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Florianópolis capta eventos. Mas não lê a própria agenda

O artigo anterior apontou um risco concreto na transição do CentroSul. A possibilidade de a cidade enfrentar uma janela sem eventos de grande porte agendados para 2027, justamente pelo impasse que travou a venda de datas futuras.

Esse risco específico avançou para uma solução. Em 25 de junho, a Prefeitura assinou um contrato emergencial que garante ao consórcio atual a prerrogativa de comercializar e fechar contratos de eventos para 2027. A execução desses eventos, no entanto, ficará a cargo da nova concessionária que assumir a partir de janeiro. Isso é uma boa notícia direta para hotéis, fornecedores e prestadores de serviço que dependem da agenda do CentroSul para projetar demanda. A cidade não deve enfrentar um vazio de grandes eventos por conta da troca de concessão.

A reportagem que trouxe essa informação deixa algumas perguntas em aberto. Qual foi o modelo de negociação definido. Como os contratos serão formalmente transferidos ao novo operador quando ele assumir.

E essa lacuna leva a uma pergunta maior, que já estava no centro deste artigo antes mesmo desse desdobramento.

O que o mercado perdeu. E o que nunca teve

Até 2017, parte do trade turístico de Florianópolis tinha acesso a um serviço de assinatura com informações estruturadas sobre a agenda futura do CentroSul: datas, perfil de público, organizadores, expectativa de participantes. O serviço era pago. Quem assinava recebia a agenda periodicamente.

Para hotéis, fornecedores e prestadores de serviço, esse tipo de dado não é detalhe operacional. É insumo de planejamento. Com ele, um hotel consegue projetar demanda com antecedência, ajustar precificação, dimensionar equipe e criar estratégia de captação direta junto aos organizadores. Um fornecedor de audiovisual sabe quando vai precisar de mais capacidade. Um restaurante sabe quando preparar estoque e reforçar mão de obra.

Em 2017, o serviço foi descontinuado. O mercado seguiu operando. Mas com menor previsibilidade.

O organizador de eventos, por sua vez, nunca teve acesso a essa base de forma estruturada. Não é algo que perdeu. É algo que nunca existiu para ele.

E é exatamente aí que o problema se aprofunda.

Sem uma visão integrada da agenda da cidade, o organizador fecha data sem saber o que mais está acontecendo no mesmo período. O conflito de datas em Florianópolis não é um fenômeno recente. É uma dor recorrente do mercado, anterior ao fim do serviço de assinatura e independente dele. Dois eventos de grande porte na mesma janela encarecem hospedagem, transporte e mão de obra especializada. A experiência do participante piora. No ciclo seguinte, o organizador considera outros destinos.

Esse mecanismo raramente é medido porque o dano não aparece no evento em que acontece. Ele aparece na edição seguinte, quando o evento não volta.

CentroSul - Artigo2_grafico

O gargalo está antes da agenda

Na reunião ampliada realizada na Câmara de Vereadores, foi resgatada a proposta de utilizar os processos de autorização e alvarás municipais como fonte de dados para uma agenda integrada de eventos.

A resposta do poder público foi honesta: esses registros chegam tarde. Muitas vezes o alvará é emitido dois ou três dias antes do evento. Isso inviabiliza o uso dessa informação para planejamento.

Mas essa resposta, embora precisa, levanta uma pergunta diferente.

Se o processo administrativo não produz informação útil para planejamento, talvez o problema não seja o uso dos dados. Talvez seja o processo que os gera.

Um alvará emitido dois dias antes do evento não serve para inteligência de mercado. Mas um sistema que registra a intenção de realização do evento com antecedência razoável, ainda que sujeito a ajustes, já permitiria uma leitura muito mais útil da agenda futura da cidade.

A questão não é abandonar os dados porque chegam tarde. É perguntar por que chegam tarde. E se é possível mudar isso.

O que uma agenda municipal tornaria possível

Florianópolis poderia estruturar uma base de informações sobre eventos a partir dos próprios processos de autorização. Não apenas os eventos do CentroSul. Eventos esportivos, shows, congressos, feiras, ativações e demais atividades que dependam de algum tipo de licença municipal.

A cidade já deu um passo nessa direção com o portal floripa.com. Mas o sistema ainda depende da iniciativa dos organizadores em registrar e do poder público em atualizar. Não alimenta automaticamente a partir dos processos administrativos da própria Prefeitura.

A distância entre o que existe e o que seria necessário não é tecnológica. É de prioridade.

CentroSul - Artigo2_grafico2

O novo contrato como oportunidade

O processo de nova concessão do CentroSul abre uma janela específica para endereçar parte desse problema. A Prefeitura já sinalizou a intenção de incluir no edital a contratação de auditoria independente e o compartilhamento periódico de informações sobre receitas, despesas, manutenção, obrigações contratuais e eventos.

Essa é uma medida necessária. E pode ser o ponto de partida para algo maior. O novo contrato poderia estabelecer que dados básicos de agenda, público estimado e tipo de evento sejam repassados à Prefeitura em prazos que permitam uso real. Não como obrigação burocrática. Como contribuição ao sistema de inteligência econômica da cidade.

O CentroSul, por sua posição e escala, tem capacidade de alimentar uma base que beneficia o trade inteiro. Não apenas quem usa o espaço diretamente. Mas isso exige que o contrato trate informação como ativo público. Não como detalhe operacional.

Inteligência como infraestrutura

O debate sobre o CentroSul tem sido lido, com razão, como uma urgência. A transição precisa ser protegida. A agenda futura precisa de solução imediata. O leilão precisa de credibilidade.
Mas existe uma camada mais profunda nessa discussão.

Uma cidade que depende de eventos para sustentar ocupação hoteleira ao longo do ano precisa enxergar sua própria agenda com clareza. Precisa saber o que está acontecendo, quando, onde e para qual perfil de público. Precisa ter essa visão com antecedência suficiente para que o mercado possa reagir.

Sem isso, cada hotel projeta no escuro. Cada fornecedor dimensiona no improviso. Cada organizador navega sem mapa.

O CentroSul é o caso mais urgente. Mas o problema é da cidade.

Não basta captar eventos. É preciso transformar eventos em inteligência.

Inteligência com presença.

Luciano Vieira atua há mais de 20 anos nos segmentos de hotelaria, revenue management, distribuição e estratégia comercial. É Gerente de Vendas e Marketing da Interclass Hotéis em Santa Catarina, Coordenador do Núcleo Setorial de Hotéis da ACIF e fundador do Luciano Vieira Analisa, plataforma dedicada à produção de análises sobre hotelaria, turismo, eventos e inteligência de mercado. Foi reconhecido com os prêmios Top de Marketing ADVB e Líderes LIDE em 2018 e 2019.

(*) Crédito da foto: Arquivo pessoal

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