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Do projeto à experiência: hotéis sob o olhar feminino

Ambientes mais intuitivos, espaços sensoriais, iluminação estratégica, áreas de bem-estar integradas à jornada do hóspede e uma atenção maior à forma como diferentes perfis de viajantes — especialmente mulheres — vivenciam os hotéis. Mais do que estética, essa mudança de perspectiva tem contribuído para tornar os empreendimentos mais sensíveis às nuances da experiência contemporânea de hospitalidade. Nos últimos anos, a presença crescente de profissionais femininas na arquitetura, no design de interiores e no desenvolvimento do setor hoteleiro tem ampliado o repertório de decisões que moldam esses projetos.

Tal transformação tem ampliado as perspectivas na concepção de empreendimentos de hospitalidade. Mais do que uma questão de representatividade, essa mudança influencia decisões que impactam diretamente a funcionalidade dos ambientes e a experiência dos hóspedes.

No setor hoteleiro, onde a jornada do cliente é construída a partir de múltiplos pontos de contato — do layout dos quartos à circulação em áreas comuns —, a diversidade de visões tende a gerar soluções mais sensíveis às diferentes formas de uso do espaço. Nesse contexto, profissionais mulheres têm contribuído para uma abordagem que combina estética, funcionalidade e bem-estar, elementos cada vez mais valorizados por viajantes.

Geniane Tonoli
Geniane destaca a diversidade de perspectivas

Olhar feminino: mito ou realidade?

Na prática, como as executivas que atuam no setor — seja em grandes redes hoteleiras, seja como arquitetas que prestam serviços a essas empresas — enxergam o impacto do olhar feminino na hotelaria? Neste Dia Internacional da Mulher, o Hotelier News volta sua atenção à concepção de projetos e ao desenho de experiências a partir da perspectiva dessas profissionais.

Para Luciana Ferreira, diretora de Infraestrutura e Arquitetura da WAM Experience, o tal “olhar feminino” não é sobre estilo, mas sim sobre profundidade de leitura. Ao liderar o desenvolvimento de um novo projeto, a executiva procura pensar na experiência do hóspede, na operação e na performance do investimento.

“Integro desde o conceito, manutenção, conforto, segurança e viabilidade financeira. São detalhes que impactam diretamente a eficiência e a longevidade do ativo. Na hotelaria, essa sensibilidade estratégica na liderança faz diferença real no resultado”, avalia Luciana.

Generalizações não estão no vocabulário de Geniane Tonoli, diretora de Design & Construção para América Latina e Caribe da Wyndham Hotels & Resorts. Para a executiva, o que conta é a diversidade de perspectivas — incluindo gênero, cultura, formação e experiência profissional.

“Em alguns casos, profissionais mulheres podem trazer uma atenção maior aos detalhes e à continuidade da experiência, conectando desde a arquitetura externa até os elementos sensoriais e decorativos dos ambientes internos. Mas isso não é exclusivo de gênero; é muito mais uma questão de repertório, sensibilidade e experiência acumulada”, avalia Geniane.

Responsável pelo projeto de retrofit do Radisson Oscar Freire, Alessandra Almeida, arquiteta da Vidal & Sant’Anna Arquitetura, acredita que as profissionais femininas tendem a ser mais detalhistas — mas pondera que se trata mais de vivências do dia a dia do que de uma qualidade de gênero em si. “Existe uma sutileza de detalhes e um conforto aplicado a mais. São pequenas coisas, como uma bancada maior no banheiro, apoio para malas e iluminação no banheiro, por exemplo. No Radisson, pensamos em tudo isso”, declara.

Com projetos para redes como ICH Administração Hoteleira, Hilton e Atlantica Hospitality International no currículo, Ana Paula Lubianca é arquiteta, estrategista de experiências e head criativa da Lubianca Arquitetos. Corroborando a avaliação das outras executivas, a profissional afirma que há uma capacidade de leitura das mulheres em pontos estratégicos da concepção de projetos.

“As mulheres têm uma leitura mais emocional dos espaços e da história do local. Elas entendem as necessidades do hóspede com mais facilidade; logo, possuem um olhar mais sensível para o layout dos ambientes e para a jornada como um todo. É uma questão de empatia, segurança e pertencimento”, analisa Ana Paula.

