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Fim do ‘6×1’: como a hotelaria enxerga uma eventual redução na jornada?

Com as discussões sobre o fim da escala 6x1 em voga, a hotelaria brasileira analisa os possíveis impactos no setor.

Nas redes sociais, cresce um movimento impulsionando discussões no Congresso Nacional sobre propostas de mudanças nas regras de jornada de trabalho. Embora ainda não esteja protocolado, o texto sugerido pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP) mantém o tema em destaque. O objetivo central é extinguir o modelo de seis dias de trabalho e um de descanso, conhecido como 6×1. O debate levanta a questão: como a hotelaria seria impactada por uma eventual redução na escala de colaboradores?

Desde o fim da pandemia, a falta de mão de obra tem sido um tema recorrente no setor. Em algumas posições, a discussão já não se limita à carência de profissionais qualificados, mas à escassez de candidatos. Para os colaboradores, de acordo com o que se comenta no mercado, os baixos salários e a jornada 6×1 estão entre as principais causas desse problema. Enquanto a hotelaria global debate uma possível transição para o modelo 5×2, empresas de outros setores no exterior já testam semanas de trabalho com apenas quatro dias.

No contexto brasileiro, a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) provoca opiniões divergentes, que variam entre ceticismo sobre a redução da escala e cautela sobre as possíveis mudanças no regime de trabalho. A reportagem do Hotelier News ouviu representantes de empresas e entidades do setor para avaliar os impactos do fim do 6×1 no dia a dia da operação, na disponibilidade de mão de obra, nos custos dos hotéis e, principalmente, na experiência do hóspede.

O que o setor diz

Orlando Souza, presidente executivo do FOHB (Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil), afirma que a entidade acompanha atentamente as discussões sobre a redução da escala. “Nosso posicionamento é de que uma mudança dessa magnitude não pode ser feita de forma intempestiva, sem estudos consistentes que embasem a decisão. Acreditamos que a hotelaria pode se inspirar nas melhores práticas internacionais, amparando-se na flexibilidade de acordos e convenções coletivas”.

Hotelaria - Orlando Souza
“É preciso pensar calmamente”, diz Souza

Souza pondera que é fundamental garantir os direitos dos colaboradores sem comprometer a saúde financeira e a capacidade de gestão dos hotéis. “Mudanças abruptas podem gerar efeitos contrários, prejudicando justamente quem se pretende beneficiar, desencadeando uma crise econômica, incluindo impactos inflacionários”, completa.

Em nota, a FBHA (Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação), emitiu seu posicionamento sobre a PEC. Para a entidade, a redução abrupta impactaria diretamente na competitividade empresarial, inclusive para as micro e pequenas empresas, que não teriam como arcar com o aumento de custos.

“Portanto, o argumento apresentado por outros de que isso geraria empregos não se sustenta, pois o que gera emprego é o desenvolvimento econômico, o crescimento e a qualificação profissional”, detalha Alexandre Sampaio, presidente da FBHA.

O executivo acrescenta, ainda, que é importante observar que a carga horária máxima estabelecida no Brasil, de 44 horas, está dentro da média mundial, visto que países como Alemanha, Argentina, Dinamarca, Holanda e Inglaterra possuem regime semanal de 48 horas.

Neste sentido, um estudo realizado pela OIT (Organização Internacional do Trabalho) mostra que 22% dos empregados do mundo trabalham mais de 48 horas por semana. No Brasil, o índice chega a 18,3%, com carga horária maior, sobretudo nos setores de comércio e serviços.

“Entendemos e valorizamos iniciativas que têm como objetivo melhorar o bem-estar dos trabalhadores e adaptar o mercado às novas demandas sociais. No entanto, gostaríamos de destacar que a redução da jornada de trabalho sem a diminuição proporcional dos salários pode gerar um aumento significativo nos custos operacionais das empresas. Este acréscimo nas despesas com a folha de pagamento poderia sobrecarregar ainda mais o setor produtivo, que já enfrenta altos custos com obrigações trabalhistas e fiscais”, finaliza o presidente da FBHA sobre o impacto na hotelaria.

Adotando posicionamento semelhante ao das demais entidades, a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) se manifestou de forma contrária à proposta, afirmando que a PEC traz potenciais impactos negativos para os consumidores, sociedade e empreendedores do setor de alimentação fora do lar.

“É uma proposta estapafúrdia e que não reflete a realidade. As regulamentações estabelecidas pela Constituição e expressas na CLT são modernas e já trazem as ferramentas para garantir condições de trabalho dignas e justas aos colaboradores. A legislação atual permite que os trabalhadores escolham regimes de jornada adequados ao seu perfil, sem a necessidade de uma alteração constitucional que impacte a operação dos estabelecimentos em todo o Brasil, além de prejudicar os consumidores”, diz Paulo Solmucci, presidente da Abrasel.

O gestor da associação diz que, atualmente, é uma demanda da sociedade ter bares e restaurantes abertos sete dias por semana. “A mudança forçada na escala de trabalho teria impactos nesta oferta. Cerca de 95% do setor é de microempresas, que precisam reduzir o horário de funcionamento diante da mudança, já que a folha de pagamento é um dos maiores custos para manter o empreendimento aberto”, complementa.

Daniel Battistini, coordenador do Capih (Comissão dos Administradores de Pessoal da Indústria Hoteleira), destaca que a proposta enfrenta poucas chances de avançar no Congresso. “As escalas tradicionais da hotelaria, desde o retorno das atividades pós-pandemia, têm contribuído para aumentar a rotatividade no setor”.

