O Brasil recebe milhões de visitantes, movimenta bilhões de reais e leva trabalho e renda a regiões onde outras atividades têm menos alcance. Mesmo assim, quando começa a disputa pelo Planalto, o turismo volta a pedir espaço na conversa. A poucos dias do Dia Mundial do Turismo, celebrado em 27 de setembro, a questão permanece aberta. O que impede uma atividade desse tamanho de entrar, de fato, nas prioridades de quem pretende governar o país?
O turismo brasileiro faturou R$ 143,1 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 3,5% em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com dados da FecomercioSP. Para as viagens corporativas, a projeção é de crescimento de 13,8% em 2026, com gastos estimados em US$ 35,8 bilhões, segundo levantamento da GBTA (Global Business Travel Association). Em escala global, a atividade contribuiu com US$ 11,6 trilhões para o PIB mundial em 2025 e sustentou 366 milhões de empregos, aponta o WTTC (World Travel & Tourism Council).
No Brasil, o turismo movimentou cerca de R$ 240 bilhões no mesmo ano, esteve associado a uma em cada 13 vagas de trabalho e recebeu 9,3 milhões de turistas internacionais, de acordo com números da Embratur. Ainda assim, representantes da hotelaria e do setor de viagens avaliam que a atividade não ocupa no debate eleitoral um espaço equivalente ao seu peso econômico.
Os programas dos candidatos à Presidência trazem propostas com diferentes níveis de detalhamento, enquanto entidades da hotelaria, dos eventos e das atrações turísticas preparam uma agenda de demandas para o próximo Congresso. O que falta, segundo os executivos ouvidos pelo Hotelier News, é transformar essas iniciativas em uma agenda nacional capaz de atravessar ministérios e mandatos.
Em entrevista à reportagem, Fábio Godinho, conselheiro empresarial e ex-CEO da CVC, da Webjet Linhas Aéreas e do Grupo Wish, afirma que o turismo pode contribuir para enfrentar temas que já dominam o debate político, como infraestrutura, educação, segurança pública e geração de empregos. “Temos que entender que o setor é muito mais do que uma fonte de lazer para a população”, pontua.
A dificuldade de manter uma estratégia ao longo do tempo também preocupa Marcelo Linhares, cofundador e CEO da Onfly. Ele avalia que temas considerados mais urgentes, costumam concentrar as discussões eleitorais. Quando o turismo aparece, a troca de ministros e a falta de continuidade dificultam transformar propostas em resultados. “Gostaria que a próxima gestão desenvolvesse um plano para os próximos cinco ou 10 anos”, diz o executivo.

O que propõem os candidatos à Presidência
Os programas de governo apresentam diferentes níveis de detalhamento. Ronaldo Caiado (PSD) propõe uma Estratégia Nacional de Turismo 2035, com metas para chegadas internacionais, gastos de visitantes, viagens domésticas, empregos e investimentos. O plano prevê integrar a atividade a políticas de infraestrutura, segurança, cultura e meio ambiente, além de ampliar a conectividade aérea.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defende a continuidade do apoio aos destinos regionais e da promoção do Brasil no exterior. Seu programa prevê roteiros ligados à gastronomia, à arte, à cultura e ao ecoturismo, além da valorização dos parques nacionais.
Flávio Bolsonaro (PL) relaciona o crescimento do turismo à melhoria dos transportes e da segurança pública. O plano destaca investimentos em aeroportos, rodovias e ferrovias, incluindo a proposta de um Trem do Nordeste para conectar capitais da região.
Romeu Zema (Novo) propõe concessões e parcerias com o setor privado para melhorar a gestão de parques, destinos e infraestrutura turística. Seu programa inclui capacitação profissional, medidas de segurança nos destinos mais visitados e promoção orientada por inteligência de mercado.
Augusto Cury (Avante) menciona o turismo em diferentes partes do programa, sem dedicar um eixo específico à atividade. Entre as propostas estão o incentivo ao turismo rural, a criação de polos de comércio ao longo das rodovias e a promoção do Brasil em feiras internacionais. O plano de Renan Santos (Missão) não apresenta propostas para o setor.