Lara Teixeira
Para Lara, a hotelaria deve ser democrática

Estética x funcionalidade

A influência feminina nos projetos hoteleiros não se limita ao campo visual. Em muitos casos, ela se traduz em uma atenção ampliada à experiência completa do hóspede, considerando como diferentes perfis utilizam os espaços ao longo da jornada de viagem.

Essa perspectiva se reflete tanto em detalhes do design quanto em decisões estruturais do projeto. A forma como áreas sociais se conectam, a distribuição de ambientes comuns e a adaptação de quartos para múltiplos usos são aspectos que contribuem para tornar a estada mais intuitiva e confortável.

Vice-presidente de Design & Serviços Técnicos da Accor para as Américas, Lara Teixeira explica que a gigante francesa busca não fazer diferenciações de hóspedes por gênero ao desenvolver novos projetos. Para a executiva, a hotelaria é democrática e precisa atender a todos os perfis de viajantes.

“Todos os hotéis precisam ser limpos, garantir conforto e contar com ambientes que atendam a diferentes necessidades. Muitas vezes, uma mesma pessoa, dependendo da motivação da viagem, terá demandas distintas. Uma mulher de 20 anos, que viaja sozinha, por exemplo, não possui o mesmo budget e as mesmas necessidades de uma mãe que se hospeda com uma criança”, pontua Lara.

Na hotelaria, estética e funcionalidade precisam andar de mãos dadas. Afinal, um hotel pode ser bonito, mas não operar bem — perdendo valor aos olhos do cliente. Enquanto uma encanta, a outra sustenta a performance do ativo a longo prazo.

Geniane afirma que bons projetos são resultado de equipes multidisciplinares e complementares, com abordagens mais pragmáticas e outras mais sensoriais. Segundo a executiva da Wyndham, a funcionalidade é a base de qualquer empreendimento hoteleiro.

“Um hotel precisa operar bem antes de tudo — fluxos eficientes, ergonomia adequada, facilidade de manutenção e experiência operacional consistente. A estética entra como elemento de diferenciação e identidade, mas, se a funcionalidade falha, a percepção estética rapidamente perde valor. O hóspede pode se encantar no primeiro olhar, mas é a experiência prática que determina satisfação, fidelização e reputação”, analisa a diretora.

Ao liderar um projeto hoteleiro, Luciana redesenhou o back of house após acompanhar a rotina da equipe, otimizando fluxos e reduzindo o esforço operacional. A executiva também foi responsável pela inclusão de fraldários mais acessíveis e por uma iluminação mais acolhedora nas áreas comuns. Segundo a diretora da WAM Experience, essas foram decisões que nasceram da escuta e da observação prática — diferenciais que impactam a eficiência e a experiência dos hotéis.

Flexibilidade é uma das palavras-chave do repertório de Lara. De acordo com a executiva, atender a diferentes necessidades é um desafio diário do setor. Sem buscar colocar perfis de hóspedes e projetos em caixinhas, a vice-presidente da Accor acredita na criação de ambientes adaptáveis.

“Eu acho que esta é uma tendência de qualquer marca — dos hotéis econômicos aos de luxo. A flexibilidade de espaços evolui junto ao cliente. O que orientamos é que os empreendimentos estejam dentro do padrão das bandeiras do ponto de vista do design e das questões operacionais”, enfatiza Lara.

Alessandra Almeida
Alessandra foi a responsável pelo retrofit do Radisson Oscar Freire

A percepção de conforto

O design de interiores também tem sido um campo onde a influência feminina se manifesta de forma evidente. Em muitos empreendimentos, a escolha de materiais, texturas e iluminação busca criar ambientes que favoreçam não apenas a estética, mas também a sensação de acolhimento. Nesse sentido, há diferenças na percepção de conforto entre homens e mulheres? Alessandra acredita que não.

“Todos querem se hospedar em um hotel com uma boa cama e um bom chuveiro. Porém, com a evolução do comportamento do consumidor, aspectos sensoriais ganharam espaço. Em nossos projetos, aplicamos texturas, cores e iluminação — aspecto fundamental para o conforto do hóspede”, diz a arquiteta.

No projeto do Radisson Oscar Freire, os quartos ganharam automação via Alexa, fator de inovação que Alessandra considera essencial para uma melhor percepção da experiência do cliente. “O hóspede consegue apagar e acender a luz via comando de voz, por exemplo. Trata-se de um aspecto que traz a sensação de bem-estar.”

