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Escala 4×3 já é tendência e resultados são positivos

A discussão sobre a redução da jornada de trabalho volta à pauta em 2025, impulsionada pela PEC (Proposta de Emenda à Constituição) protocolada pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que busca instituir a escala 4×3 — quatro dias de trabalho e três de descanso. O projeto, desenvolvido em parceria com o vereador Rick Azevedo (PSOL-RJ), criador do Movimento VAT (Vida Além do Trabalho), será incorporado a outra PEC já em tramitação no Congresso.

Embora amplamente debatida e já implementada em alguns países, a semana reduzida foi testada no Brasil em 2024 por 19 empresas em um projeto-piloto. Os resultados foram positivos: 71,5% das companhias registraram aumento na produtividade, 60,3% notaram maior engajamento dos funcionários e 65,5% perceberam um crescimento no comprometimento com o trabalho, aponta a Folha de São Paulo.

Cabe lembrar que as discussões sobre uma eventual redução na jornada de trabalho também já estão acontecendo na hotelaria. No ano passado, o Hotelier News conversou com alguns especialistas do setor para entender os impactos do possível fim da jornada 6×1 (seis dias de trabalho e um de descanso).

Orlando Souza
Souza ponderou sobre mudanças na escala

À época, Orlando Souza, presidente executivo do FOHB (Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil), por exemplo, disse que a entidade segue acompanhando as discussões, mas que uma mudança como essa não pode ser feita de forma intempestiva, sem estudos que embasem a decisão.

Apesar dos benefícios, a adoção do modelo ainda apresenta desafios, especialmente em setores que exigem presença contínua, como a saúde, ou que dependem de fatores externos, como o jurídico, onde prazos e audiências variam em duração.

Expectativas e impactos no mercado

A deputada Erika afirma que aguardou o momento adequado para protocolar a PEC, levando em conta o novo cenário político e as eleições para presidência da Câmara e do Senado. Azevedo, por sua vez, reforça a demanda pela mudança, apoiado por um abaixo-assinado online que já conta com quase 3 milhões de assinaturas.

Renata Rivetti, fundadora da Reconnect Happiness at Work, que participou do projeto-piloto como orientadora, destaca que, embora os resultados sejam promissores, a implementação da escala 4×3 precisa ser planejada com testes e suporte especializado. “Para atividades intelectuais e de conhecimento, é possível reduzir a jornada sem comprometer os resultados. Mas é essencial entender os impactos em cada setor antes de aplicar a mudança”, explica.

Dados do projeto-piloto

O projeto teve início em setembro de 2023 com 21 empresas, mas duas desistiram antes da fase operacional — uma do setor de saúde e outra do setor comercial, que enfrentou dificuldades após as chuvas de 2024 no Rio Grande do Sul.

Os resultados indicaram benefícios tanto para as empresas quanto para os funcionários:

Produtividade e engajamento

  • 71,5% das empresas registraram aumento na produtividade
  • 60,3% perceberam maior engajamento dos colaboradores
  • 65,5% notaram crescimento no comprometimento

Ritmo de trabalho

  • 48,2% perceberam aumento no ritmo de trabalho
  • 46,6% relataram estabilidade no volume de tarefas
  • 77,9% mantiveram a carga de trabalho constante

Bem-estar dos trabalhadores

  • 70,1% se sentiram mais alegres e bem-humorados
  • 55,5% relataram maior energia e vitalidade
  • 41,8% afirmaram estar mais calmos e relaxados
  • 49,2% disseram acordar mais descansados

Experiências das empresas

A Vockan, empresa de soluções tecnológicas, foi pioneira na adoção do modelo 4×3 em 2022, mantendo os salários integrais. O CEO Fabrício Oliveira afirma que a produtividade cresceu 32% após ajustes no gerenciamento do tempo, eliminação de reuniões desnecessárias e treinamento para foco.

“Entregamos mais ao estruturar um modelo eficiente. No começo, algumas áreas acharam que o impacto seria negativo, mas, acompanhando a tendência na Europa, percebemos que era uma mudança viável”, explica.

A empresa adotou um rodízio para equilibrar a nova jornada, dividindo as folgas entre sextas e segundas-feiras. Em dois anos, o quadro de funcionários mais que dobrou, saltando de 60 para 132 colaboradores, o que exigiu a mudança para um escritório maior. Uma pesquisa interna revelou que 78% dos funcionários se dizem muito felizes com o modelo.

No setor Jurídico, a adaptação foi mais complexa. O escritório Clementino e Teixeira, que participou do projeto, identificou desafios na conciliação da jornada reduzida com prazos judiciais e audiências. Ainda assim, a experiência levou a uma mudança interna: atualmente, os advogados têm pelo menos uma semana por mês com a escala reduzida.

“A flexibilidade permitiu otimizar processos internos e acelerar a implantação de novas tecnologias, como o uso de inteligência artificial na elaboração de petições. No entanto, prazos e audiências seguem sendo definidos pelo sistema judiciário, o que limita a adoção completa do modelo”, explica Soraya Clementino, sócia do escritório.

Na MOL Impacto, agência especializada em produtos de impacto social, a escala 4×3 foi implementada após uma percepção de esgotamento da equipe. “Trabalhamos com grandes varejistas, que operam sete dias por semana, então foi necessário estruturar um modelo de escala. Mas acreditamos que essa mudança é um caminho natural para o futuro do trabalho”, afirma a CEO Roberta Faria.

Perspectivas para o futuro

A adoção da escala 4×3 no Brasil ainda é um tema controverso e que exige ajustes conforme a área de atuação. No entanto, os resultados do projeto-piloto indicam que a redução da jornada pode trazer benefícios tanto para a produtividade quanto para o bem-estar dos trabalhadores.

“A resistência inicial sempre ocorre, mas ao longo da história observamos que as mudanças no mercado de trabalho são inevitáveis. A sociedade precisa estar aberta a novas formas de organização”, conclui Roberta.

Com a tramitação da PEC no Congresso e o crescente debate sobre a reestruturação do modelo de trabalho, a expectativa é que novas empresas adotem a experiência nos próximos anos, impulsionando um movimento que pode transformar a jornada de trabalho no Brasil.

(*) Crédito da foto: Reprodução/Jornal Contábil

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