O imaginário da hotelaria de luxo passa por estruturas sofisticadas, luvas brancas e atendimento baseado na formalidade. Após 123 anos recomendando restaurantes para viajantes, o Guia Michelin entrou para o universo da hospitalidade, causando alvoroço no segmento e, claro, gerando grandes expectativas para empreendimentos da categoria. Esse senso comum do alto padrão como uma régua clássica, todavia, vem perdendo espaço no mercado. Agora, fica o questionamento se os hotéis brasileiros têm todos os pré-requisitos para agradar os avaliadores da publicação francesa.
Assim como as estrelas estão para os restaurantes, o Guia Michelin listará os hotéis com o emblema de uma chave — símbolo também dos concierges, personagens importantes na hotelaria de luxo. As classificações, semelhantes ao reconhecimento na gastronomia, são de Uma, Duas ou Três Chaves para o setor de hospitalidade.
As equipes do Guia Michelin selecionaram 5 mil propriedades em 120 países, baseadas em cinco critérios:
- O destino em si, no qual o hotel contribui para a experiência local
- Excelência em design de interiores e arquitetura
- Individualidade, refletindo a personalidade e autenticidade
- Qualidade e consistência no serviço, conforto e manutenção
- Coerência entre o nível de experiência e o preço cobrado
Os primeiros hotéis foram listados na França (189) e EUA (124). E como acontece com os restaurantes, foram poucas as propriedades que receberam a chancela máxima da publicação. No mercado francês, por exemplo, apenas 24 empreendimentos foram reconhecidos com as Três Chaves.
Entusiasta do Guia Michelin para a hotelaria, Simone Scorsato, CEO da BLTA (Brazilian Luxury Travel Association), acredita que trazer um novo selo para o setor de hospitalidade é algo positivo. “Acho interessante ter as Chaves para qualificar hotéis com uma chancela de excelência de mercado. Gostei de todos os critérios e acho que ressoam com o que a hotelaria brasileira e a BLTA praticam em termos de autenticidade, design e arquitetura”.

O momento da hotelaria de luxo nacional
Ser reconhecido com uma Chave Michelin se tornou o desejo de muitos hotéis pelo mundo. Afinal, a ampla tradição da publicação, com rígidos padrões de qualidade, traz a certeza de uma experiência memorável. No Brasil, a hotelaria de luxo engatinha quando comparada a outros destinos consolidados no segmento. Por outro lado, profissionais da categoria estão otimistas quanto à entrada de propriedades tupiniquins na tão sonhada lista.
“Acredito que o Brasil está preparado sim, mesmo que não seja selecionado. Estamos consolidando nossa imagem no turismo de luxo lá fora e temos produtos que podem se enquadrar nessa avaliação. É uma questão de tempo e de como o Guia Michelin avança em destinos consolidados”, avalia Simone.
À frente do Fairmont Rio de Janeiro Copacabana, uma das grandes referências da hotelaria de luxo brasileira na atualidade, Netto Moreira enxerga o reconhecimento como uma vitória para o setor hoteleiro nacional como um todo. “O Brasil receber uma Chave beneficia a todos. É um trabalho que pode levar a hotelaria brasileira a patamares internacionais com DNA local. Gera muita visibilidade, com certeza seria fantástico”.
Na contramão dos colegas, Edouard Grosmagin tem uma opinião diferente. Gerente geral do Rosewood São Paulo, o francês avalia os critérios do Guia Michelin como rígidos para o que acredita definir o luxo nos dias atuais. “Existe uma controvérsia nesse aspecto. Tratando-se de um país com dimensões continentais e tantos lugares incríveis de Norte a Sul, não sei se ter um hotel reconhecido com Três Chaves, por exemplo, seria algo positivo”.
Ao mesmo tempo, Grosmagin vê potencial no mercado nacional por acreditar que o luxo é uma questão de autenticidade e experiência. “Hoje, o luxo é sense of place. Um lugar de lifestyle com quartos e não um hotel propriamente dito, mas sim um local que desperta o desejo do cliente de estar, seja para tomar um café, almoçar, jantar e, quem sabe, passar a noite”.