Banheiros mais funcionais, áreas dedicadas ao autocuidado e espaços que permitam diferentes formas de uso, como leitura, descanso ou trabalho, refletem uma preocupação crescente com o conforto cotidiano do hóspede. Essa abordagem se conecta com outra tendência consolidada na hotelaria contemporânea: a integração de experiências de bem-estar ao conceito geral do empreendimento.

Spas, áreas de relaxamento e ambientes voltados à reconexão com o corpo e a mente deixaram de ser apenas complementos em resorts de lazer e passaram a aparecer também em hotéis urbanos. A concepção desses espaços muitas vezes incorpora elementos sensoriais — como iluminação suave, materiais naturais e integração com áreas verdes — que reforçam a experiência de hospitalidade.

“A percepção de conforto varia muito de pessoa para pessoa. Para uma mãe, o conforto é ter um local para esquentar a comida do bebê de madrugada perto do quarto, fraldário no banheiro e brinquedoteca. Para uma mulher de negócios, é se hospedar em uma acomodação com boa iluminação no banheiro e poder usufruir de serviços de passar roupas. Depende muito do nicho e de suas particularidades”, analisa Ana Paula.

Luciana avalia que a percepção de conforto está relacionada às vivências individuais. A executiva explica que, de maneira geral, as mulheres tendem a perceber com mais sensibilidade aspectos como iluminação adequada, segurança, funcionalidade do banheiro, espelhos, apoio para malas e organização.

“Já muitos homens costumam priorizar o conforto da cama, tecnologia e praticidade. Mas o ponto central não é segmentar, e sim projetar considerando múltiplas expectativas ao mesmo tempo. Um quarto bem pensado precisa atender ao conforto físico, emocional e funcional para qualquer hóspede. E quanto mais plural o olhar de quem projeta, maior a chance de equilibrar todos esses fatores”, diz a diretora da WAM Experience.

Ana Paula Lubianca
“As mulheres têm uma leitura mais emocional dos espaços”, diz Ana Paula

Segurança como prioridade no desenho da experiência

Na experiência de hospedagem, a percepção de segurança tem peso particular para muitas mulheres e influencia diretamente a forma como um hotel é avaliado. Para viajantes solo, executivas em deslocamento corporativo ou mães que viajam com filhos, sentir-se segura não é apenas um requisito básico da operação, mas um elemento que interfere na qualidade da estada e até na decisão de retorno ao empreendimento.

Essa preocupação começa a aparecer ainda nas fases iniciais de concepção de projetos hoteleiros. Arquitetura, design de interiores e planejamento operacional precisam considerar não apenas a segurança objetiva — como sistemas de controle de acesso, câmeras e presença de equipe —, mas também a sensação de proteção transmitida pelos ambientes.

No desenho arquitetônico, por exemplo, a iluminação adequada de corredores, acessos e áreas externas é um dos fatores mais observados. Espaços mal iluminados ou com circulação pouco intuitiva podem gerar desconforto para hóspedes que se deslocam sozinhas, especialmente à noite. Por isso, projetos contemporâneos tendem a privilegiar corredores mais claros, layouts simples e áreas de circulação com maior visibilidade.

“Segurança real envolve sistemas técnicos como controle de acesso, iluminação adequada e protocolos operacionais. Já a percepção de segurança está ligada à visibilidade e à clareza da circulação. Um hotel pode ser seguro tecnicamente, mas, se não transmitir essa sensação, a experiência é afetada. No design atual, a segurança precisa ser funcional e perceptível”, considera Luciana.

Geniane afirma que um bom projeto considera essas duas frentes de segurança. Segundo a executiva da Wyndham, mais do que falar em experiência feminina, a hospitalidade precisa ser inclusiva em todos os aspectos.

“Ambientes bem iluminados, áreas comuns acolhedoras, espaços onde qualquer pessoa se sinta confortável para trabalhar, socializar ou simplesmente permanecer são cada vez mais valorizados. A ideia é criar hotéis que convidem à convivência e não apenas à permanência no quarto”, salienta.