Cinco pilares para uma política de Estado
Para Godinho, medidas isoladas têm alcance limitado quando não integram um projeto de longo prazo. O executivo defende um plano construído pelo poder público e pela iniciativa privada sobre cinco pilares: infraestrutura nos destinos, segurança nos destinos, portos e cruzeiros, conectividade aérea e promoção internacional.
As frentes precisam avançar de maneira coordenada, argumenta o executivo. Divulgar o Brasil no exterior, por exemplo, não resolve as dificuldades de acesso aos destinos. Da mesma forma, ampliar a conectividade sem investir na segurança e na infraestrutura local limita os resultados para visitantes, empresas e comunidades.
“China, Espanha e Japão trabalham com horizonte de 10 a 15 anos, revisados em ciclos de quatro. É o que permite planejar aeroporto, rota internacional e promoção de destino, decisões que não cabem dentro de uma gestão”, afirma Godinho. Para o executivo, a política de turismo precisa ser avaliada pelo retorno econômico, incluindo geração de empregos e distribuição regional da renda. “O Brasil precisa de um plano estruturado e alinhado entre iniciativa pública e privada”, reforça.
Uma pauta que atravessa o governo
O faturamento registrado no primeiro semestre de 2026 foi o maior para o período desde o início da série analisada pela FecomercioSP, em 2011. O transporte aéreo de passageiros apresentou alta de 5,7%, enquanto o alojamento cresceu 1,8%. O avanço, porém, perdeu ritmo em junho, quando a receita total subiu 2,1% na comparação anual, ante 4,2% em maio.
Para Orlando Souza, presidente executivo do FOHB (Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil), qualquer governante que pense o Brasil no médio e longo prazo precisa colocar o turismo entre as prioridades estratégicas nacionais. “O turismo não pode ser apenas uma pauta de um ministério. O setor tem que fazer parte da visão de futuro do país, assim como são vistos outros setores importantes, como o agro, por exemplo”, afirma.
Souza avalia que reduzir a atividade à imagem de “praia, bugue e paisagens” dificulta o reconhecimento de sua capacidade de gerar riqueza, empregos e renda em diferentes regiões. Para os primeiros 100 dias de um novo governo, ele defende o fortalecimento do MTur (Ministério do Turismo) e a escolha de dirigentes que compreendam a dimensão econômica de toda a cadeia.
Toni Sando, presidente da Unedestinos (União Nacional de CVBs e Entidades de Destinos) e CEO do Visite SP Convention Bureau, sustenta que o turismo precisa participar das decisões de desenvolvimento econômico e social do país, em vez de ser acionado somente para divulgar destinos.
“Precisamos superar a visão do turismo apenas como promoção. Turismo é geração de empregos, renda, arrecadação, investimentos e desenvolvimento regional. É também infraestrutura, mobilidade, aviação, comércio, cultura, meio ambiente, segurança, qualificação profissional e relações de trabalho”, pontua.
Essa abrangência exige, segundo Sando, responsabilidades compartilhadas entre órgãos públicos. “Precisamos estabelecer uma agenda transversal, com metas mensuráveis e responsabilidades compartilhadas entre os diferentes ministérios e órgãos que interferem diretamente na atividade turística além de amplo trabalho de advocacy junto aos parlamentares”, defende.

O custo da descontinuidade
A estabilidade das políticas é uma preocupação compartilhada pelos entrevistados. Godinho afirma que, desde a criação do Ministério do Turismo, há 23 anos, 22 pessoas passaram pelo comando da pasta, entre ministros titulares e interinos. Na avaliação do executivo, as mudanças frequentes prejudicam projetos que precisam de mais tempo para produzir resultados.
Linhares também relaciona a instabilidade ministerial à falta de planejamento. “Não temos planos a longo prazo, com um ministério pouco relevante nos debates”, avalia o CEO da Onfly.
Sando considera fundamental preservar as estratégias que já apresentam resultados. “Independentemente de quem esteja no governo, precisamos preservar aquilo que funciona: melhorar e garantir continuidade às políticas que apresentam resultados. Turismo, na forma mais ampla da palavra, é continuidade”, afirma. Ele cita o Plano Brasis 2025–2027, da Embratur, como exemplo de planejamento apoiado em dados, mercados prioritários, indicadores e metas.
Thiago Borges, presidente da Resorts Brasil, avalia que a descontinuidade se soma à fragmentação das decisões. Infraestrutura, conectividade aérea, segurança, formação profissional, crédito e tributação afetam a competitividade dos destinos, mas são tratados em diferentes áreas do governo.
“É uma atividade que gera emprego, movimenta investimentos, ativa cadeias produtivas e tem uma característica muito importante: distribui desenvolvimento pelos territórios”, ressalta Borges. De acordo com ele, as empresas precisam de previsibilidade para planejar investimentos de longo prazo e integrar fornecedores e trabalhadores locais aos empreendimentos.
“Os resorts mostram muito claramente essa dinâmica. Um empreendimento movimenta alimentos e bebidas, serviços, manutenção, tecnologia, transporte, eventos, produtores e inúmeros fornecedores. Quanto mais integrada estiver essa cadeia, maior será a capacidade do turismo de gerar prosperidade no território”, acrescenta o presidente da entidade.
Borges defende que a próxima gestão estabeleça uma agenda nacional de competitividade, com metas, responsáveis e indicadores. “Não se trata de produzir outro documento. O importante é transformar planejamento em uma agenda executiva, acompanhada ao longo do mandato e capaz de atravessar diferentes ministérios. Um compromisso dessa natureza sinalizaria ao mercado que o turismo está sendo tratado com horizonte de longo prazo”, diz.

