InícioNEGÓCIOSMercadoGolfe é tacada certa pouco explorada pela hotelaria
Slaviero hospitalidade
Banner Bee2Pay

Golfe é tacada certa pouco explorada pela hotelaria

Olhos atentos na bola, mãos firmes no taco e silêncio. O golfe, assim como os negócios, requer estratégia, cautela e planejamento. Apesar de ser considerado por muitos uma prática elitista, o esporte é um nicho de mercado pouco explorado pela hotelaria brasileira, mas que movimenta grandes volumes financeiros e atrai turistas em diferentes destinos globais.

Segundo dados da CBG (Confederação Brasileira de Golfe), estima-se que o Brasil conta com 20 mil golfistas e 117 campos. Nos últimos 15 anos, o número de praticantes no país dobrou — o que indica um crescimento significativo de entusiastas do golfe em solo tupiniquim.

Um deles é Michael Nagy, ex-diretor Comercial do Fairmont Rio de Janeiro Copacabana e fundador da MN Global Consulting. Praticante desde 2018, o executivo tem o golfe como uma de suas paixões, que ele afirma ter o ajudado não apenas fisicamente, mas também a compreender os negócios sob um novo espectro.

“É um esporte para todas as idades. O golfe é como a vida e os negócios. É preciso escolher o taco certo, entender as condições climáticas, o momento do campo. Mundialmente, existem 66 milhões de golfistas registrados. Se colocarmos uma lupa nos praticantes sem registro, esse número sobe para 100 milhões, além de operadoras dedicadas ao segmento”, diz em entrevista à reportagem do Hotelier News.

Nagy revela que, em média, o praticante viaja cinco vezes por ano para vivenciar o esporte, com ticket médio em torno de US$ 105 mil. Ou seja, há muito dinheiro na mesa que pode ser revertido para o setor hoteleiro, mas que os empreendimentos brasileiros ainda não estão olhando.

“O número de mulheres praticantes está crescendo, assim como o volume de casais com mais de 50 anos que viajam para jogar juntos. O golfista, em linhas gerais, viaja com a família e busca experiência. É um segmento em expansão que envolve muitos investimentos, uma vez que muitas marcas patrocinam o esporte pelo mundo”, continua Nagy.

Nagy pratica o esporte desde 2018

Potencial de mercado

Presidente do Campo Olímpico de Golfe, legado deixado pelas Olimpíadas de 2016, Carlos Favoreto explica que, atualmente, 40 mil pessoas frequentam o campo por mês, sendo 5% golfistas. O número mostra como o esporte pode ser uma âncora para experiências até mesmo para não praticantes.

“É um novo segmento. Antes, o Brasil não olhava o golfe como um nicho do turismo, pois grande parte dos clubes são privados e fechados ao público externo. Com o campo olímpico, que é aberto ao público mesmo sendo um espaço privado, esse paradigma foi quebrado. Trata-se de um campo de alto nível dentro de uma cidade turística”, destaca Favoreto.

Único campo olímpico de golfe do mundo, o espaço atrai golfistas e famílias inteiras que visitam o Rio de Janeiro. Segundo o presidente, o turismo que envolve o esporte lota os hotéis da Barra da Tijuca.

“Um dos torneios que recebemos, o PGA Tour Américas, trouxe golfistas de 16 países. E esses profissionais não viajam sozinhos, sempre acompanhados de, pelo menos, duas pessoas. Para receber esses praticantes, fechamos parcerias com hotéis a partir de descontos para os pacotes. São empreendimentos de três, quatro e cinco estrelas”, conta Favoreto.

O campo olímpico realiza cerca de 18 campeonatos anuais, mas o presidente afirma que é o golfista amador que mais gasta com viagens. Segundo Favoreto, o esportista estrangeiro desembolsa, em média US$ 3 mil por mês. “A indústria do golfe, incluindo o turismo, fatura nos EUA cerca de US$ 62 bilhões. É um segmento muito rentável que pode trazer ao Brasil um nicho de viagens diferenciado”.

