A taxa de desemprego no Brasil caiu para 5,4% no trimestre encerrado em junho, o menor índice registrado para esse período desde o início da série histórica da Pnad Contínua, em 2012. Os dados foram divulgados hoje (30) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e confirmam que o mercado de trabalho segue aquecido, embora economistas já identifiquem sinais de desaceleração da atividade econômica.
O resultado representa uma queda em relação aos 6,1% registrados no trimestre encerrado em março e ficou exatamente em linha com a mediana das projeções do mercado financeiro, segundo levantamento da Bloomberg.
Apesar da nova mínima histórica para o período, especialistas observam que o ritmo de expansão do emprego começa a perder força. Um dos principais indícios desse movimento é a renda média do trabalhador, que permaneceu praticamente estável em R$ 3.738 mensais, aponta a Folha de São Paulo.
“O mercado de trabalho permanece aquecido, mas vem crescendo de maneira mais comedida”, afirma o economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence. “O ano de 2026 tem juros ainda elevados e é carregado por muita incerteza. Empregadores ficam mais aflitos na hora de tomar decisões”, acrescenta ele, citando também o ambiente de incerteza provocado pela proximidade das eleições.
Geração de empregos impulsiona resultado
Segundo o IBGE, a redução da taxa de desemprego foi sustentada principalmente pela criação de vagas em vários setores, entre eles o turismo. Ao apresentar os dados da pesquisa, o analista William Kratochwill afirma que o mercado de trabalho atravessa um período de “transição”.
A avaliação está relacionada ao comportamento sazonal do emprego. Tradicionalmente, o início do ano concentra o encerramento de vagas temporárias, enquanto os meses seguintes costumam registrar recuperação da ocupação. “O mercado está se arrumando para o segundo semestre”, diz Kratochwill.
A Pnad Contínua contempla tanto trabalhadores formais — com carteira assinada ou CNPJ — quanto aqueles inseridos na informalidade. O número de pessoas ocupadas alcançou 103,1 milhões no trimestre encerrado em junho, o maior patamar da série histórica do levantamento. Na comparação com o trimestre encerrado em março, foram criadas aproximadamente 1,1 milhão de ocupações, alta de 1,1%.
O avanço foi liderado pelo grupamento que reúne administração pública, educação e saúde, responsável por mais 489 mil novos postos. Na sequência aparecem transporte, armazenagem e correio, segmento que adicionou cerca de 235 mil trabalhadores.
De acordo com Kratochwill, parte da expansão do primeiro grupo está relacionada às contratações na educação pública. Já no segundo, o crescimento reflete o aumento de profissionais ligados ao transporte de passageiros e às entregas, incluindo trabalhadores de aplicativos.
“As pessoas estão se virando como conseguem para ter um rendimento para poder sustentar sua família. Então, o novo dinamismo do mercado, mais tecnológico, pode estar influenciando isso”, afirma.
Emprego formal permanece em nível recorde
Embora tenha apresentado estabilidade na comparação trimestral, o número de trabalhadores do setor privado com carteira assinada permaneceu no maior patamar da série histórica, somando 39,4 milhões de pessoas.
Também foi recorde o contingente de empregados do setor público sem carteira assinada, que chegou a 3,5 milhões.
Brasil tem 5,9 milhões de desempregados
O contingente de brasileiros desocupados caiu para 5,9 milhões de pessoas até junho, menor volume registrado para esse trimestre desde o início da série histórica. Na comparação com o trimestre encerrado em março, houve redução de 718 mil pessoas em busca de trabalho, equivalente a uma queda de 10,9%.
Pelas regras da Pnad Contínua, são considerados desempregados apenas os indivíduos com 14 anos ou mais que, além de estarem sem trabalho, procuraram emprego no período de referência da pesquisa. Para Claudia Moreno, economista do C6 Bank, o mercado de trabalho continua demonstrando resiliência, embora a evolução da renda já apresente sinais de moderação.
“Mesmo que a desaceleração da atividade econômica possa reduzir o ritmo de criação de vagas ao longo de 2026, esperamos que a taxa de desemprego permaneça em níveis historicamente baixos”, diz. O C6 prevê indicador em torno de 5,5% ao final do ano.
Renda média permanece estável
A renda média habitual do trabalho ficou em R$ 3.738 mensais no trimestre encerrado em junho. Embora o valor represente recuo de 1,5% frente aos R$ 3.795 registrados no trimestre até março, o IBGE considera o resultado estatisticamente estável.
Segundo o instituto, a variação permanece dentro da margem de erro da pesquisa. Kratochwill avalia que a entrada de trabalhadores com menor nível de escolaridade pode ter contribuído para limitar o crescimento da renda média.
O indicador corresponde ao rendimento total obtido pelos trabalhadores dividido pelo número de pessoas ocupadas. Na avaliação do economista Leonardo Costa, da instituição financeira Asa, o cenário continua relativamente positivo. “A Pnad segue apontando resiliência no mercado de trabalho, com trajetória de desaceleração gradual”, diz.
Economia, demografia e tecnologia influenciam empregabilidade
Analistas destacam que os baixos níveis de desemprego observados nos últimos anos refletem, em parte, o desempenho da atividade econômica e as medidas de estímulo implementadas pelo governo federal.
Outro fator apontado é a mudança no perfil demográfico da população brasileira. Com o envelhecimento da população, cresce o número de pessoas que deixam o mercado de trabalho e deixam de procurar emprego, reduzindo naturalmente a pressão sobre a taxa de desemprego.
Ao mesmo tempo, essa tendência amplia os desafios para o sistema previdenciário, em razão do aumento esperado na demanda por aposentadorias. O avanço das plataformas digitais também vem alterando a dinâmica do mercado de trabalho. Um estudo divulgado pelo FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) no ano passado estimou que o trabalho por aplicativos reduz a taxa de desemprego brasileira em aproximadamente um ponto percentual.
Debate sobre o fim da escala 6×1 ganha força
A divulgação da Pnad ocorre em meio às discussões sobre o projeto que propõe o fim da escala 6×1, modelo em que o trabalhador atua seis dias consecutivos e descansa um.
A proposta divide opiniões entre representantes dos trabalhadores e parte do setor empresarial. Neste mês, o economista Christopher Pissarides, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2010, afirmou à Folha que diversos países caminham para jornadas menores de trabalho e que essa mudança tende a elevar a produtividade dos trabalhadores.
(*) Crédito da foto: Divulgação