Na Accor, os colaboradores são treinados para identificar possíveis situações de assédio ou desconforto, tanto nas áreas comuns, como lobby e restaurante, quanto dentro das próprias UHs. Lara explica que a equipe de governança, por exemplo, passa por capacitações para perceber movimentações suspeitas dentro dos quartos, como sinais de luta corporal.

“Se uma mulher chega à recepção e é apenas o homem quem responde a perguntas básicas, como nome e idade, é um sinal de alerta. Mostra quem está no controle da situação. E essas práticas valem para a hospedagem de crianças e adolescentes também. São questões com as quais a hotelaria está muito engajada atualmente”, pontua Lara.

Nos quartos, pequenos detalhes também contribuem para essa sensação de segurança. Portas com travas reforçadas, boa vedação acústica, iluminação funcional e sistemas de controle de acesso digital são elementos que, além de operacionais, transmitem tranquilidade ao hóspede.

Essa atenção também se conecta ao crescimento do número de mulheres que viajam sozinhas, seja a trabalho ou lazer. Esse perfil costuma observar aspectos que antes recebiam menos atenção nos projetos hoteleiros, como a clareza das rotas de circulação, a presença de equipe em áreas estratégicas e a facilidade de contato com a recepção.

Diversidade como ativo no desenvolvimento de projetos

À medida que o setor de hospitalidade se torna mais orientado à experiência do cliente, a diversidade de perspectivas dentro das equipes de desenvolvimento ganha relevância estratégica. Arquitetas, designers e executivas envolvidas na concepção de empreendimentos trazem contribuições que ampliam a compreensão sobre como diferentes públicos interagem com os espaços.

Nesse contexto, o olhar feminino não substitui outras visões, mas adiciona camadas importantes ao processo de criação de hotéis e resorts. Ao considerar diferentes formas de viver e ocupar os ambientes, essa abordagem contribui para projetos mais adaptáveis às transformações do comportamento do viajante contemporâneo.

Ana Paula destaca que novos conceitos de hospitalidade vêm ampliando as possibilidades do setor. “Há uma infinidade de conceitos, como wellness, turismo regenerativo, turismo do sono, entre outros, que agregaram pluralidade ao segmento — e a arquitetura acompanhou essa evolução. A questão deixa de ser apenas o projeto e passa a ser sobre construção de território e permanência”, afirma.

Quando o assunto é diversidade nas equipes de desenvolvimento, Luciana vê a mudança como positiva para ampliar o repertório do setor. “Projetos mais plurais tendem a antecipar necessidades de diferentes perfis de hóspedes, equilibrando funcionalidade e performance do ativo. Equipes diversas entregam produtos mais completos, mais aderentes ao mercado e, consequentemente, mais competitivos.”

Para incorporadores, investidores e redes hoteleiras, essa diversidade pode resultar em projetos mais alinhados às expectativas contemporâneas de hospitalidade. Hotéis deixaram de ser apenas estruturas funcionais de hospedagem e passaram a operar como ambientes de convivência, trabalho, lazer e bem-estar.

“Embora seja difícil isolar esse fator em dados objetivos, sabemos que experiências mais bem desenhadas geram melhor percepção de valor, satisfação e reputação. Isso se reflete naturalmente em avaliações, fidelização e performance financeira ao longo do tempo. Cada vez mais, investidores e desenvolvedores entendem que um projeto bem concebido desde a origem reduz custos futuros, melhora a operação e aumenta a competitividade do ativo. A diversidade de perspectivas no desenvolvimento ajuda justamente a antecipar necessidades do mercado”, acrescenta Geniane.

O hotel ideal

Diante das transformações do setor e considerando a experiência feminina dentro dos empreendimentos, como seria o hotel ideal na visão dessas profissionais?

Para Geniane, a tendência é de propriedades cada vez mais adaptáveis, capazes de acompanhar mudanças de comportamento, tecnologia e demanda. “Espaços híbridos, tecnologia integrada de forma discreta, sustentabilidade real e experiência centrada no hóspede serão pilares essenciais”, comenta.

Luciana, por sua vez, acredita que o futuro da hotelaria estará no equilíbrio entre tecnologia e fator humano. “Espaços adaptáveis que atendam lazer e trabalho, com foco em bem-estar, sustentabilidade e eficiência operacional”, finaliza.

(*) Crédito da capa: Hotelier News

(**) Crédito das fotos: Divulgação

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