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Nova centralidade muda papel da hotelaria em Gramado

A expansão da hotelaria deixou de ser apenas um reflexo do crescimento do turismo e passou a orientar o futuro desenvolvimento urbano de Gramado (RS). Diante da saturação do centro da cidade, a prefeitura aposta na criação de uma nova centralidade: uma área de 900 hectares na região Norte do município que deverá concentrar hotéis, resorts, moradias, comércio, equipamentos culturais e serviços. A expectativa é atrair cerca de R$ 15 bilhões em investimentos privados na próxima década e criar um novo polo capaz de redistribuir o fluxo de moradores, turistas e empreendimentos, segundo matéria publicada pela Exame.

A proposta reforça uma mudança no papel da hotelaria dentro do destino. Se antes os meios de hospedagem acompanhavam o crescimento da demanda turística, agora surgem como empreendimentos-âncora capazes de induzir a ocupação de novas áreas, estimular a valorização imobiliária e atrair restaurantes, comércio, entretenimento e infraestrutura. A estratégia busca reduzir a pressão sobre o centro histórico e criar um modelo urbano mais equilibrado, inspirado no conceito de cidade de 15 minutos, em que serviços e atividades cotidianas fiquem distribuídos por diferentes regiões.

O projeto também abre espaço para discussões sobre os desafios desse novo ciclo de expansão. O aumento da oferta de hotéis, branded residences, multipropriedades e empreendimentos de uso misto levanta dúvidas sobre a capacidade de absorção do mercado, além de preocupações relacionadas à mobilidade, aos impactos ambientais e à preservação da identidade arquitetônica que tornou Gramado um dos destinos turísticos mais reconhecidos do país. O equilíbrio entre crescimento econômico e manutenção da exclusividade da cidade deverá ser um dos principais testes para o sucesso da Nova Centralidade.

Em entrevista ao Hotelier News, Rafael Barros, secretário Municipal de Planejamento, afirma que o crescimento de Gramado sempre acompanhou seu fortalecimento como destino turístico. Segundo ele, a concentração de atrações e atividades no centro tradicional acabou sendo muito mais intensa do que em outras regiões do município.

O PDDI (Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado), aprovado em 2022, propõe a descentralização de atividades comerciais e de serviços pelo território. “Assim, entendemos que a pressão sobre o centro tradicional poderá ser amenizada, ao mesmo tempo em que estimulamos o desenvolvimento de novas áreas”, diz. Para o gestor, a hotelaria, isoladamente, não é capaz de induzir o desenvolvimento de Gramado, embora seja uma atividade essencial. Barros defende que a cidade é construída pela atuação conjunta de diferentes setores, interesses e atividades, de preferência concentrados na mesma região.

“A hotelaria de Gramado sempre foi referência em bem receber. Não só ela, mas todas as atividades ligadas direta ou indiretamente ao turismo sempre tiveram esse papel aqui. Somos uma cidade que conta histórias, que vende bem-estar e qualidade de vida, e certamente os hotéis são peças importantes, mas não as únicas. Não somos um destino típico de resorts de milhares de unidades, onde o turista passa seu período exclusivamente dentro do empreendimento”, avalia o secretário.

Estratégia

Há décadas, Gramado investe em planejamento urbano e infraestrutura para acompanhar o avanço do turismo. Segundo Barros, a aprovação da Lei Complementar nº 12/2026, que regulamenta o Projeto Urbanístico Relevante da Nova Centralidade, integra esse processo, ao lado de iniciativas como o projeto LEG (Linhas Elétricas Gramado) e de investimentos em saúde, educação e segurança. “Gramado pretende crescer de forma planejada e continuar sendo essa cidade desejada que atrai milhões de turistas todos os anos”, afirma.

Rafael Barros
Barros detalha papel da nova centralidade

Na visão do secretário, o avanço de branded residences, multipropriedades e projetos integrados não altera a dinâmica do mercado imobiliário local, consolidada ao longo de décadas. Ele defende que novos investimentos respeitem as características da cidade e contribuam para o desenvolvimento coletivo. “Os investimentos e as marcas são bem-vindos, mas precisam agregar valor à cidade, e não apenas aos investidores”.

