sexta-feira, 17/abril
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Silas Grecco: o valor do invisível (parte II)

Invisível X Invisibilidade

Existe uma diferença entre um trabalho possuir a natureza invisível e ser invisibilizado. A produção de um grande festival de música em São Paulo foi flagrada, em 2023, submetendo trabalhadores a condições análogas à escravidão. Invisibilizar é não querer ver ou aceitar a importância, ou mesmo valorizar adequadamente determinadas operações, pessoas e funções em nossa sociedade. O resultado disso são profissões e habilidades sendo sucateadas, ao passo que também não podem desaparecer com elas por completo, por serem extremamente necessárias.

Barack Obama, em seu documentário intitulado Trabalho (disponível na Netflix), entrevista Natarajan Chandrasekaran, presidente do Conselho do grupo Tata (que fundou a Taj Hotels). Nessa entrevista, eles conversam sobre profissões como cuidadores domiciliares, ensino, prestação de serviços em geral, profissionais com habilidades e funções muito importantes que são discutidas ao longo da série e que dificilmente serão automatizadas, mas cujos salários, benefícios e condições estão muito defasadas se comparadas com o desenvolvimento econômico da sociedade global. E Chandra diz que não se mede o crescimento econômico somente pelo crescimento do PIB e que, se não solucionarmos esse olhar para o desenvolvimento e valorização dessas profissões, teremos um desastre a longo prazo.

Certa vez, um garçom (que aqui darei o nome de Júlio) do room service da madrugada veio me contar sobre uma situação bastante inusitada. No início do seu turno, uma hóspede deixou seu pedido de café da manhã pendurado na maçaneta de seu apartamento (um serviço comum em hotéis de alto padrão). Ao ler o pedido, Júlio viu que a hóspede solicitava um chá que não estava disponível, mas ele não queria desapontá-la pela manhã levando outra opção. Então, pediu para sua gerência autorização para tentar ir comprar, pois conhecia um mercado 24hs que poderia ter o chá, mas sua gerência o proibiu, dando uma série de desculpas. Júlio resolveu ir mesmo assim durante seu intervalo de descanso, pois estava com sua moto e, por conta da chuva forte que estava fazendo na cidade, levaria uns 20 minutos para ir e mais 20 para voltar, aproximadamente. Chegou ao mercado e encontrou o chá, mas seu cartão não passava! Então ele ofereceu seu celular como garantia de que voltaria pela manhã para pagar e poder levar o chá e o mercado autorizou. Júlio voltou para o Hotel, o serviço foi feito para a cliente normalmente. Nem ela, nem mais ninguém ficou sabendo de toda essa aventura. Ele pagou pelo chá e recuperou o celular.

Esse profissional demonstra uma das principais habilidades do futuro, segundo pesquisas como a McKinsey e Linkedin: adaptabilidade.Uma pesquisa de 2024 da Human Workplace Index mostrou que 30% dos colaboradores entrevistados se sentem invisibilizados no trabalho. Além dos sentimentos de invisibilidade, há também certas “habilidades invisíveis” que passam despercebidas no local de trabalho. Os trabalhadores colocaram a empatia e a compaixão no topo da lista (27,4%), seguidas por um senso de curiosidade (19,8%) e habilidades de escuta/inteligência emocional (15,4%).

Silas Grecco - Interna
Profissionais essenciais seguem sendo invisibilizados

Um levantamento de 2024 da Global State of the Skills Economy Report apontou que, em diversas partes do mundo, a demanda por habilidades humanas cresce mais que a demanda por habilidades digitais. Na Europa, estamos falando de três vezes mais mais e, na América Latina, as human skills cresceram 23,66% se comparadas com as digital skills (14,49%). Na parte final semana que vem, falaremos de alguns caminhos possíveis aplicáveis nas nossas organizações.

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Profissional de capacitação e facilitação em hospitalidade e CX, com 15 anos de experiência de mercado de alto padrão, Silas Grecco é coautor do 1º livro de CX no Brasil. Silas foi de mordomo a gerente global de CX e treinamento do grupo Fasano, onde trabalhou por uma década. Hoje acredita que a hospitalidade é a síntese máxima das habilidades humanas do profissional do futuro. Já levou esses saberes para clientes como Chanel, Cris Barros, Accor, Alelo, Hospital Oswald Cruz, Hotel Fuso e Hotel Casana.

(*) Crédito da foto de capa: divulgação/Silas Grecco

(**) Crédito da foto: Divulgação

 

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