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Em um cenário marcado pela alta rotatividade e pela crescente demanda por qualificação na hotelaria, o Senac Campinas aposta na aprendizagem técnica em Hospedagem como estratégia para formar profissionais mais preparados e ampliar a retenção de mão de obra no setor.
A iniciativa parte da premissa de que a combinação entre formação estruturada e vivência prática desde o início da carreira contribui para criar vínculos mais sólidos com a atividade, reduzindo o turnover e elevando a qualidade dos serviços nos meios de hospedagem.
Em entrevista ao Hotelier News, Juliana Reis, coordenadora da área de Hospitalidade e Turismo da unidade, afirma que o programa passou por recente reformulação, incorporando também carga horária a distância. A mudança amplia as possibilidades de aprendizagem e torna o percurso mais flexível. Nesse modelo, os alunos iniciam com uma etapa de integração no Senac Campinas e, posteriormente, dividem a semana entre aulas presenciais e remotas e a atuação prática em empreendimentos hoteleiros, em uma dinâmica alinhada às demandas do mercado.
A proposta prevê ainda um plano de atividades desenvolvido de forma conjunta entre instituição e empresa, considerando as funções exercidas, os objetivos pedagógicos e o estágio de desenvolvimento do aprendiz. “O programa de Aprendizagem Técnica em Hospedagem do Senac Campinas é estruturado para integrar formação no Senac e no hotel de forma contínua, equilibrada e atualizada”, afirma Juliana. Ao longo da jornada, o estudante pode atuar em áreas como recepção, governança, eventos e recreação, garantindo uma formação abrangente.

Entre os principais diferenciais está a combinação entre ensino técnico estruturado e prática desde o início, permitindo o desenvolvimento de competências diretamente conectadas à realidade do setor. A iniciativa também amplia o acesso à qualificação ao possibilitar a contratação de jovens entre 16 e 24 anos, em ambiente supervisionado e adequado à faixa etária.
Outro ponto destacado é a visão de carreira proporcionada pela formação. Ainda que o ingresso ocorra em funções operacionais, o contato com diferentes áreas amplia a compreensão da hotelaria e abre caminhos para futuras movimentações internas. “Esse modelo possibilita que o jovem conheça, na prática, a dinâmica do setor hoteleiro, desenvolvendo competências técnicas e comportamentais alinhadas às demandas reais do mercado”, ressalta a coordenadora.
Além disso, o acompanhamento próximo dos docentes do Senac, em parceria com tutores nos hotéis, garante o monitoramento contínuo do desempenho dos aprendizes, tanto no aspecto técnico quanto comportamental. Essa articulação entre instituição, empresa e estudante contribui para uma formação mais completa, fortalecendo a inserção dos jovens no mercado de trabalho.
A iniciativa
O conteúdo da Aprendizagem Técnica em Hospedagem do Senac Campinas vem sendo estruturado para acompanhar as transformações recentes da hotelaria, especialmente no que se refere à digitalização e ao foco na experiência do cliente. Segundo Thais Garcia Oliveira, docente da área, a proposta busca formar profissionais aptos a atuar em um setor cada vez mais dinâmico, tecnológico e orientado à jornada do hóspede.