Corporate Senior Head of Asset Management da Prima Empreendimentos, Gefferson Alves tem ampla experiência na hotelaria de luxo. Ex- diretor geral do Ba’ra Hotel, em João Pessoa, o executivo aposta na identidade do brasileiro como um diferencial de reconhecimento.
“Temos muitos empreendimentos que fazem trabalhos locais incríveis, com DNA forte e entrega de serviços. Não sei se alcançaremos as Três Chaves, mas acho que temos sim a capacidade de figurar em uma lista tão seleta, assim como alguns empreendimentos se destacaram em outros reconhecimentos, como é o caso do Colline de France, em Gramado, que chegou ao Melhor Hotel do Mundo no TripAdvisor”, avalia Alves, que relembrou propriedades com outras chancelas de luxo, como LHW (The Leading Hotels of The World).
Foram mais de 10 anos como gerente geral do Hotel Unique, em São Paulo, e Melissa Fernandes segue no segmento de luxo, porém do outro lado do balcão. Diretora de Atendimento da Teresa Perez Tour, a executiva avalia a possibilidade como um grande desafio para o mercado nacional. “Se o Guia Michelin procura por uma hotelaria tradicional de luva branca, não temos muitos hotéis assim. Porém, oferecemos nossa brasilidade, autenticidade, com um atendimento hospitaleiro e cordial”.

O desafio da mão de obra
E um dos principais problemas da hotelaria atual também significa desafios para a entrada na publicação. Com uma clientela exigente, o mercado de luxo demanda excelência e profissionalização no atendimento — o que pode ser um ponto de falha para o Brasil. “Outros países possuem uma mão de obra mais profissionalizada. O brasileiro é acolhedor, mas menos atento a processos”, pontua Melissa.
Alves concorda em partes com a ex-gerente geral do Unique quando questiona sobre as percepções do que é profissionalismo. “Se olharmos para um viés técnico, é uma coisa. Temos que enxergar esse ponto de forma mais abrangente. O Brasil possui empreendimentos fora do eixo Rio-São Paulo que entregam serviços consistentes. A profissionalização da mão de obra é uma questão urgente, mas muitos investidores não entendem a profundidade desse problema”.
Hotel permeado por processos, o Fairmont Rio vê o Guia Michelin como um estímulo para melhorar a mão de obra no país. O empreendimento da Accor opera seguindo padrões avaliados pela Forbes anualmente, o que direciona treinamentos e capacitações. “Favorecemos a formação de mão de obra para o mercado e nos orgulhamos muito disso”, destaca Moreira.
Fora dos grandes centros
Quando pensamos na hotelaria de luxo, nos vêm à mente grandes propriedades em centros urbanos, como Unique, Rosewood, Fairmont, Palácio Tangará, entre outros. Não podemos esquecer que o setor tornou-se plural, saindo de eixos de capitais para cidades secundárias e terciárias que não deixam nada a desejar.
“São produtos que recebem uma clientela predominantemente estrangeira e lidam com hóspedes de categorias superiores ao que estamos acostumados nacionalmente. E entregam ótimos serviços, mas são negligenciados em nível nacional”, avalia Alves.
Melissa compartilha da percepção de um mercado de luxo variado no país, que engloba desde o Copacabana Palace até o Comuna de Ibitipoca, em Minas Gerais. “Propriedades menores têm força para se destacar, enquanto os maiores são velhos conhecidos”.
Nos EUA, o Rosewood Washington DC foi uma das propriedades listadas. Já a unidade brasileira foi um divisor de águas quando trata-se de hotéis que dialogam com a comunidade local. Para Grosmagin, o luxo vive um momento de revolução e elenca inovação e consistência como elementos essenciais.
(*) Crédito das fotos: Divulgação















