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Real em valorização: o dólar volta à faixa dos R$ 4?

As pessoas têm acompanhado a cotação do dólar atingir o menor patamar em dois anos, situando-se pouco acima de R$ 5,10 por unidade da moeda norte-americana. Diante desse cenário, surge a pergunta: nos próximos dias e meses, seria possível que o dólar retorne à casa dos R$ 4? Trata-se de uma hipótese plausível?

Em primeiro lugar, é necessário compreender os fatores que sustentam essa tendência de valorização do real observada desde o início do ano passado. O dólar, historicamente considerado uma moeda forte e um ativo de segurança em momentos de incerteza, vem perdendo espaço para outras moedas e para metais preciosos, como o ouro, que, em dois anos, passou de cerca de 2 mil dólares para aproximadamente 5,2 mil dólares.

Esse movimento está associado, em grande medida, à instabilidade política nos Estados Unidos, marcada por tensões comerciais e tarifárias, além de conflitos bélicos — ou ao menos ameaças de conflitos. Como consequência, o dólar vem apresentando perda de valor ao longo do tempo. O índice DXY, que mede o desempenho da moeda norte-americana em relação a uma cesta de moedas relevantes e é frequentemente interpretado como um termômetro da aversão ao risco global, acumulou queda de cerca de 10% em um ano. Contudo, desde o início deste ano, o indicador tem apresentado relativa estabilidade.

No âmbito doméstico, um dos principais fatores que contribuíram para a valorização do real foi o patamar elevado da taxa de juros, que funciona como atrativo para o capital estrangeiro, especialmente o de perfil especulativo. O Brasil continua registrando resultados expressivos de entrada de investimento estrangeiro direto, o que amplia a oferta de dólares no mercado e pressiona a taxa de câmbio para baixo, além de impulsionar recordes na bolsa de valores. Paralelamente, a inflação tem apresentado arrefecimento, elevando o chamado juro real — isto é, o rendimento após o desconto da inflação.

Entretanto, a partir de março, ao que tudo indica, o Comitê de Política Monetária (Copom) deverá iniciar um novo ciclo de redução da taxa básica de juros, a Selic, com projeções de que ela alcance 12,25% ao ano ao final de 2026. Com isso, o diferencial de juros com os Estados Unidos tende a se reduzir gradualmente, diminuindo gradativamente do atrativo para o capital externo. Porém, vale lembrar, que não há outro país se destacando para haver uma saída rápida e mais favorável para esses recursos.

Somando-se a isso o fato de que o índice DXY tem apresentado menor volatilidade nas últimas semanas, o potencial adicional de valorização do real parece mais limitado em comparação ao observado ao longo do ano passado. Isso não significa que a moeda brasileira não possa continuar se apreciando, mas indica que, caso ocorra, o movimento tende a ser mais moderado. Ainda assim, não se pode descartar a possibilidade de já no curto prazo o dólar atingir a faixa dos R$ 4.

Evidentemente, no mercado de câmbio, variáveis inesperadas podem alterar o cenário de forma abrupta. Uma notícia relevante pode, em curto espaço de tempo, modificar significativamente as expectativas. Mantidas as condições atuais, contudo, a tendência para este ano aponta para a continuidade de um cenário de dólar mais enfraquecido, em um contexto no qual os fundamentos domésticos permanecem relativamente favoráveis à valorização do real.

Guilherme Dietze é economista e Presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP

(*) Crédito da foto: Divulgação

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