Com a COP30 (30ª Conferência da ONU para o Clima) marcada para acontecer entre 10 e 21 de novembro, em Belém, os impactos na hotelaria já são sentidos. Mesmo a oito meses do encontro, especulação e escassez de acomodações rondam o destino e colocam os preços do setor no alto, afetando população local e os visitantes que se preparam para o evento. As informações são do Valor Econômico.
A previsão da organização da COP30 é que a capital paraense, que conta com 1,3 milhão de habitantes, receba até 50 mil visitantes durante o pico da conferência. A demanda, apesar de positiva, fez com que plataformas como Booking.com e Airbnb registrassem anúncios com valores inéditos.
De acordo com a reportagem, alguns imóveis em bairros nobres de Belém disponíveis para locação de curta temporada chegam a custar R$ 2 milhões para os 11 dias do encontro. Outros meios de hospedagem mais modestos, como lofts e apartamentos para duas pessoas, ultrapassam R$ 80 mil e R$ 100 mil, respectivamente, para o mesmo período.
Segundo a ABIH-PA (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Pará), a média de diárias para o período deve atingir US$ 500 (cerca de R$ 2,9 mil), enquanto a tarifa usual na cidade — antes do evento — ficava em torno de US$ 80. Dois hotéis próximos ao Hangar Centro de Convenções, local dos principais eventos oficiais, apresentam altas que variam de 20 a 60 vezes acima das diárias praticadas em março.
Visão do trade
Representantes do setor, como Tony Santiago, presidente da ABIH-PA, e Fernando Soares, assessor jurídico do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares, atribuem os altos valores às exigências operacionais e à lógica de mercado em um cenário de capacidade limitada.
Enquanto proprietários de imóveis preferem locações de curta temporada e reajustam novos contratos para aproveitar a demanda, a crítica recai sobre a especulação no mercado informal, que tem distorcido a percepção dos preços.
“Não acho caro um hotel três estrelas em uma das principais avenidas de Belém cobrar uma diária de US$ 200 [R$ 1,16 mil]. A média de diárias na cidade [para a COP] está em US$ 500 [R$ 2,9 mil], o que se deve às exigências das delegações, como internet de alta qualidade, socorristas 24 horas, técnicos em elevadores e informática e padrões rigorosos para alimentação e bebidas”, afirma Santiago.
Por outra ótica, Soares comenta que faltou, da parte das autoridades competentes, analisar a relação entre a disponibilidade baixa de leitos da capital paraense e a alta procura neste período. Sendo assim, o crescimento dos preços é visto como “movimento natural do mercado”.
“Deveriam ter pensado em regulamentação antes. Agora não há como intervir, pois estamos falando de um setor privado, onde cada estabelecimento define seus valores com base nos custos operacionais”, complementa.
Ações a curto prazo
Para tentar remediar a pressão em torno da oferta hoteleira para a COP30, governo do estado e setor hoteleiro do Pará decidiram ampliar a oferta de acomodações. Entre as medidas estipuladas, estão utilizar navios de cruzeiro como hotéis flutuantes, reformar 17 escolas para funcionarem como hostels e construção da Vila COP30, com 405 suítes destinadas a chefes de Estado e delegações. No pós-evento, o equipamento será convertido em um centro administrativo.
Além disso, novas parcerias com plataformas de aluguel, como o próprio Airbnb, e a construção de quatro empreendimentos internacionais devem expandir a capacidade hoteleira. Hoje, Belém dispõe de 18 mil leitos, mas atender à demanda do encontro só será possível dobrando este número.
Com linha de crédito de R$ 5 bilhões via BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), obras de infraestrutura também serão realizadas em Belém ao longo de 2025. Além disso, uma plataforma oficial de gerenciamento de acomodações será implementada, visando oferecer opções mais justas e diversificadas em termos de hospedagem.
A Secretaria Extraordinária para a COP30, vinculada à Casa Civil, afirma que está monitorando os preços abusivos por meio de ação conjunta entre os governos federal, estadual e municipal, além de órgãos de defesa do consumidor.
(*) Crédito da foto: Freepik












