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Turismo nacional mira salto na participação no PIB

O forte crescimento do turismo no Brasil abre uma janela de oportunidade para ampliar a participação do setor na economia nacional e impulsionar um ciclo de desenvolvimento sustentável. A avaliação é de Heitor Kadri, diretor do Escritório Regional da ONU Turismo para as Américas. Em entrevista ao Valor Econômico, o executivo afirma que o país reúne condições para elevar, nos próximos anos, a contribuição do turismo ao PIB (Produto Interno Bruto), atualmente estimada em 8%.

Kadri também confirmou que o Brasil será sede da 3ª Cúpula da ONU Turismo para a África e as Américas. O evento está previsto para ocorrer no Rio de Janeiro, em 2027, e reunirá representantes de governos, organismos internacionais e da iniciativa privada para discutir o futuro da atividade turística.

Desde a inauguração do escritório regional, em março do ano passado, a ONU Turismo vem ampliando sua atuação em diferentes frentes para impulsionar o turismo no Brasil e nas Américas. Entre as prioridades estão sustentabilidade, atração de investimentos, desenvolvimento de produtos turísticos integrados, facilitação da mobilidade internacional e aumento da resiliência do setor.

Sustentabilidade está entre as prioridades

Uma das principais frentes da organização é incentivar governos e empresas a adotarem práticas que tornem a atividade turística mais sustentável. As iniciativas incluem medidas de adaptação e mitigação das mudanças climáticas, proteção dos recursos naturais e do patrimônio cultural, além da redução e eliminação do uso de plásticos.

Outro foco é a busca por alternativas mais sustentáveis para o transporte aéreo. Segundo Kadri, a América Latina, especialmente o Brasil, reúne vantagens competitivas para liderar esse movimento. “Vários países da região, em especial o Brasil, têm muito a ganhar com adoção de fontes alternativas de combustíveis”, diz. “Sabemos que não é só apresentar combustíveis alternativos: temos também que preparar o setor da aviação. Estudos da ONU Turismo estimam que entre 35% e 40% dos gases de efeito estufa provêm do transporte aéreo”, reforça.

O diretor acrescenta que há planos para expandir, na América do Sul, as atividades do Centro Global de Resiliência e Gestão de Crises do Turismo, organização criada na Jamaica com apoio da ONU e dedicada à preparação, resposta e recuperação do setor diante de desastres naturais.

Além das iniciativas voltadas à sustentabilidade, a ONU Turismo trabalha em parceria com os países do Mercosul para desenvolver produtos turísticos integrados, capazes de estimular viagens por diferentes destinos da região. Um dos principais projetos é a consolidação da Rota dos Jesuítas, iniciativa que busca unificar a comunicação e estruturar um corredor turístico internacional voltado à valorização do patrimônio histórico e cultural jesuítico presente em Paraguai, Argentina, Brasil e Chile.

Outra aposta da organização é o fortalecimento do turismo gastronômico. A estratégia prevê a promoção de produtos típicos da região, como vinho, café e erva-mate, transformando-os em atrativos para visitantes.

Investimentos seguem como desafio

Apesar do cenário favorável, Kadri destaca que ampliar o volume de investimentos continua sendo um dos principais desafios para o turismo na América Latina. Segundo ele, a ONU Turismo trabalha para melhorar o ambiente de negócios da região por meio da elaboração de 15 guias destinados aos países das Américas. Os documentos reúnem informações sobre abertura de empresas, incentivos fiscais, oportunidades de investimento e regulamentações específicas de cada mercado.

A entidade também apoia a estruturação de projetos turísticos para facilitar a captação de recursos internacionais. “Estamos também apoiando bancos multilaterais na criação de linhas de crédito. Não com recursos, mas sim com metodologias e na parte de inteligência turística”, diz Kadri.

De acordo com o diretor, há expectativa de lançamento, nas próximas semanas, de uma nova linha de crédito envolvendo um banco multilateral e uma instituição financeira comercial. Paralelamente, a ONU Turismo desenvolve, em parceria com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), um programa de capacitação para formar uma rede latino-americana voltada à atração de investimentos no setor.

“Outra iniciativa em andamento, com o BID, é capacitação para formar rede latino-americana de atração de investimentos”, comenta.

Facilitação de vistos integra estratégia

Outro eixo de atuação da organização é simplificar a circulação internacional de turistas. A proposta é incentivar governos a ampliar acordos de isenção de vistos e modernizar procedimentos consulares, incluindo a adoção de vistos eletrônicos e a terceirização de centros de atendimento.

Como exemplo, Kadri cita o acordo firmado entre Brasil e China, que passou a conceder isenção recíproca de vistos para viagens de até 30 dias. Os primeiros resultados já aparecem nas estatísticas oficiais. Entre janeiro e maio, 55.260 turistas chineses desembarcaram no Brasil, alta de 43% em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados do MTur (Ministério do Turismo).

Para Kadri, o momento favorável vivido pelo turismo brasileiro pode se transformar em um importante vetor de desenvolvimento econômico, desde que seja acompanhado por políticas públicas, investimentos estruturantes e iniciativas voltadas à sustentabilidade e ao fortalecimento da competitividade internacional.

(*) Crédito da foto: Divulgação

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