A Reforma Tributária começa a sair do campo regulatório para entrar, de forma cada vez mais concreta, na rotina das empresas de turismo e hotelaria. Diante de mudanças que podem repercutir sobre custos, processos, gestão e relações comerciais, a Atlantica Hospitality International colocou o tema no centro da agenda do setor hoje (20), em evento realizado em São Paulo. A companhia reuniu executivos, especialistas e representantes do trade no Radisson Paulista para o encontro Reforma Tributária: O Trade em Debate — os desafios da reforma no turismo.
A discussão parte de uma questão que atravessa diferentes elos da cadeia: como transformar as novas regras tributárias em decisões práticas dentro das empresas? Com a reforma avançando em sua implementação, o desafio deixa de estar restrito às áreas fiscal e jurídica e passa a envolver aspectos da operação e da gestão dos negócios.
A própria Atlantica foi um dos pontos de partida para o debate. A programação começou com o case de Reforma da administradora multimarcas, apresentação sobre como a companhia estruturou internamente sua preparação para o novo cenário tributário.
O case foi apresentado por Guilherme Martini, COO e CMO da Atlantica, e Flavia Buiati, CFO e CLO da rede. A proposta é compartilhar a experiência da empresa e, a partir dela, ampliar a discussão sobre os desafios que a implementação da Reforma Tributária traz para o turismo e a hotelaria.
“Nossa ideia com esse evento é que vocês saiam daqui mais preocupados do que entraram”, brincou Martini. “Debater a Reforma Tributária é debater o futuro do negócio, pois ela muda a forma como compramos e vendemos”, acrescentou o CMO.
Flavia pontuou que é necessária a conscientização que não se trata apenas de uma mudança de cobrança de imposto. “A Reforma Tributária não deve ser um debate da empresa apenas, mas do setor como um todo”, destacou.
Atlantica se prepara há mais de dois anos
Durante a apresentação, a Flavia mostrou que o projeto de preparação para a Reforma Tributária começou há mais de dois anos, reunindo estudos, debates, construção de cenários e preparação interna. A companhia estruturou um comitê com representatividade das diferentes áreas da empresa e adotou um modelo de acompanhamento transversal, com um “embaixador da Reforma” em cada frente.
O trabalho foi organizado em etapas. Em 2023, o foco esteve no acompanhamento político e em uma imersão restrita aos times Fiscal e Financeiro para o diagnóstico inicial. Em 2024, a atenção passou à dimensão técnica, incluindo atuação junto às associações para garantir menor impacto ao setor. Já em 2025, com foco estratégico, foi criado o PMO da Reforma Tributária, gerido por um comitê multidisciplinar.
Em 2026, a preparação entra no campo operacional, com desenho da solução e aplicação, adequação de sistemas e processos, testes e pilotos, além de atuação junto ao trade. Para 2027, a companhia prevê uma etapa voltada à implantação, com go live, garantia dos processos, auditoria e acompanhamento.
A metodologia adotada inclui ainda o mapeamento detalhado das “dores” e vulnerabilidades por departamento frentes de trabalho quinzenais para acompanhamento de KPIs e eventuais ajustes de rota.

Impacto vai além da alíquota
Um dos pontos destacados pela executiva é que os efeitos da Reforma Tributária não estarão concentrados apenas nas alíquotas. A avaliação apresentada é de que os impactos chegarão também à operação e às margens dos negócios, exigindo que as empresas antecipem cenários e construam soluções.
Essa transformação tende a atravessar toda a cadeia do turismo. Entre os agentes citados na apresentação estão hóspedes e passageiros; OTAs, brokers e operadoras; agências e clubes de férias; gestores de eventos e de viagens; associações e entidades do trade; e investidores.
A Atlantica avalia que a Reforma cria uma nova equação envolvendo valor, preço, margem, processos, relacionamento e rentabilidade. Assim, a adaptação deixa de ser uma discussão exclusivamente tributária para assumir uma dimensão estratégica, com potenciais reflexos sobre diferentes relações comerciais dentro do turismo.
A leitura apresentada pela companhia é de que o setor será impactado “de ponta a ponta”. Por isso, além de compreender as novas regras, empresas e demais agentes da cadeia terão de avaliar como elas interferem em seus modelos operacionais e nas relações entre os diferentes participantes do mercado.
Complexidade e transição estão entre os desafios
A experiência acumulada ao longo do projeto também levou a Atlantica a identificar desafios que vão além da interpretação das novas regras. Entre os principais aprendizados apontados pela companhia estão a complexidade externa da reforma, o desafio de alinhamento entre diferentes áreas, a necessidade de mudança de modelo, o envolvimento da alta liderança nas decisões e os custos associados à transição.
Na avaliação apresentada, o tema é simultaneamente técnico, processual, executivo e cultural, o que amplia a necessidade de coordenação dentro das empresas. O alinhamento também se torna mais complexo à medida que diferentes áreas precisam compreender os impactos e trabalhar de forma integrada durante a preparação.
Outro aprendizado é que mudanças consideradas críticas exigem envolvimento direto do C-Level, enquanto o período de transição demanda preparação e orçamento para investimentos em sistemas, tecnologia e desenvolvimento.
Essa imagem traz um dado mais forte para a matéria, porque dimensiona o possível impacto da reforma sobre a margem. Eu acrescentaria um novo trecho:
Margem pode sentir impacto além dos impostos
A Atlantica também chamou atenção para os possíveis efeitos da Reforma Tributária sobre as margens dos negócios. Segundo a apresentação, a pressão não virá apenas da nova carga e das regras tributárias, mas também das adaptações necessárias em operação, tecnologia e pessoas.
Na operação, a mudança exigirá novos processos e controles. Na frente tecnológica, a companhia prevê investimentos em automação, sistemas e integrações, enquanto a área de pessoas deverá absorver impactos relacionados à capacitação, treinamento e gestão da mudança.
Embora os créditos tributários possam ajudar a equilibrar parte desse efeito, a avaliação apresentada é de que eles não eliminam toda a pressão sobre a margem. De acordo com estudo da EY citado pela Atlantica, o impacto efetivo pode representar aumento potencial de 86% da alíquota efetiva, considerando alíquota-padrão de 26,5% e o creditamento médio da indústria.
Nesse cenário, a alíquota líquida (NET) passaria dos atuais 4,3% para 8%, o que, segundo a simulação apresentada, poderia representar perda de 7% da margem GOP. Os números reforçam a leitura de que a Reforma Tributária não deve ser tratada apenas como uma mudança fiscal, mas como uma variável com potencial de interferir diretamente na rentabilidade e na estrutura de custos dos hotéis.
(*) Crédito das fotos: Nayara Matteis/Hotelier News















