Há alguns anos, escrevi para o Hotelier News sobre um sonho: ver um trem moderno ligando Santos a São Paulo. O artigo, “Sonhar não custa nada”, foi um dos mais lidos do portal e, para minha surpresa, até hoje recebo comentários.
Pois bem — recentemente, tive outro sonho. Mas desta vez, ele começou naquele mesmo trem. No meu sonho, era 2040. Eu embarcava na estação de Santos, sentava-me em um vagão confortável e, em menos de uma hora, já estava na capital paulista. Mas a viagem não era o centro da história — era apenas o fio que unia algo muito maior: uma Baixada Santista que havia decidido se organizar como nunca.
O nome dessa união? VISITE A BAIXADA SANTISTA
Todas as cidades — Guarujá, Santos, São Vicente, Praia Grande e Itanhaém — decidiram que competir entre si por turistas era como disputar quem tem o melhor pedaço do mesmo mar. Reuniram verbas públicas e privadas, criaram um fundo único de promoção, contrataram especialistas em marketing de destinos e, juntos, venderam o litoral como um todo.
No sonho, os resultados eram de encher os olhos. O aeroporto de Guarujá recebia voos diretos nacionais e internacionais. O túnel submerso Santos–Guarujá facilitava a mobilidade e criava novas rotas turísticas. O trem atraía paulistanos para passar o fim de semana na praia, enquanto turistas estrangeiros desembarcavam direto do aeroporto e já encontravam experiências integradas:
- Em Santos, tour pela Vila Belmiro, visita ao Museu do Café, passeio de bonde pelo Centro Histórico, orla com 7 km de jardins e travessia rápida para o Guarujá.
- No Guarujá, praias icônicas como Enseada, Pitangueiras e Pernambuco, mirantes como o Morro do Maluf e o Mirante das Galhetas, além do charme gastronômico da Praia do Éden e do acesso facilitado à Ilha das Cabras.
- Em São Vicente, a Ponte Pênsil, a Biquinha de Anchieta, o teleférico que liga a praia ao Morro do Itararé e as praias do Gonzaguinha e Itararé, famosas pelo pôr do sol.
- Em Praia Grande, a orla extensa e urbanizada, os quiosques animados, a Fortaleza de Itaipu com sua história militar e a proximidade de trilhas ecológicas no Parque Estadual
Xixová-Japuí. - Em Itanhaém, o Convento Nossa Senhora da Conceição, a Praia dos Sonhos, a Cama de Anchieta, o Morro do Sapucaitava e o passeio de barco pelo Rio Itanhaém até a Praia do Cibratel.
Além das belezas naturais e da infraestrutura portuária, a região também se consolidou como um destino obrigatório para passeios escolares de todo o Brasil, graças a um roteiro histórico cultural único. Estruturado para receber grupos estudantis, ele conecta São Vicente, a primeira cidade oficialmente fundada no Brasil em 1532, com suas igrejas centenárias e marcos da colonização; e Santos, a terceira cidade mais antiga do país, fundada em 1546, com seu Centro Histórico repleto de patrimônios tombados, museus e o Porto que foi protagonista do desenvolvimento econômico do Brasil. Esse circuito apresenta também a evolução da arquitetura brasileira, da herança colonial aos edifícios modernistas. Um mergulho que permite compreender não apenas a história do litoral paulista, mas também a formação social, cultural e econômica do Brasil.
Aproveitando o potencial dos cruzeiristas
Além da crescente oferta de transatlânticos que fazem escala na região, a Baixada Santista vem se consolidando como um destino cada vez mais atraente para cruzeiristas, que desejam aproveitar não apenas o embarque e desembarque, mas a experiência completa que o litoral oferece. As empresas de cruzeiros têm observado uma demanda anual crescente e, com isso, estão ampliando as opções para que as operações aconteçam ao longo de todo o ano, tornando a Baixada Santista um porto ativo para embarques e desembarques durante todas as estações. Esse movimento abre espaço para que a região seja inserida definitivamente na rota dos transatlânticos internacionais, com mais paradas programadas que possibilitam aos turistas conhecerem as belezas naturais, culturais e históricas da Baixada Santista, potencializando o turismo local e fortalecendo a economia regional.
Além disso, a segurança deixou de ser uma preocupação. Uma polícia metropolitana única passou a atuar de forma integrada em toda a Baixada Santista, garantindo presença constante e atendimento rápido, transmitindo confiança para turistas e moradores.
Outra novidade foi a criação de uma ciclovia única e contínua, ligando todas as cidades, beirando praias, áreas verdes e pontos turísticos. Com estrutura segura, sinalização e apoio, ela atraiu ciclistas profissionais e amadores, fomentando o cicloturismo e criando roteiros de pedaladas longas, seguras e inesquecíveis.
O turismo de eventos também floresceu. Congressos, torneios esportivos, feiras e festivais aproveitaram a logística impecável. Cruzeiros lotavam o porto, e cada cidade tinha roteiros complementares, evitando a canibalização que antes limitava nosso potencial.
Mas o mais marcante do sonho não estava nas obras ou na tecnologia — e sim nas pessoas. Era a sensação de união, de que o mar e a serra não eram barreiras, mas pontes. Empresários, gestores públicos, moradores e visitantes caminhavam na mesma direção.
Acordei com aquela sensação boa que só um sonho realista provoca. Porque, diferente do que escrevi anos atrás, hoje sei que sonhar ainda não custa nada — mas custa muito não sonhar.
Ah… se não fosse o ego, a política e, principalmente, a necessidade de alguns sobreviverem única e exclusivamente através do dinheiro público… talvez eu pudesse acreditar que esse sonho realmente pudesse se realizar.
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Atualmente morador da Baixada Santista, Mateus Cabau é especialista em estratégia de mercado e análise econômica hoteleira. Com forte ligação com os EUA, onde morou por 10
anos, Mateus desenvolveu e foi gerente geral de hotel em Orlando, o destino turístico mais visitado das Américas. Com ampla experiência na gestão de empreendimentos hoteleiros,
acompanha de perto as relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, oferecendo uma visão crítica e pragmática sobre os impactos das políticas tarifárias para o setor e a economia brasileira.
E-mail: mateuscabau@hotmail.com
(*) Crédito da foto: Arquivo pessoal















