Quando pensamos em uma vida saudável, alguns pilares surgem quase automaticamente: alimentação equilibrada, atividade física, sono de qualidade e momentos de descanso. Organizamos a agenda para a academia, tentamos melhorar a alimentação, acompanhamos exames e buscamos, ainda que nem sempre com sucesso, reduzir o estresse.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Edith Cowan University, na Austrália, aponta que experiências positivas durante viagens podem contribuir para retardar alguns efeitos associados ao envelhecimento, favorecendo o equilíbrio do organismo e fortalecendo sua capacidade de recuperação diante do estresse. Diante desse cenário, existe uma pergunta que talvez mereça mais espaço nessa conversa: se já entendemos a importância de cuidar do corpo e da mente de forma contínua, por que ainda deixamos a viagem para depois? A questão vai além de uma simples reflexão sobre lazer.
E a resposta costuma vir acompanhada de uma lista conhecida. Vamos viajar quando houver mais tempo. Quando o trabalho estiver mais tranquilo. Quando aquele projeto terminar. Quando as crianças crescerem. Quando sobrar dinheiro. O problema é que, para a maioria das pessoas, as prioridades nunca terminam.
A viagem acaba ocupando o lugar do “depois”. É vista como uma recompensa por meses de produtividade ou como um luxo que precisa ser justificado. Primeiro vêm as obrigações; só então, se houver espaço, vem a possibilidade de sair da rotina.
Talvez esteja na hora de inverter essa lógica. Isso não significa dizer que viajar substitui cuidados médicos, atividade física ou qualquer outro hábito fundamental para a saúde. Também não existe uma fórmula segundo a qual basta comprar uma passagem para voltar para casa mais feliz, descansado ou saudável. Viagens podem ser cansativas, envolver imprevistos e até gerar frustrações. Porém, isso não diminui o valor que uma experiência fora da rotina pode ter para a qualidade de vida.
Vivemos em uma sociedade que, durante décadas, associou sucesso à capacidade de produzir sem interrupção. Descansar, muitas vezes, era visto como uma pausa necessária para voltar a trabalhar. O lazer ficava condicionado à ideia de recompensa: primeiro o esforço, depois o direito de aproveitar a vida. Essa relação começa a mudar.
A própria discussão sobre felicidade e desempenho tem ajudado a questionar a ideia de que o bem-estar só pode existir depois do sucesso. O pesquisador Shawn Achor, conhecido por seus estudos e trabalhos sobre psicologia positiva, contribuiu para popularizar uma perspectiva diferente: estados emocionais positivos não precisam ser apenas consequência das conquistas; eles também podem favorecer aspectos importantes para a realização, como criatividade, energia, engajamento e motivação.
Transportando essa reflexão para a maneira como lidamos com o tempo livre, talvez o bem-estar não devesse ser algo reservado apenas para o fim do caminho. A forma como vivemos o percurso também importa. E é justamente nesse espaço que a viagem ganha um significado que vai além do lazer.
Para algumas pessoas, viajar pode significar uma semana de descanso à beira-mar. Para outras, uma experiência de aventura, uma imersão cultural ou a oportunidade de conhecer uma cidade desejada há anos. Para uma família, pode representar algo cada vez mais valioso: tempo de qualidade e memórias compartilhadas fora da pressão da rotina.
O que importa é reconhecer que essas experiências têm um valor que não cabe apenas na categoria “lazer”. Elas podem fortalecer vínculos. Estimular a curiosidade. Criar memórias. Renovar perspectivas. Interromper, ainda que temporariamente, automatismos que muitas vezes nos fazem atravessar semanas inteiras sem perceber como estamos vivendo.
Mais do que “fugir” da rotina, muitas pessoas procuram viajar para recuperar algo que a própria rotina tornou escasso: tempo de qualidade, descanso real e espaço mental.
Nesse sentido, a viagem pode ser entendida como um investimento contínuo em qualidade de vida. Não necessariamente uma grande viagem internacional todos os anos. Nem uma experiência inacessível ou exclusiva. Viajar pode significar conhecer uma cidade próxima, passar um fim de semana em meio à natureza ou planejar, dentro das possibilidades de cada orçamento e momento de vida, experiências que nos retirem do modo automático.
A questão não é transformar a viagem em mais uma obrigação da lista de hábitos saudáveis. Seria contraditório criar a pressão de que precisamos “viajar corretamente” para viver melhor. Se planejamos nossa alimentação, nossos exercícios e até nosso sono, talvez também devêssemos planejar momentos em que nos permitimos descobrir outros lugares e viver fora da lógica cotidiana.
Talvez o maior erro de continuar tratando a viagem como aquilo que só acontece depois que todas as prioridades forem resolvidas seja, em muitos casos, entender que as prioridades nunca terminam. Sempre haverá um novo projeto, uma nova meta, uma conta a pagar ou uma tarefa esperando pelo nosso tempo.
Viajar não é supérfluo. Não é uma solução para todos os problemas e tampouco substitui os cuidados essenciais com a saúde. Mas pode, sim, ocupar um lugar mais relevante na conversa sobre bem-estar, longevidade e qualidade de vida. Talvez como parte da forma como escolhemos viver.
—
Ana de Mattos Brito é head da Zarpo desde outubro de 2025. Engenheira com especialização em negócios e MBA em Liderança, construiu uma carreira sólida em marketing, comercial e gestão estratégica, com passagens por empresas como Iguatemi, Oetker Collection e Cidade Matarazzo. Com mais de uma década de vivência na França, soma expertise em hospitalidade, luxo e desenvolvimento corporativo. Na Zarpo, valoriza o protagonismo da equipe e o compromisso com a excelência na experiência do cliente.
(*) Crédito da foto: Divulgação/Zarpo


