Battistini pontua que muitos empreendimentos estão buscando formas de ampliar o número de folgas para tornar o trabalho mais atrativo. “Conheço hotéis que já experimentam o modelo 5×2. O desafio maior é equilibrar essas mudanças com o aumento de quadro que elas geram”.

Possíveis impactos

Raphael Martini, gerente geral do Novotel Morumbi, relembra que alternativas à jornada tradicional da hotelaria vêm sendo discutidas desde o fim da pandemia e enfatiza os possíveis impactos de uma redução na jornada.

“A mudança para o modelo 5×2, por exemplo, implicaria em custos operacionais mais altos. Hoje, a maioria dos hotéis opera com investidores pulverizados e fundos de investimento. Esses custos adicionais seriam repassados aos clientes, pois o setor segue a lógica de oferta e demanda, já adotando tarifas flutuantes”, explica.

Hotelaria - Raphael_Martini
“Analisar impactos e alternativas é crucial”, ressalta Martini

Martini também coloca em discussão os possíveis entraves regulatórios. “A legislação atual exige domingos de folga obrigatórios para mulheres (1×1) e homens (2×1). Para implementar um novo modelo, é necessário diálogo e revisão dessas regras”, acrescenta.

Ele também avalia que a transição para escalas, como 6×2, poderia aumentar os custos com folha de pagamento em até 10%. “Esse é um tema que precisa ser debatido com equilíbrio, considerando os dois lados, pois as empresas existem para gerar receita”.

Durante a conversa com o Hotelier News, Martini menciona outros fatores que devem ser levados em consideração antes de implementar mudanças:

  • Impostos sobre a folha de pagamento;
  • Maior número de contratações, exigido pela redução das escalas.

“A decisão deve ser tomada de forma responsável, evitando medidas precipitadas. Pensar em alternativas é válido, mas é preciso compreender que o que funcionou até agora pode não ser suficiente no futuro”, conclui.

O que fazer?

A discussão sobre a redução da escala de trabalho também ganha espaço na hotelaria independente. Henrique Vieira Medeiros, sócio e diretor da Leve Gestão Hoteleira Inteligente, gestora de marcas como OK Inn Hotéis, Atlantico Sul Hotel e Hotel Renascença, afirma que, diante da insatisfação com o modelo 6×1, o tema merece atenção.

Segundo Medeiros, mudanças tão significativas exigem estudos prévios e discussões baseadas em dados. “Assim, as decisões podem ser tomadas sem influências políticas ou unilaterais, priorizando benefícios para toda a sociedade, que inevitavelmente será impactada por essas alterações”, analisa.

Ele ressalta que mudanças podem favorecer a retenção de talentos na hotelaria, mas também trazer desafios. “Se os colaboradores precisarem dividir o foco entre múltiplos ambientes, a produtividade pode ser comprometida. É essencial analisar indicadores como tempo, custos e condições de trabalho”.

Na Leve, estimativas indicam que a mudança poderia aumentar a folha de pagamento em 25%. “Se esse custo adicional resultar em maior produtividade, ele deve ser aceito. Além disso, mudanças no modelo podem influenciar a diária média dos hotéis”, observa.

“A tecnologia, aliada a motivação, treinamento e conscientização, é a chave para adaptar o setor a essa nova dinâmica de mercado”, pontua Medeiros.

O 5×2 na prática

Enquanto decisões concretas não são tomadas, alguns empreendimentos já implementaram o modelo 5×2. O Royal Tulip Holambra (SP) é um exemplo, tendo adotado a escala há seis meses.

Karla Masetti, gerente geral do hotel, explica que a falta de mão de obra na região motivou a mudança. “Após a pandemia, muitos profissionais buscaram novas formas de trabalho. O modelo 6×1 não oferece qualidade de vida, e as pessoas perceberam que a vida não é só trabalho”.

Ela conta que o novo modelo foi adotado em todos os departamentos do empreendimento, com impacto de custo abaixo de 15%. “O aumento no quadro de funcionários foi de 6%, principalmente na área de Governança. Acredito que, no futuro, a rede deva adotar essa escala como padrão, considerando os benefícios para os colaboradores e a operação”, diz a gerente.

“Essa mudança na jornada de trabalho tem se mostrado extremamente benéfica, com a diminuição do turnover e a visível mudança no engajamento dos funcionários. Desde que fizemos esta mudança, notamos a diminuição do absenteísmo, e o colaborador passou a ser um defensor da empresa, por perceber que nos preocupamos com seu bem estar e da sua família”, diz a gerente.

Para Karla, toda mudança exige adaptação e, com isso, algum impacto financeiro. “Por se tratar de um setor que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, há a necessidade de contratar novos colaboradores para algumas funções. Após este início, os benefícios já podem ser percebidos, e o impacto financeiro é atenuado com a diminuição das faltas e atestados, além da maior retenção de talentos, o que diminui os custos com treinamentos de recrutamento de novos profissionais”, continua.

A gerente do empreendimento de Holambra acrescenta que o aumento percebido com a contratação de novos colaboradores não se sobrepõe aos custos atuais com horas extras e contratação de mão de obra extra. “Além da implementação da escala 5×2, podemos pensar em programas de assistência psicológica, com terapia ocupacional, ginástica laboral, incentivo ao equilíbrio entre vida profissional e lazer, estimulando os profissionais a aproveitarem o tempo livre para cuidar de si e de suas famílias”, conclui.

Ainda não sabemos se a PEC do fim da escalada 6×1 vai, de fato, avançar no Legislativo, mas o debate sobre novas possibilidades de trabalho na hotelaria não deve parar por aqui. E o seu hotel? Adotaria outras jornadas na operação?

(*) Crédito da capa: Freepik

(**) Crédito das fotos: Arquivo HN

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