Acabou agora há pouco, no canal oficial do Hotelier News no YouTube, mais uma edição do Hotel Challenge. Comandada por André Victoria, fundador da Hospitality Metrics, a live teve como foco os impactos das mudanças nas relações de trabalho e das novas exigências regulatórias nas práticas de gestão de pessoas. Nesse contexto, pautas como o fim da escala 6×1 e as atualizações da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1) são temas estratégicos e, na visão dos participantes, representam uma grande oportunidade para a hotelaria retomar sua atratividade como setor empregador.
Ao lado de Victoria na bancada do estúdio do Grupo R1, localizado no WTC Events Center, em São Paulo, estavam Marian Fermino, sócia-fundadora da JOY2B, e Miguel Nisembaum, fundador do Mapa de Talentos. Já Ana Carolina Rocha, gerente do TRYP by Wyndham Ribeirão Preto, e Daniel Battistini, gerente de Relações do Trabalho da Accor, participaram de forma online do debate, que durou cerca de uma hora e meia. Para quem perdeu a transmissão ao vivo, é possível assistir à live pelo link https://bit.ly/4u7lAEt.
Em sua fala, Ana Carolina contou sobre a experiência à frente da implementação da escala 5×2 no hotel, iniciada em outubro do ano passado. Segundo ela, dúvidas e medos fizeram parte dessa jornada, mas, à medida que os benefícios passaram a ser observados pela média gerência e pelos investidores do empreendimento, a percepção mudou rapidamente. Hoje, o cenário é de turnover baixo e melhores níveis de satisfação dos colaboradores, o que vem gerando impacto positivo nos resultados do TRYP by Wyndham Ribeirão Preto.
“O que rapidamente conseguimos perceber é que o maior bem-estar da equipe redunda em melhores resultados para o hotel. Com isso, foi muito mais fácil obter o endosso do investidor do hotel, embora ele tenha apoiado a iniciativa desde o começo”, comenta a executiva. “Claro que o aumento de custos que essa virada de chave na escala pode gerar era uma preocupação, mas as dúvidas foram se dissipando à medida que os resultados apareceram”, acrescenta.
Ana Carolina contou que um diálogo com uma das camareiras a deixou segura de que o caminho adotado estava correto. “Ela disse que, antes da implementação da nova jornada, a única folga da semana era a oportunidade de colocar as coisas em ordem na casa, além de cuidar dos filhos. Não havia tempo de descanso, portanto. Agora, ela finalmente podia contar com dois dias de pausa no trabalho”, comentou.
Segundo a gerente do TRYP by Wyndham Ribeirão Preto, o impacto da mudança se refletiu não apenas na maior retenção, mas também na atração de talentos. “O que antes era um desafio (encontrar candidatos) passou a não ser mais, muito embora hoje praticamente não tenhamos vagas em aberto”, revela. “Em paralelo, a elevação do NPS do hotel nos deu a certeza de que nosso clima organizacional estava melhor e funcionando. O colaborador entendeu que nós nos preocupamos com ele”, completa.
Marian, da JOY2B e colunista do Hotelier News (leia um seus textos aqui), acrescentou que o impacto da mudança de jornada tende a ser positivo quando bem conduzido, mas que isso, isoladamente, não basta. “Escala é apenas um fator de influência no bem-estar do colaborador. O impacto real acontece também quando outras questões caminham lado a lado com essa mudança. Ou seja, outros processos internos devem ser revistos”, afirmou. “Por exemplo, bem-estar tem que estar também no hotel, não só na folga. Você passa muito tempo trabalhando, então gerar pertencimento nesse ambiente é fundamental”, continuou.
E como fazer isso em meio a um setor com processos rígidos e, de certa maneira, antiquados, questionou Victoria aos participantes do debate. Como redesenhar esse ambiente? “Na hotelaria, assim como em outros mercados, tudo ainda é muito top down, o que é uma herança da revolução industrial. O trabalho segue um script e pronto, sem o colaborador muitas vezes ter espaço para propor algo, o que gera um engajamento menor”, disse Nisembaum, do Mapa de Talentos.

“Então, para redesenhar, é importante focar em pequenas mudanças na forma de fazer, eliminando processos que não agregam valor. É preciso construir junto com o time, em uma busca muito mais evolutiva do que propriamente revolucionária. Uma dica é não se apegar apenas às análises de desempenho dos colaboradores, que medem o que ele fez no passado. É preciso que líder e liderado olhem para o presente e o futuro para construir algo novo e gerar inovação”, recomendou.
NR-1
A segunda parte do debate ficou concentrada na NR-1, norma regulamentadora que estabelece as diretrizes gerais de saúde e segurança no trabalho no Brasil. Criada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, a regulamentação define obrigações para empresas e trabalhadores, incluindo gestão de riscos ocupacionais e medidas preventivas nos ambientes profissionais. Dentro desse novo contexto, uma frente que vem gerando muitas dúvidas nas empresas são as questões psicossociais.
“O ministério até lançou um guia, mas, até o momento, não sabemos o que de fato eles querem. Isso gerou uma confusão grande na hotelaria. Entendemos que tem relação com avaliação de riscos, como uma possível carga excessiva de trabalho, para daí criar um plano de ação para mitigar, mas não está claro”, comentou Battistini, da Accor. “Hoje, cada hotel está fazendo de um jeito na Accor, porque ainda não existe uma metodologia definida pelo Ministério. Inclusive, algumas entidades patronais entraram com ação no Judiciário para atrasar a implementação da norma enquanto ainda existirem dúvidas”, destacou.
Battistini também disse que, diante da indefinição, os hotéis da rede francesa estão, na prática, seguindo o que já estava previsto no PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos). “O recado que deixo aos hotéis? Boa sorte, caso algum fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego apareça”, brincou. “Digo isso porque, de fato, a pasta não passou para o mercado nenhum material que direcione as ações a serem implementadas. Por isso, as entidades patronais estão buscando um adiamento”, completou.
Os especialistas da bancada destacaram que a NR-1 tem um enfoque na prevenção de problemas no ambiente de trabalho, quando, na verdade, deveria também destacar a promoção do bem-estar. “É importante desmistificar que bem-estar e felicidade são permanentes. Existem, sim, altos e baixos. É normal. Agora, já passou da hora de as organizações se responsabilizarem também por essas questões no ambiente de trabalho, o que passa muito pelas lideranças, muito embora o profissional também precise assumir seu protagonismo. Na busca por melhores resultados, portanto, os dois precisam dialogar. Existe um papel coletivo”, disse Marian.
Independentemente da NR-1 e da mudança na jornada de trabalho, os participantes do Hotel Challenge foram unânimes ao afirmar que a hotelaria tem uma oportunidade nas mãos para voltar a ser atrativa para o trabalhador. “Apesar de importantes, esses dois fatores não são salvadores da pátria. Essas mudanças precisam ser acompanhadas de outras transformações. Então, por que não focar mais nas pessoas, na qualidade de vida delas e nas melhorias das áreas de back office?”, questionou Marian. “Isso pode ser um diferencial para tornar o trabalho na hotelaria atrativo novamente”, finalizou.
(*) Crédito das fotos: Hotelier News