Presidente da CBG, Eudes de Orleans e Bragança ressalta que o golfe ainda é um esporte pouco difundido no país, mas que o Brasil tem bons equipamentos para fomentar um segmento de turismo pautado na atividade. “Uma das metas dentro da Confederação é desenvolver o esporte, com foco na base infantojuvenil. Temos que gerar atratividade a partir da base”.

De acordo com Bragança, a entidade realiza um campeonato por mês, além de 20 torneios por ano em diversas categorias. Para ele, fomentar o turismo por meio do esporte só será possível a partir da colaboração entre as iniciativas pública e privada. “É preciso desenvolver um esforço de divulgação em mídias sociais e tradicionais. Precisamos ocupar os noticiários, gerar atenção e curiosidade”, avalia.

André Egoroff
Egoroff é investidor do Novotel Itu

Nicho em ascensão

André Egoroff está à frente do Terras de São José Golfe Clube desde 2007, além de ser um dos investidores do Novotel Itu Golf & Resort, no interior paulista. No clube, o executivo afirma que a maior demanda vem de estrangeiros, como ingleses, norte-americanos, alemães e orientais.

“Pela proximidade com São Paulo, recebemos muitos estrangeiros que acabam se hospedando no hotel. Somos um ponto de apoio e referência na região. Nosso campo é aberto e os jogadores pagam o green fee (taxa para utilização do campo). Também realizamos torneios internos todos os meses e recebemos competições corporativas de empresas. Somos muito ativos neste aspecto”, explica Egoroff.

Apesar do potencial do empreendimento, o golfe ainda não representa uma parcela significativa de hóspedes do Novotel Itu. O investidor conta que muitos hóspedes têm o primeiro contato com o esporte durante a estada na propriedade por meio de aulas e clínicas promovidas na programação.

“Muita gente conhece o golfe aqui e acaba se apaixonando. O próprio hotel traz essa dinâmica. Por outro lado, mantemos relacionamento com a CBG e com a Federação Paulista de Golfe. Realizamos torneios chancelados pelas entidades, além de torneios abertos do estado que são oficiais do nosso campo”, continua Egoroff.

Mesmo o esporte sendo um nicho de mercado valioso para o turismo, Egoroff acredita que as dimensões continentais do Brasil impedem que um roteiro dedicado ao golfe seja desenvolvido. “Nosso país é muito grande. Não acredito nisso. São Paulo concentra a maior quantidade de campos do Brasil, então, muitas pessoas acabam ficando pela região. Pensando nesse segmento, estamos desenvolvendo um novo campo no Cyan Resort, em Itupeva”.

Nagy salienta que o erro da hotelaria é não querer investir em segmentos específicos de mercado, como, por exemplo, a partir de parcerias com operadoras dedicadas ao esporte. “É preciso colocar o seu produto no segmento. O setor não explora esse mercado de forma coerente”, avalia.

Carlos Favoreto
Favoreto está à frente do campo olímpico

Esporte como base da experiência

A bandeira Fairmont, da Accor, conta com 90 unidades ao redor do globo. Do total, 20 hotéis possuem campos de golfe próprios. O esporte faz parte do DNA da marca da Accor, que sabe explorar o segmento com maestria. Netto Moreira, diretor geral do Fairmont Rio, conta que, uma vez por ano, o empreendimento promove o Fairmont Golf Experience.

“Fechamos uma parceria com o campo olímpico e realizamos o torneio uma vez por ano. Também somos parceiros de outros dois campos no Rio. A Fairmont patrocina alguns jogadores profissionais que representam a marca nos campeonatos. Em abril, recebemos 100 golfistas do PGA e promovemos o catering assinado por nosso chef nos coquetéis de abertura e encerramento”, explica Moreira.