A fragmentação também começa no setor
Na avaliação de Godinho, a dificuldade de negociar uma agenda comum também começa dentro do próprio turismo. Ele afirma que 48 entidades privadas têm assento no Conselho Nacional de Turismo e ressalta que cada uma representa legitimamente um elo da cadeia. O problema, segundo o executivo, é a ausência de uma instância reconhecida para reunir essas demandas e negociar prioridades em nome do conjunto.
“O turismo não tem esse topo”, explica, ao comparar sua estrutura de representação com as da indústria e do agronegócio. Godinho propõe a criação de uma confederação nacional do turismo que reúna as associações existentes, sem substituir a atuação específica de cada uma.
O executivo vê na reforma tributária um exemplo das consequências dessa falta de articulação. Segundo ele, a hotelaria negociou uma redução de 40% na alíquota, enquanto a aviação não obteve o mesmo tratamento nas principais rotas domésticas. O ex-CEO da CVC também critica as restrições ao aproveitamento de créditos por quem compra hospedagem. O passageiro que utiliza transporte aéreo e hotel na mesma viagem fica sujeito a regras construídas separadamente para cada elo da cadeia, sem uma negociação conjunta do turismo.
Alexandre Sampaio, presidente da FBHA (Federação Brasileira de Hospagem e Alimentação), também vê espaço para uma atuação mais coordenada. Para ele, a participação ainda limitada dos empresários nas conversas com o governo enfraquece a capacidade do setor de demonstrar sua relevância econômica e social.
“Todo mundo se volta para o seu trabalho e quer potencializar suas empresas, e isso faz com que tenhamos pouca percepção de valor frente ao governo. Isso pode ser mudado por meio de políticas de conscientização da força do setor”, afirma.
Sampaio defende que a aproximação com o poder público resulte também em ações para desenvolver os destinos e fortalecer os atrativos regionais. “Será a partir disso que conseguiremos mudar a história do turismo no nosso país. Nós temos que unir forças e ter consciência da nossa importância”, reforça.

Viagens corporativas acompanham a economia
A projeção da GBTA coloca o Brasil como o mercado com maior crescimento previsto entre os 15 principais mercados de viagens corporativas em 2026. Os US$ 35,8 bilhões estimados correspondem aos gastos esperados com viagens de negócios ao longo do ano. O indicador tem período e metodologia diferentes dos utilizados para calcular o faturamento semestral do turismo nacional. Por isso, os valores não devem ser somados.
Linhares explica que o desempenho das viagens de negócios acompanha o ritmo da economia. “Se o mercado está indo bem, as pessoas viajam para fazer negócios. Caso contrário, o setor também vai sofrer. Há poucas alavancas de fomento ao mercado corporativo e as viagens são os primeiros cortes das empresas”, acrescenta.
A relação entre viagens, eventos e atividade econômica também aparece nas propostas de Borges. Ele defende uma agenda conjunta para as duas áreas, que dependem de infraestrutura, conectividade e profissionais qualificados. “Não precisamos ampliar a burocracia. Precisamos reunir forças, conectar as decisões e fazer com que turismo e eventos sejam ouvidos de forma integrada na construção das políticas de desenvolvimento do país”, avalia.
As demandas levadas ao Congresso
O movimento Vamos com Eventos e Turismo, formado pela Abrape (Associação Brasileira dos Promotores de Eventos), Resorts Brasil, Adibra (Associação Brasileira de Parques e Atrações), Sindepat (Sistema Integrado de Parques e Atrações Turísticas) e FOHB, desenvolveu uma carta para apresentar aos candidatos à Câmara dos Deputados e ao Senado com oito prioridades. O documento aborda tributação e ambiente de negócios, trabalho e formalização, modernização regulatória, meia-entrada e gratuidades, acesso a crédito, segurança jurídica, turismo doméstico e conectividade, além de infraestrutura turística.

Para o início do próximo mandato, Sando propõe reunir equipes técnicas, ministérios, frentes parlamentares e representantes do setor. “Primeiro, respeitar os profissionais técnicos que atuam no dia a dia, quer seja no MTur, quer seja na Embratur, e reunir todos para unificar uma agenda nacional de turismo de médio e longo prazo, com objetivos, indicadores e metas que ultrapassem governos, ministros e partidos”, enfatiza.
Sando também defende que o crescimento seja avaliado para além do número de visitantes, considerando permanência, movimentação econômica, empregos, investimentos e distribuição dos benefícios entre os destinos. Sampaio reforça a necessidade de mobilização das empresas e entidades. “As perspectivas são positivas, porque o turismo é um fator de integração e geração de renda em muitas regiões do país”, diz.
Godinho resume a cobrança em uma pergunta que faria aos presidenciáveis. “O quanto estão dispostos a desenvolver um plano para o turismo que vá além de um mandato? Um plano que beneficie o país como um todo, e não apenas um governo?”
Para os entrevistados, a resposta terá de aparecer também fora do Ministério do Turismo. É nas decisões sobre transporte, segurança, formação profissional, tributação e investimentos que o próximo governo demonstrará se pretende tratar a atividade como uma prioridade econômica nacional.
(*) Crédito da capa: Hotelier News
(**) Crédito das fotos: Divulgação















