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Copa do Mundo 2026: oportunidades e desafios para o turismo brasileiro

A Copa do Mundo de 2026 é um evento inédito sob diversos aspectos. Pela primeira vez na história, 48 seleções disputarão o torneio simultaneamente em três países — Estados Unidos, Canadá e México. Com os jogos do Brasil realizados em território norte-americano, o torneio cria um fluxo relevante de saída de torcedores e coloca em perspectiva uma questão importante para o turismo e a hotelaria domésticos: quais são os reais impactos de uma Copa disputada longe de casa? A resposta, ao contrário do que se poderia imaginar, não é trivialmente positiva.

Viajar para assistir à Seleção nos Estados Unidos não é tarefa barata. Com o dólar situado em torno de R$ 5 — patamar que, embora represente uma leve valorização do real em relação ao pico recente, ainda mantém o câmbio desfavorável ao consumidor brasileiro — uma viagem completa para cidades como Los Angeles, Dallas ou Nova York ultrapassa facilmente R$ 20 mil por pessoa, considerando passagem, hospedagem e despesas locais. Soma-se a isso o encarecimento das tarifas aéreas, pressionado pela alta do querosene de aviação diante do conflito no Oriente Médio. Ainda assim, é provável que um fluxo relevante de brasileiros embarque para o exterior durante o Mundial — em geral, consumidores de renda mais elevada, menos sensíveis ao câmbio e dispostos a fazer da Copa uma experiência de viagem internacional. Para o turismo doméstico, esse movimento representa uma saída de demanda que, em outras circunstâncias, poderia se converter em viagens dentro do próprio país.

Há, contudo, um vetor de impacto menos óbvio e igualmente relevante: a ausência dos turistas argentinos. A Argentina é historicamente o principal país emissor de visitantes estrangeiros ao Brasil, respondendo por uma fatia expressiva do turismo receptivo nacional, especialmente nos estados do sul e nas praias do litoral. Esses visitantes têm perfil próprio: viajam em família, permanecem por períodos mais longos e contribuem de forma relevante para a ocupação hoteleira em destinos de lazer. Com a seleção argentina entre as favoritas ao título, a tendência é que o comportamento dos argentinos durante o período da Copa se altere de forma significativa: maior permanência no país de origem para acompanhar os jogos. Em nenhum desses cenários o Brasil aparece como destino prioritário.

Outro aspecto relevante é o impacto sobre o calendário de eventos corporativos e feiras internacionais. Historicamente, o período de realização da Copa do Mundo tende a concentrar atenções ao redor do globo, tornando menos atrativo para organizadores e participantes estrangeiros o compromisso com grandes eventos nesse intervalo. Congressos, feiras setoriais e encontros que dependem de público internacional tendem a ser reprogramados para evitar sobreposição com o Mundial, reduzindo temporariamente uma fonte importante de demanda para hotéis de negócios e centros de convenções.

Diante de um cenário aparentemente desfavorável, emerge, no entanto, uma oportunidade concreta para parcelas do setor hoteleiro doméstico — especialmente aquelas que souberem reconhecê-la e posicioná-la de forma estratégica. Nem todo brasileiro quer viver a Copa do Mundo na sala de casa, em bares ou entre multidões. Existe um segmento expressivo de viajantes — em geral casais, famílias com crianças pequenas e viajantes de faixas etárias mais maduras — que enxerga justamente no período do Mundial uma janela favorável para viajar com mais tranquilidade e a preços mais acessíveis. Destinos que normalmente registram alta ocupação durante o inverno podem surgir com mais disponibilidade e tarifas mais competitivas. Para os hotéis que souberem se posicionar, o turismo de quem prefere fugir da Copa representa um nicho real e com potencial de crescimento.

Ao se considerar o conjunto dos impactos, o balanço para a hotelaria brasileira tende a ser levemente negativo no agregado. A saída de brasileiros para o exterior, a retração do fluxo argentino e a pausa no calendário de eventos internacionais pressionam a demanda interna de forma concentrada em determinados destinos e categorias de estabelecimento. Por outro lado, o nicho do turismo doméstico voltado a quem busca tranquilidade e preços melhores representa uma compensação parcial, ainda que localizada. O que diferenciará os estabelecimentos que colherão bons resultados dos que simplesmente aguardarão o apito final é, em grande medida, a capacidade de leitura antecipada do mercado e a criatividade na criação de propostas que dialoguem com o momento — seja celebrando a Copa para quem quer vivê-la, seja oferecendo refúgio para quem prefere ignorá-la. A Copa do Mundo chega ao continente americano como o maior evento esportivo do planeta. Para o Brasil, porém, o desafio é aproveitar o entusiasmo sem desconsiderar o que uma sede distante inevitavelmente impõe.

Guilherme Dietze é economista e Presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP

(*) Crédito da foto: Divulgação

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