos que estarei publicando no Hub ESG Hotel Business. E fique à vontade para me conectar pelo LinkedIn (https://www.linkedin.com/in/twilliamro/) para que possamos compartilhar ideias e promover o avanço da tecnologia nas cozinhas brasileiras, beneficiando os negócios e a ESG.

Referências

  1. JIEMIAN NEWS. Robots enter China’s kitchens, stirring a quiet revolution. 10 mar. 2026. Disponível em: https://en.jiemian.com/article/14092875.html. Acesso em: 28 ago. 2026.
  2. BOTINKIT. Case studies and product catalog. Disponível em: https://www.botinkit.ai. Acesso em: 28 ago. 2026.
  3. COLES REFRIGERATION. Botinkit — AI & Robotic Commercial Cooking Equipment. Disponível em: https://www.colesrefrigeration.com.au/botinkit-ai-robotic-commercial-cooking-equipment/. Acesso em: 28 ago. 2026.
  4. COMPROMATH. Chinese Start-Up Botinkit Revolutionizes Kitchens With Robots And AI. 30 nov. 2024. Disponível em: https://compromath.com/chinese-start-up-botinkit/. Acesso em: 28 ago. 2026.
  5. MANPOWERGROUP. Pesquisa de Escassez de Talentos 2026. Disponível em: https://www.manpowergroup.com.br/insights/estudos/pesquisa-de-escassez-de-talentos-2026. Acesso em: 28 ago. 2026.
  6. REVISTA HOTEIS. CAPIH divulga índice de turnover na hotelaria em 2025. 15 jan. 2026. Disponível em: https://revistahoteis.com.br/capih-divulga-indice-de-turnover-na-hotelaria-em-2025/. Acesso em: 28 ago. 2026.
  7. REVISTA HOTEIS. Risco de apagão de mão de obra na hotelaria é real e iminente. 1º ago. 2025. Disponível em: https://revistahoteis.com.br/risco-de-apagao-de-mao-de-obra-na-hotelaria-e-real-e-iminente/. Acesso em: 28 ago. 2026.
  8. SOUTH CHINA MORNING POST. Exclusive — A robot revolution is under way at the ‘world’s factory’. Here’s why. 25 out. 2018. Disponível em: https://www.scmp.com/economy/china-economy/article/2164103/made-china-2025-peek-robot-revolution-under-way-hub-worlds. Acesso em: 28 ago. 2026.
  9. TECHCRUNCH. Kitchen robot Botinkit raises $13M from DJI angel and others. 19 jul. 2023. Disponível em: https://techcrunch.com/2023/07/19/kitchen-robot-botinkit-raises-13m-from-dji-angel-and-others/. Acesso em: 28 ago. 2026.
  10. TURISMO SPOT. O turismo bate recordes de emprego. E disputa cada trabalhador que tem. 28 abr. 2026. Disponível em: https://turismospot.com.br/mao-de-obra-turismo-brasil-escassez-qualificacao-escala-6×1/. Acesso em: 28 ago. 2026.
  11. WIKIPEDIA. Made in China 2025. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Made_in_China_2025. Acesso em: 28 ago. 2026.

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William Rodrigues  de Oliveira possui 30 anos de experiência em empresas globais de tecnologia, tais como Accenture, Oracle, IBM, DXC e EDS. Engenheiro de Computação, tem certificação em Transformação Digital pelo MIT.  Atualmente é sênior advisor na promoção de inovações tecnológicas Chinesas para o Brasil.

(*) Crédito da foto: arquivo pessoal do autor

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