Nas últimas semanas, o país tem acompanhado uma escalada de casos de intoxicação envolvendo metanol em bebidas alcoólicas, principalmente destiladas. A crise acendeu um sinal de alerta em bares, restaurantes e, claro, no setor hoteleiro — que também precisou revisar processos e fornecedores para evitar a contaminação de hóspedes e clientes.
Como o departamento de A&B (Alimentos e Bebidas) é um importante gerador de receitas complementares para os hotéis, a queda no consumo pode afetar diretamente o faturamento dos empreendimentos.
Até 10 de outubro, foram registradas 246 notificações, com 29 casos confirmados de intoxicação por metanol e outros 217 em investigação. Seis mortes foram confirmadas no Brasil, todas no estado de São Paulo, até 11 de outubro.
São Paulo é o estado mais afetado, concentrando a maior parte dos casos e das mortes. A capital paulista se tornou o epicentro da crise, reunindo mais de 70% das ocorrências suspeitas e confirmadas. Paraná e Rio Grande do Sul também registraram casos de intoxicação.
A Polícia Civil de São Paulo localizou, nesta sexta-feira, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, uma fábrica clandestina suspeita de produzir as bebidas alcoólicas que causaram a morte de duas pessoas por intoxicação com metanol. De acordo com as investigações, a operação ilegal comprava etanol diretamente em postos de combustível. O produto estaria adulterado com metanol, substância altamente tóxica e responsável pelos casos de contaminação. Esse combustível era utilizado na mistura de bebidas destiladas, como vodca.
O impacto da crise do metanol já começa a se refletir nos indicadores de consumo. Segundo dados do ICVA (Índice Cielo do Varejo Ampliado), o faturamento do setor de bares na cidade de São Paulo caiu 12,9% entre os dias 29 de setembro e 5 de outubro, em comparação com o mesmo período de 2024.
Uma pesquisa da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), publicada em 7 de outubro, mostra que metade dos bares de São Paulo teve queda no faturamento. De forma geral, o resultado foi positivo: 74% dos negócios consultados mantiveram as receitas estáveis, enquanto 26% apresentaram recuo.

Impacto no setor hoteleiro
A preocupação com possíveis intoxicações chegou à hotelaria. O consumo de bebidas alcoólicas é um componente relevante na receita de A&B, além de muitos empreendimentos receberem visitantes externos em seus espaços gastronômicos diariamente.
“Houve queda no consumo de bebidas destiladas, mas, em relação aos hóspedes brasileiros, entre estrangeiros o impacto foi menor. Temos recomendado aos nossos sindicatos que orientem seus associados e a base em geral a destruir as garrafas vazias. Outros sindicatos estão criando certificados e declarações de procedência dos destilados, reforçando a necessidade de comprar apenas de fornecedores conhecidos e de promover campanhas internas de esclarecimento junto à clientela”, afirma Alexandre Sampaio, presidente da FBHA (Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação).
A ABIH-SP (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis de São Paulo) e a Abrasel lançaram o Guia de Orientação contra Bebidas Adulteradas, documento prático que sistematiza procedimentos para prevenir, identificar e comunicar casos suspeitos em toda a cadeia de A&B da hotelaria e da gastronomia. O objetivo é proteger vidas, fortalecer o compliance dos negócios e reduzir riscos operacionais e reputacionais.
O guia destaca a Regra nº 1 – Onde comprar: adquirir apenas de fornecedores homologados, exigir nota fiscal (prova de origem e rastreabilidade), desconfiar de preços muito baixos e evitar vendas informais ou fora de rota.
O checklist de embalagem orienta a checar a tampa (fechada, sem amassos), o gargalo (sem folgas), o rótulo (impressão nítida), o conteúdo (cor uniforme e límpido) e a qualidade de impressão. No caso de produtos importados, deve-se verificar o selo do IPI em papel-moeda, com relevo e holografia. Sinais como tampa amassada, rótulo de baixa qualidade, lacre violado, líquido turvo ou informações inconsistentes sobre lote e validade são alertas de possível fraude.
A iniciativa da Abrasel, com apoio da ABIH-SP, incentiva que as equipes de Compras, A&B, Bares, Recebimento e Almoxarifado adotem o guia nas rotinas de recebimento, armazenagem e conferência, além de afixar a cartilha em áreas operacionais e registrar evidências de checagem (como fotos e registros). Assim, os estabelecimentos reforçam o dever de cuidado, qualificam a prestação de serviço e colaboram no enfrentamento de quadrilhas que atentam contra a saúde pública.

O que os hotéis estão fazendo
Jeferson Munhoz, sócio-proprietário da HotelCare, explica que a administradora solicitou que todos os hotéis de sua base visitem seus fornecedores e realizem auditorias em cada um deles. “Assim, conseguimos garantir que essas empresas estão cumprindo os padrões e verificamos os rótulos, a origem dos produtos e quem são os compradores. Temos de tomar todo o cuidado possível.”
Na Trul Hotéis, André Bekerman, diretor-geral, afirma que a operadora tem trabalhado de forma rigorosa no controle de procedência dos produtos servidos em suas unidades. O executivo explica que todos os empreendimentos seguem um protocolo de compras que prioriza fornecedores certificados, com rastreabilidade total e selos de conformidade. “Essa é uma prática que não apenas evita riscos, mas reforça a confiança dos hóspedes na marca e em todo o ecossistema hoteleiro”, reforça.
Vale lembrar que a crise do metanol não se limita a questões sanitárias, podendo afetar também a reputação dos empreendimentos e destinos turísticos, com impacto em todos os elos da cadeia produtiva. “Quando um turista perde a confiança na segurança de um destino, todos nós — hotéis, bares, restaurantes e até órgãos públicos — somos impactados. Por isso, é fundamental que a hotelaria seja protagonista no combate a esse tipo de problema, atuando com transparência, controle e comunicação responsável”, destaca Bekerman.
(*) Crédito da capa: Freepik
(**) Crédito das fotos: Divulgação














