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O que o Tribe Belo Horizonte nos ensina sobre hotelaria lifestyle

A chegada do Tribe Belo Horizonte, na icônica Praça da Liberdade, primeiro empreendimento da marca no país, representa um marco na evolução da hospitalidade brasileira. Para isso, o grupo OR3 confiou à Noctua a responsabilidade de atuar como Asset Manager, conduzindo todo o processo de abertura e implantação com visão estratégica e foco em resultados.

Mais do que um exercício técnico, esta missão exigiu uma imersão internacional no universo lifestyle. Visitamos unidades Tribe em Paris, Londres, Medellín, Bangkok e Bali para absorver na prática o funcionamento desse modelo de hospitalidade e o que observamos está diretamente alinhado ao que Sébastien Bazin, CEO da Accor, destacou em sua entrevista no Skift Global Forum: um hotel lifestyle vai além de oferecer hospedagem ele precisa se consolidar como um destino vivo para a comunidade local.

O que caracteriza a hotelaria lifestyle

A diferença entre um hotel convencional e um lifestyle é perceptível já na atmosfera. É como entrar em um restaurante vibrante em contraste com um salão vazio, ou passear por uma cidade iluminada em oposição a ruas apagadas. O lifestyle é energia, movimento, pertencimento e essa experiência se ancora em três fundamentos principais:

Integração com a cidade: o hotel deixa de ser um espaço exclusivo para hospedes e se transforma em parte ativa da vida urbana, com lobbies que funcionam como extensão das praças e cafés sendo um HUB aberto, integrado a rua. Sem vidros fumês, sem seguranças barrando inibindo a entrada.

Diversificação de receitas: em vez de depender majoritariamente da hospedagem, a operação se equilibra em múltiplos centros geradores de valor como restaurante, bar, cafeteria, rooftop e eventos frequentemente representam a maior parte do faturamento.

Design com propósito: não se trata apenas de estética, mas de criar ambientes autorais, convidativos e funcionais, capazes de estimular encontros, convivência e inspiração tanto para hóspedes quanto para moradores locais.

O papel das equipes

Se a arquitetura e os pontos de venda são diferenciais, o fator humano é igualmente essencial. A lógica de atendimento nos hotéis lifestyle rompe com a formalidade tradicional.

Não há recepção rígida ou barreiras de balcão: os colaboradores circulam pelo lobby, interagem com naturalidade e se aproximam dos clientes de maneira mais pessoal, descontraída e acolhedora. A hospitalidade é menos dirigida por protocolos visíveis e mais marcada por uma atmosfera de proximidade.

É importante, contudo, destacar que lifestyle não é freestyle. Existem métricas, capacitações e métodos de atendimento bem definidos. A diferença está na forma de executá-los: um serviço mais simples, tranquilo e relaxado, em sintonia com o ambiente aberto e vibrante que caracteriza esse modelo de hotelaria.

Diferenças comerciais

Para tornar essa distinção mais tangível, a Noctua desenvolveu uma Matriz comparativa entre o midscale tradicional e o lifestyle. Ela evidencia como o segundo modelo transforma a lógica de operação, a estratégia comercial e a gestão de marca.

Tabela - Campolina

Enquanto hotéis convencionais chegam a obter até 90% da receita com hospedagem, no lifestyle essa lógica se inverte: a maior parte do faturamento vem de experiências complementares, isto é, mais de 50% da receita. Esse modelo traz elasticidade de preços e maior resiliência, mas também exige disciplina. A tarifa não pode ser definida apenas pelo benchmarking competitivo, precisa refletir a percepção de valor da experiência. Um erro nesse ponto compromete a marca de forma muito mais severa do que em modelos tradicionais.

O case Tribe Belo Horizonte

O Tribe Belo Horizonte nasceu de maneira disruptiva, priorizando primeiro a experiência gastronômica e de convivência para só depois ativar a hospedagem.

Fruto da visão do grupo OR3 em criar um empreendimento diferenciado na Praça da Liberdade, o projeto une a força de uma marca internacional em ascensão a um dos endereços mais emblemáticos de Belo Horizonte.

Desde a concepção, a proposta sempre foi ir além de um hotel, dando vida a um verdadeiro espaço urbano de convivência, que dialoga com a cultura mineira e se posicionará como referência de lifestyle no Brasil.

Diferente da lógica tradicional, o Tribe BH será um restaurante com hotel, e não um hotel com restaurante: o Trinta e Um, restaurante autoral já consolidado como referência nacional, abriu as portas antes da hospedagem; em seguida virá o Broa Café, que reinterpreta a tradição mineira em linguagem contemporânea; e, por último, o Coreto Rooftop, inspirado nos coretos das praças de Minas, com vista privilegiada para a Praça da Liberdade, projetado para ser ponto de encontro da cidade.

Tribe Belo Horizonte
Empreendimento marca chegada da bandeira ao país

Essa ordem estratégica reforça a essência do lifestyle: cada ponto de venda é um destino independente, mas que, ao mesmo tempo, se conecta a um todo integrado. Ao reunir gastronomia, hospedagem e espaços de convivência sob o mesmo conceito, o empreendimento demonstra, na prática, o que significa diversificação de receitas, integração urbana e design com propósito.

Mais do que isso, posiciona Belo Horizonte no mapa global da hotelaria lifestyle, tornando-se provavelmente o primeiro projeto desse tipo na cidade e um dos poucos no Brasil, ao lado do Rosewood São Paulo.

O legado para Belo Horizonte

Mais do que inaugurar um novo endereço, o empreendimento consolida uma mentalidade. Mostra que um hotel pode ser parte ativa da vida urbana, capaz de atrair a comunidade, estimular novos hábitos de consumo e redefinir a relação entre hospitalidade e cultura local.

O impacto vai além do conceito: ele está também na gestão operacional. Exige métricas específicas para áreas de F&B, integração mais estreita entre marketing e distribuição, equipes treinadas para um atendimento próximo e informal, além de uma política de precificação mais sensível ao valor percebido do que à simples ocupação.

Ao assumir o asset management desse projeto, a Noctua aprendeu a traduzir essas tendências globais para o mercado brasileiro, transformando ideias em rotinas diárias de operação. O resultado é um empreendimento que não apenas se destaca em Belo Horizonte, mas que também se tornará referência nacional sobre como o lifestyle pode reposicionar a hotelaria, alinhando operação, estratégia, experiência e valor de forma inovadora.

Henrique Campolina é sócio da Noctua responsável por liderar e desenvolver as áreas de Performance e Asset Management com um portfólio de R$1 bilhão em ativos. Profissional com 25 anos de carreira dedicados à gestão de diversas áreas corporativas, desde operações a novos negócios. Forte experiência em Canais de Distribuição, Marketplaces, Experiência do Cliente, Programas de Fidelidade, Vendas e Precificação. Ex-líder de Topline da Accor na América do Sul, responsável por uma equipe de mais de 115 profissionais, 80 hotéis e mais de R$ 1,3 bilhão em faturamento.

(*) Crédito das fotos: Divulgação

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