InícioPESSOASArtigosUm dia de Hotel Trends Conference pelos olhos de alguém de fora...
Slaviero hospitalidade
Banner Bee2Pay

Um dia de Hotel Trends Conference pelos olhos de alguém de fora do setor hoteleiro

O Hotel Trends Conference, promovido pelo Hotelier News e a Noctua Advisory em São Paulo, foi ao longo de dois dias uma agenda densa de conteúdo para o setor hoteleiro. Palestrei sobre os desafios da economia e seus reflexos na hotelaria — e aproveitei o dia para ouvir. O olhar de quem está fora da operação diária capta coisas diferentes. E a principal provocação que ficou foi esta: antes de pensar em crescer, há um mar de oportunidades internas que muitos estabelecimentos ainda não exploraram.

Um dos painéis abordou o fim do hóspede anônimo. Com o uso intensivo de inteligência artificial e a crescente disponibilidade de dados, os meios de hospedagem têm hoje a capacidade de traçar perfis detalhados de seus clientes e oferecer experiências cada vez mais personalizadas — desde pequenos gestos que surpreendem até adequações relevantes na jornada completa do hóspede. E essa jornada não começa no check-in: ela passa pela busca, pela reserva, pela estadia e pelo pós-experiência.

Investir nesse ciclo completo de relacionamento não é apenas uma questão de hospitalidade — é uma decisão de negócio com potencial de retorno expressivo, pois transforma dados em decisões mais assertivas e clientes em hóspedes recorrentes.

Outro tema que ganhou espaço foi a transformação nos hábitos de consumo e seu impacto direto na operação hoteleira. A popularização das canetas emagrecedoras está redesenhando o comportamento alimentar de uma parcela crescente dos viajantes, e o setor começa a sentir os efeitos. O alimento e bebida — historicamente tratado como um mal necessário dentro do hotel — passa a ocupar um papel estratégico, com cardápios mais saudáveis tornando-se critério de decisão de estadia.

Da mesma forma, os espaços wellness deixaram de ser um diferencial e passaram a ser uma exigência crescente, pressionando reformas e a inclusão de academias e áreas voltadas ao bem-estar. O resultado é uma reconfiguração da receita: A&B e wellness ganham participação e deixam de ser coadjuvantes na conta do hóspede.

A discussão sobre receitas complementares também trouxe reflexões pertinentes. Experiências exclusivas, pontos de venda internos e serviços adicionais — como fotografia profissional, mais adequada ao contexto de resorts — foram citados como caminhos para ampliar o ticket médio sem expansão física. Mas o debate foi além da receita extra: tocou também na redução de custos com inteligência. O exemplo da opção de não arrumação do quarto em troca de um voucher para uso de serviços internos ilustra bem essa lógica — o hóspede ganha uma experiência de valor, o hotel reduz consumo de produtos de limpeza e horas de trabalho, e ambos saem beneficiados. É onde ESG deixa de ser retórica e passa a ser gestão.

A provocação central que atravessou o evento é direta: quem vende apenas quarto está com a visão atrasada. Um meio de hospedagem é hoje muito mais do que uma cama e um café da manhã — é uma plataforma de experiências, serviços e relacionamento com potencial de geração de receita que vai muito além da diária. E boa parte dessas oportunidades já existe dentro do próprio estabelecimento, esperando por um olhar estratégico que as identifique e as monetize.

Evidentemente, não há fórmula universal. A diversidade de perfis da hotelaria brasileira — de pousadas familiares a grandes redes urbanas, de resorts de luxo a hotéis econômicos de beira de estrada — impossibilita qualquer receita padronizada. Mas a provocação vale para todos os formatos: antes de pensar em crescer fisicamente, vale perguntar se o que já existe está sendo aproveitado em seu potencial máximo.

Ajustes internos, melhoria da experiência, diversificação de receita e uso de dados para decisões mais precisas podem transformar o resultado sem que seja necessária uma única obra ou uma única nova unidade.

O Hotel Trends Conference cumpriu o que se propôs: tirar o empresário da zona de conforto, ampliar perspectivas e provocar mudanças de estratégia. Em um país tão desafiador quanto o Brasil, com juros elevados, consumidor pressionado e competição crescente, esse tipo de reflexão não é luxo — é necessidade.

—

Guilherme Dietze é economista e Presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP

(*) Crédito da foto: Divulgação

Grupo R1
Realgems amenities