Barros reconhece que o déficit habitacional é um desafio comum aos destinos turísticos, mas afirma que a ampliação da oferta de moradias faz parte da solução. Segundo ele, a Nova Centralidade também foi concebida para estimular habitações populares e promover um crescimento equilibrado. “Estamos em busca de um modelo sustentável que garanta o crescimento econômico sem deixar de lado o bem-estar social e o acesso à moradia”, explica.

O secretário admite que existe risco de saturação da oferta de hospedagem nos próximos anos em razão da aprovação, no passado, de grandes empreendimentos hoteleiros. Ele observa que o PDDI passou a limitar o número de unidades por projeto para evitar hotéis em escala incompatível com a cidade.

Barros explica que o decreto de moratória para novos hotéis com mais de 20 unidades busca direcionar o crescimento do setor. A exceção são áreas enquadradas como Projetos Urbanísticos Relevantes, como a Nova Centralidade, e Operações Urbanas Consorciadas, utilizadas para estimular o desenvolvimento planejado.

Para o secretário, a limitação do número de unidades deveria ter sido adotada antes, evitando empreendimentos com centenas de quartos. A prioridade, agora, é qualificar a oferta e preservar a identidade urbana e paisagística do município. “O foco é, sim, a qualidade, o afeto e a valorização do bem receber.” Ele ressalta que, embora Gramado busque diversificar sua economia com áreas como educação, saúde e economia criativa, o turismo sempre será a grande vocação da cidade.

Hotelaria na Nova Centralidade

A Nova Centralidade de Gramado já reúne alguns empreendimentos que despontam como âncoras do projeto, entre eles um complexo do Club Med. Para Janyck Daudet, presidente da companhia na América do Sul, a hotelaria terá papel estratégico ao diversificar a oferta turística, redistribuir o fluxo de visitantes e impulsionar a economia local. O executivo acredita que empreendimentos qualificados ajudam a gerar empregos e fortalecer toda a cadeia do turismo. “Vejo a Nova Centralidade como um movimento estratégico para apoiar o crescimento sustentável da cidade e preparar Gramado para uma nova etapa de desenvolvimento”.

Ele afirma que a rede acompanha com entusiasmo a criação da Nova Centralidade e considera o projeto alinhado à evolução de um dos principais destinos turísticos do país. Previsto para inaugurar em 2027, o resort desenvolvido em parceria com o Grupo Sirena e a DC Set Group foi concebido para integrar esse novo momento da cidade. “Mais do que um resort, queremos ser um elemento de conexão dentro desse novo ecossistema, ajudando a consolidar Gramado como um destino cada vez mais competitivo nacionalmente e internacionalmente”, completa.

Janyck Daudet
Daudet detalha empreendimento na nova centralidade

Segundo Daudet, o empreendimento pretende complementar a experiência já oferecida por Gramado e pela Serra Gaúcha, valorizando a cultura, a gastronomia e os atrativos locais. O resort contará com estrutura voltada ao turismo de alto padrão, incluindo gastronomia, centro de wellness, atividades esportivas e opções de lazer para toda a família. Ele destaca que o projeto ocupará uma área de 200 mil metros quadrados (m²) dentro de um complexo superior a 2 milhões de m², que reunirá atrações como pista de esqui artificial, parque de arborismo, jardim botânico e trilhas.

O executivo também vê o projeto como um marco na expansão da rede no Brasil. O resort será o quarto do Club Med no país e o primeiro da categoria Exclusive Collection na América do Sul. Embora o foco esteja concentrado na entrega do empreendimento, Daudet afirma que a empresa seguirá atenta a futuras oportunidades de expansão. “Acreditamos que Gramado será um passo estratégico para fortalecer ainda mais a presença da marca na região e ampliar nosso relacionamento com novos públicos.”

Hotelaria como vetor da expansão urbana

Para Matheus Fiorezze, gerente Comercial dos Hotéis Fioreze, a hotelaria deixou de acompanhar apenas o crescimento do turismo e passou a influenciar diretamente a expansão urbana de Gramado. Segundo ele, o movimento de grandes empreendimentos para áreas mais afastadas do centro impulsiona infraestrutura, valorização imobiliária e novos serviços. “A hotelaria deixou de ser apenas um efeito da demanda turística e passou a ser também uma força que molda o desenho da cidade”, reforça.

