InícioPESSOASArtigosHospitalidade que acolhe, gastronomia que conecta
Best Western - OTAs
Slaviero hospitalidade

Hospitalidade que acolhe, gastronomia que conecta

“Dando continuidade à série sobre mulheres que movimentam a hospitalidade por meio da gastronomia, conversamos com Thaís Abdo sobre o papel estratégico da indústria na construção da experiência gastronômica contemporânea — da operação à formação de pessoas.”

À frente do complexo Pullman São Paulo Vila Olímpia e Grand Mercure Vila Olímpia, Luciana Nakamura compartilha sua visão sobre liderança, disciplina, diversidade, família e o papel cada vez mais estratégico da gastronomia na construção da experiência hoteleira.

A coluna Hospitalidade por Meio da Gastronomia nasceu da convicção de que os melhores exemplos da hospitalidade são construídos por gente. Gente que acolhe, lidera, inspira e transforma ambientes por meio das próprias atitudes.

Foi com esse olhar que conversei com Luciana Nakamura, gerente-geral do complexo Pullman São Paulo Vila Olímpia e Grand Mercure Vila Olímpia. À frente de uma operação com mais de 300 colaboradores e cerca de 380 apartamentos, ela conduz uma estrutura de alta complexidade sem abrir mão da serenidade que desenvolveu ao longo de mais de duas décadas na hotelaria.

Ao falar sobre liderança, não recorreu a metas ou hierarquia. Preferiu uma palavra menos comum no ambiente corporativo: generosidade.

Luciana Nakamura“Liderança é compartilhar conhecimento com generosidade e manter-se permanentemente aberto ao aprendizado.” A frase traduz sua forma de gestão. Em equipes formadas por diferentes gerações, culturas e histórias de vida, Luciana acredita que liderar exige escuta, adaptação e aprendizado contínuo. O mesmo princípio orienta sua atuação em iniciativas da Accor voltadas à diversidade, à valorização das mulheres e à inclusão de pessoas em situação de vulnerabilidade.

Mãe de dois filhos, ela também fala da conciliação entre vida pessoal e carreira com simplicidade: “Tudo é prioridade no momento certo.” A disciplina aparece igualmente no autocuidado. Natação, crossfit e academia fazem parte da rotina não por estética, mas por equilíbrio. ” Quando isso passa a fazer parte da rotina, torna-se natural. Faz bem para a mente e para o corpo.” Em uma atividade marcada por jornadas intensas, cuidar de si também é uma forma de sustentar o cuidado com os outros.

Quando a conversa migrou para a Gastronomia, surgiu uma reflexão cada vez mais presente na hotelaria: durante muitos anos, alimentos e bebidas foram tratados como um departamento de apoio. Hoje, segundo Luciana, entre 20% e 30% do faturamento do complexo está ligado às operações gastronômicas, confirmando o papel estratégico que a área passou a ocupar.

Mas os números contam apenas parte dessa história. “Não vendemos apenas um produto. Entregamos o sentimento da experiência que cada pessoa vive aqui.”

Essa visão dialoga diretamente com o propósito desta coluna. A hospitalidade encontra na gastronomia uma de suas expressões mais valiosas porque é à mesa que memória, afeto e experiência se encontram. Um prato pode impressionar; uma experiência bem construída permanece.

Luciana fala sobre cozinheiros, equipes de salão e profissionais de atendimento com admiração genuína. Para ela, a gastronomia vai muito além da técnica. “É um dom proporcionar uma experiência que faça alguém lembrar de uma comida, de uma história ou de um momento especial.”

Mas transformar esse potencial em resultado ainda é um dos grandes desafios da hotelaria. Muitos moradores do entorno continuam enxergando os restaurantes dos hotéis como espaços exclusivos para hóspedes, o que limita sua capacidade de atrair um público recorrente e ampliar receitas.

A resposta encontrada pelo complexo Vila Olímpia foi construir identidades gastronômicasLuciana Nakamura próprias para cada operação. No Pullman, o Hub Food Art & Lounge aposta em uma cozinha contemporânea, especializada em grelhados, voltada ao público corporativo e urbano. No Grand Mercure, o Cipó valoriza ingredientes, técnicas e sabores brasileiros, oferecendo uma proposta conectada à cultura nacional. A estratégia é clara: fazer com que o restaurante seja um destino por si só, independentemente da hospedagem.

Esse movimento traduz uma mudança importante na hotelaria contemporânea. A gastronomia deixou de ser um serviço de apoio para ocupar um papel estratégico, capaz de fortalecer o posicionamento do empreendimento, ampliar o relacionamento com a comunidade local e gerar novas oportunidades de negócio.

Ao final da entrevista, perguntei qual considera ser hoje o maior desafio da hospitalidade por meio da gastronomia. A resposta foi imediata: surpreender. Criar experiências capazes de despertar emoções e fazer com que as pessoas queiram voltar — não apenas pela comida, mas pela lembrança que ela deixa.

Saí do encontro convencida de que Luciana Nakamura representa uma liderança que compreende profundamente a essência da hospitalidade. Uma profissional que entende que indicadores são consequência de uma cultura construída diariamente por pessoas. Porque, no fim, a hospitalidade continua sendo uma relação humana. E a gastronomia permanece como uma de suas formas mais genuínas de acolher.

—-

Reila Criscia é jornalista, especialista em gastronomia e hospitalidade, curadora de experiências e colunista da Hotelier News. Diretora da Anagrama e membro do Comitê de Jovens Empreendedores da FIESP.

(*) Crédito das fotos: divulgação

Grupo R1
Realgems amenities