Manutenção de marcas independentes, cobertura de 90% das rotas aéreas no Brasil e liderança como maior operadora da região. Esse é o cenário esperado caso a fusão entre Azul e Gol se concretize, impactando diversos setores, como turismo e hotelaria, devido ao aumento das rotas e eventuais mudanças (para cima ou para baixo) no preço das passagens. O grupo Abra, controlador da Gol e da Avianca, assinou um memorando de entendimento com a Azul para unir os negócios, conforme aponta a CNN.
No documento, o grupo informa que o acordo, ainda não vinculante, tem como objetivo explorar uma possível combinação de negócios no Brasil. Segundo o comunicado, o acordo representa apenas uma etapa inicial de negociações entre Abra e Azul para avaliar a viabilidade de uma eventual transação.
Se finalizado, o entendimento prevê que as empresas manterão suas marcas e certificados operacionais separados. Segundo o memorando, o acordo busca “explorar uma combinação de negócios no Brasil”.
O avanço está condicionado à conclusão do plano de reestruturação previsto no processo de recuperação judicial da Gol nos Estados Unidos. Especialistas apontam que o negócio pode enfrentar desafios regulatórios, mas observam que as recentes oscilações do mercado, incluindo a desvalorização do real, podem ter favorecido o avanço das tratativas.
Preços de passagens e impacto na hotelaria
Por mais que haja preocupação sobre aumentos expressivos dos preços dos bilhetes aéreos, Silvio Costa Filho, ministro de Portos e Aeroportos, destaca que o governo não aceitará altas abusivas como resultado da possível integração das companhias. Ele afirma que é preciso aguardar a manifestação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que deve analisar os riscos deste movimento de concentração de mercado, aponta o Valor Econômico.
Apesar de afirmar que não admitirá aumento de preços das passagens, o ministro assegura que o governo não intervirá no mercado. “O que temos feito desde o primeiro momento é um trabalho de sensibilização”, pontua Costa Filho sobre a interação feita com o setor para resolver problemas que impactam nas tarifas.
“Isso fortalecerá a aviação brasileira. Não vejo risco de aumento nos preços das passagens, até porque o Cade e a Anac estão aqui para fiscalizar. O que observamos é o esforço dessas companhias em se fortalecer para beneficiar o Brasil”, conclui.
Cabe lembrar que, na região Nordeste, os preços das passagens atingiram patamar recorde em novembro do ano passado, chegando ao maior valor em 15 anos, segundo dados da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). Na cadeia turística, o setor hoteleiro é um dos mais afetados, porque se os valores das passagens não estão atrativos, os empreendimentos sentem maior dificuldade para conquistar hóspedes e manter altos níveis de ocupação.
“Ainda é muito cedo para fazer qualquer análise, principalmente porque não sabemos os termos do memorando/acordo. Mas é sempre preocupante quando se ‘reduz’ a concorrência, pois a falta de alternativas pode influenciar nos preços. Agora, é ver como o governo sinalizará a forma de controle de modo a não permitir distorções, afinal, o transporte aéreo em um país continental como o Brasil tem uma importância extraordinária”, diz Orlando Souza, presidente do FOHB (Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil), em entrevista ao Hotelier News.
Impacto nas operações
Ambas as empresas já operam sob um acordo de cooperação que busca ampliar a oferta de destinos e oferecer maior conveniência aos passageiros. A expectativa é de que Azul e Gol utilizem a complementaridade de suas rotas para obter aprovação das autoridades antitruste. Juntas, as malhas aéreas das companhias abrangem aproximadamente 90% de rotas complementares, com pouca sobreposição.
Enquanto a Gol concentra suas operações em grandes centros como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, a Azul se destaca por uma malha mais ampla, que inclui rotas regionais. A frota da Azul conta com jatos regionais da Embraer, além de aeronaves Airbus de corredor único e duplo, totalizando 182 aviões. Já a Gol opera exclusivamente aeronaves Boeing 737, com uma frota de 138 unidades.
Sobre preocupações com possíveis questões concorrenciais, John Rodgerson, CEO da Azul, destaca exemplos de mercados dominados por uma única companhia forte, como Latam no Chile, Lufthansa na Alemanha e IAG no Reino Unido. “Esses países compreenderam a importância de ter uma empresa sólida que possa crescer, especialmente uma que adquira aeronaves locais”, diz.
A Azul reforça que as empresas têm cerca de 90% de rotas complementares no Brasil, destacando que a união colocaria o país “em um patamar global mais competitivo em um setor altamente globalizado”.
O memorando também prevê que a Abra poderá vender até 25% de suas ações, desde que não para concorrentes, e inclui uma cláusula de proteção para a aquisição de 15% da entidade combinada.
(*) Crédito da foto: Reprodução/Aeroin