Fiorezze afirma que a instalação de hotéis em novas regiões cria polos de desenvolvimento econômico ao atrair comércio, serviços e empregos. Ele cita a Nova Centralidade como exemplo dessa estratégia, por reunir hotelaria, comércio, saúde e moradia em uma nova frente de expansão urbana.

O executivo acredita que o crescimento em direção a corredores como a RS-235 resulta tanto de um processo natural quanto da chegada de grandes empreendimentos turísticos e imobiliários. Para ele, os investimentos privados aceleram a valorização do entorno e estimulam a implantação de infraestrutura e serviços. “O que era uma tendência natural de crescimento vira um processo bem mais rápido por conta do investimento privado”, enfatiza.

Matheus Fiorezze
Para Fiorezze, outros atrativos ganharão importância

Ao olhar para a próxima década, Fiorezze acredita que o centro histórico continuará sendo o principal polo turístico, mas deixará de ser o único. Na visão dele, a cidade caminhará para um modelo descentralizado, com novos núcleos voltados também aos moradores. “Na prática, acho que Gramado vai ter dois corações: um histórico, na Rua Coberta, e outro que ainda está nascendo”, acrescenta.

O gerente defende que a hotelaria assuma um papel mais ativo no planejamento urbano. Para Fiorezze, novos empreendimentos influenciam diretamente a distribuição de infraestrutura, empregos e investimentos, o que exige uma atuação integrada com temas como sustentabilidade e desenvolvimento das comunidades locais. “A hotelaria virou planejamento urbano. E ela não pode mais só reagir ao crescimento da cidade, precisa ajudar a desenhá-lo”, completa.

O executivo ainda acrescenta que o novo centro também abre espaço para formatos de hospedagem pouco explorados no eixo tradicional, como hotéis voltados para eventos corporativos, turismo de saúde e estadas de média permanência.

Crescimento com planejamento e identidade

Diego Cáceres, CEO do Grupo Laghetto, avalia que a hotelaria foi um dos principais motores da consolidação de Gramado como destino turístico. Segundo ele, o setor contribuiu para qualificar os espaços urbanos e profissionalizou sua gestão ao longo dos anos, incorporando práticas das grandes redes internacionais. Esse amadurecimento aumentou a previsibilidade do mercado, fortaleceu a confiança dos investidores e consolidou o segmento como um dos pilares da economia local.

Diego Cáceres
Para Cáceres, o projeto contribuirá com o crescimento do destino

Na visão do executivo, o surgimento de novas centralidades representa uma evolução natural para uma cidade que já atingiu os limites de expansão do centro. Ele acredita que a descentralização permitirá distribuir melhor os serviços e elevar a mobilidade urbana, enquanto o centro histórico continuará valorizado. “O centro não deixará de ser o coração da cidade”, avalia.

Cáceres afirma ainda que grandes empreendimentos hoteleiros têm capacidade de transformar regiões inteiras, atraindo novos negócios, valorizando o entorno e impulsionando o desenvolvimento urbano. “Grandes investimentos hoteleiros sempre representaram muito mais do que novos empreendimentos: são demonstrações de confiança no futuro da cidade”, pontua.

Sobre a infraestrutura, o CEO avalia que Gramado conseguiu manter elevados padrões de organização urbana mesmo diante da expansão do turismo, resultado de planejamento e investimentos contínuos. Ele ressalta, porém, que o desafio passa a ser sincronizar o ritmo dos investimentos privados com a capacidade de adaptação da cidade. Na sua avaliação, a principal demanda para os próximos anos será ampliar a conectividade regional, com melhorias nas rodovias e a implantação de um aeroporto de maior porte para sustentar o crescimento do destino.

Questionado sobre o risco de uma expansão urbana excessivamente guiada pelo turismo, Cáceres considera que Gramado soube crescer preservando sua essência. Segundo ele, a cidade continua reconhecida pelos atributos que a consolidaram como referência nacional, entre eles hospitalidade, segurança, paisagem urbana e valorização das tradições.

Ao projetar os próximos anos, o executivo afirma que o principal desafio já não será atrair visitantes, mas administrar o crescimento de forma sustentável. “O grande desafio de hoje, e acredito que também daqui a 10 anos, é crescer sem perder o charme, evoluir sem abrir mão da identidade e continuar sendo um lugar onde desenvolvimento, hospitalidade e qualidade de vida caminham lado a lado”, finaliza.

(*) Crédito das fotos: Divulgação

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