Para absorver essa demanda, o hotel de luxo da Accor conta com a promoção de agências de viagens nacionais e internacionais. Nos pacotes estão inclusos o green fee, além de mimos como kits com toalhas, bolas, camisetas e squeeze com a logomarca do empreendimento.

Gerente geral do Novotel Itu, Carlos Jacobina explica que nem todo golfista do Terras de São José Golfe Clube é hóspede do empreendimento, mas que o campo agrega valor à experiência de hospedagem. E o esporte também se beneficia do perfil convention do hotel para lançamentos de produtos.

“Somos uma opção para atividades, como workshops, lançamentos de itens exclusivos, etc. O golfe está inserido em nossa programação de lazer e temos 17 salas de eventos tematizadas com nomes de campos ou termos ligados ao esporte”, diz Jacobina.

Premiações, eventos e hospedagem de atletas fazem parte da conexão entre o campo e o empreendimento da Accor. Jacobina salienta que o turista do golfe possui um ticket médio mais elevado quando comparado ao hóspede de lazer.

Gastos atrelados

No Wish Foz do Iguaçu, o campo de 18 buracos é um dos atrativos, onde são realizados cerca de 10 torneios anualmente. O empreendimento de 215 UHs afirma que o esporte é responsável por cerca de 10% da ocupação mensal.

“É um esporte em ascensão, mas que ainda não é tão difundido no Brasil. Recebemos muitos estrangeiros, principalmente argentinos e paraguaios, que praticam o golfe. Porém, acreditamos no crescimento desse nicho”, diz Kenji Cascais Takao, gerente geral do Wish Foz do Iguaçu.

O hotel, que também é associado à Federação, acredita na parceria como uma forma de ganhar visibilidade perante o esporte. O empreendimento ainda aposta em campanhas de marketing digital e redes sociais para ganhar mais relevância no segmento.

O ticket médio do hóspede golfista, de acordo com o gerente, chega a ser 30% superior em relação a um turista a lazer. Um dos motivos desse incremento é a locação de equipamentos, que impulsionam a receita da propriedade.

“Os golfistas muitas vezes viajam em grupo e gastam com a locação de carrinhos, bolsa de tacos, bolas, etc. São clientes que não se importam em gastar para ter esses itens e ficar quatro horas no campo para jogar os 18 buracos”, afirma Karina Trindade, gerente de Manutenção e Golf do Wish Foz do Iguaçu.

Viagens em família, onde esposas e filhos acompanham o golfista, assim como eventos de confraternização são potenciais de receitas auxiliares para os hotéis. No caso do Wish Foz do Iguaçu, espaços como o Club House, na estrutura do campo, ajudam a compor a experiência. “Quando eles vêm em grupo, realizam eventos, coquetéis e alugam espaços para premiações”, salienta Takao.

Um dos principais representantes do Nordeste, o Dom Pedro Laguna recebe cerca de 70% de estrangeiros e 40% de brasileiros que jogam golfe no campo do complexo Riviera Aquiraz, em Aquiraz (CE). João Machado, gerente geral do hotel, revela que o ticket médio de golfista é 40% superior ao de um cliente de lazer.

“São clientes bem exigentes, acostumados com luxo e grandes resorts. Recebemos muitas pessoas de Portugal e da Suíça, mas que buscam um destino tropical para jogar. Aqui, não vemos muita sazonalidade. Os golfistas vêm o ano todo”, explica o gerente.

O tempo médio de estada desse perfil de público é de 10 dias, o que rende bons resultados para o Dom Pedro Laguna. No site do empreendimento, as experiências voltadas para o esporte são destaque, assim como as aulas de kitesurfe.

“Seria interessante criar uma trilha do golfe com hotéis que atuam nesse nicho. Como somos um país continental, o viajante poderia praticar o esporte em diferentes paisagens. Existe um grande potencial a ser explorado”, finaliza Machado.

(*) Crédito da capa: Unaplash

(**) Crédito das fotos: Divulgação

Grupo R1
Realgems amenities