No campo da digitalização, o curso incorpora ferramentas e rotinas reais do mercado, com parcerias envolvendo sistemas de gestão hoteleira e plataformas digitais voltadas à simulação de estratégias, como o gerenciamento de preços. Essas soluções permitem que os estudantes desenvolvam cenários práticos e utilizem tecnologias amplamente adotadas pelo setor, aproximando o ambiente de aprendizagem da realidade operacional.
O modelo híbrido, que combina atividades presenciais e a distância, também contribui para essa atualização. Conteúdos mais conceituais e tecnológicos são trabalhados no ambiente digital — incluindo o uso de planilhas e aplicativos corporativos —, enquanto os encontros presenciais são direcionados a simulações e à resolução de situações reais da operação, reforçando a aplicação prática do conhecimento.
No que diz respeito à experiência do cliente, há direcionamento para o desenvolvimento de competências ligadas ao atendimento e à personalização. Com apoio da vivência nos hotéis, os alunos são estimulados a compreender o perfil do hóspede, antecipar necessidades e criar experiências memoráveis. Segundo Thais, esse modelo fortalece a conexão entre teoria e prática e se consolida como diferencial na formação profissional.
Impacto no setor
Para Marcos Brocchi, diretor de Compliance da Vitória Hotéis, o modelo integra teoria e prática de forma complementar, permitindo que o aprendiz desenvolva não apenas habilidades operacionais, mas também postura profissional. “Este profissional se torna mais preparado e capacitado para enfrentar os desafios que a hotelaria requer nas rotinas diárias de uma organização do setor”, afirma.

Os resultados aparecem na retenção de talentos. Segundo o executivo, entre 70% e 80% dos aprendizes que concluem o programa são efetivados, reforçando o papel da iniciativa como porta de entrada qualificada para o mercado. Ele compara o projeto, guardadas as proporções, a um programa de trainee, funcionando como fonte estruturada de formação de mão de obra.
Apesar dos avanços, Brocchi aponta desafios na integração desses jovens à rotina operacional. Entre os principais fatores estão a pouca idade e a ausência de experiências prévias, o que dificulta a compreensão inicial da dinâmica do setor. Esse distanciamento exige acompanhamento próximo e um processo contínuo de adaptação.
Ainda assim, o executivo ressalta que iniciativas desse tipo são fundamentais para enfrentar a escassez de profissionais e elevar o nível dos serviços. Para ele, a aproximação entre instituições de ensino e empresas contribui diretamente para a evolução da hotelaria. “Temos, agora, que atrair as pessoas para o setor e não aguardar que uma fila se dê nas portas das instituições”, afirma.
Na avaliação de Adriana Zeolo Bevilacqua, analista de Recursos Humanos PI da Royal Palm Hotels & Resorts, o modelo vai além do ensino operacional ao incorporar competências comportamentais ligadas ao atendimento, comprometimento e excelência em serviços. “A aprendizagem técnica preenche essa necessidade ao oferecer uma formação estruturada, que capacita o jovem enquanto ele vivencia, na prática, o dia a dia das operações hoteleiras”, diz.
Na prática, a presença de aprendizes contribui para a atração de novos talentos, especialmente entre jovens que ainda não conhecem as possibilidades de carreira no setor. Com base teórica já desenvolvida, esses profissionais chegam mais preparados, o que pode elevar o padrão de serviço e reforçar o foco na experiência do cliente. Além disso, o modelo permite que os hotéis formem profissionais alinhados à sua cultura, ampliando as chances de retenção.
Outro benefício é a possibilidade de o aprendiz transitar por diferentes áreas ao longo do contrato, ampliando sua visão sobre a operação e identificando afinidades. Para as empresas, isso resulta em profissionais mais versáteis e com maior potencial de permanência, ao mesmo tempo em que contribui para consolidar uma base mais qualificada no setor.

Em relação às competências mais valorizadas, Adriana destaca a combinação entre habilidades técnicas e comportamentais. Entre as soft skills, sobressaem adaptabilidade, resiliência e capacidade de lidar com pressão e resolver conflitos — características essenciais em um ambiente dinâmico e orientado à satisfação do cliente.
A executiva ressalta ainda que a aprendizagem já faz parte da cultura do grupo há anos e também desempenha papel relevante na promoção da diversidade e inclusão. Com a ampliação do modelo para áreas operacionais, os jovens passaram a ter contato direto com a rotina dos hotéis, fortalecendo sua formação. O processo é apoiado por iniciativas conjuntas com o Senac Campinas, como workshops para tutores e acompanhamento mensal, garantindo a integração dos aprendizes e o alinhamento entre empresa e instituição.
(*) Crédito das fotos: Divulgação/Senac Campinas











