Na série Mulheres à Frente da Hospitalidade Gastronômica, a executiva da Accor revela como treinamento, cultura operacional e cuidado com pessoas se tornaram pilares estratégicos para o futuro de alimentos e bebidas.
Dando continuidade à série Mulheres à Frente da Hospitalidade Gastronômica, que desenvolvemos nesta coluna para o Hotelier News, a entrevistada desta edição é Kei Nakai — profissional reconhecida nos bastidores do setor por unir repertório internacional, disciplina operacional e uma rara sensibilidade humana na gestão de pessoas.
Atuando na Accor, dentro da estrutura da CORE, Kei acompanha de perto os desafios e oportunidades da operação de alimentos e bebidas em centenas de hotéis. Sua trajetória, construída entre Brasil, Japão e Oriente Médio, oferece uma visão ampla sobre aquilo que muitas empresas ainda estão aprendendo: gastronomia não é apenas serviço complementar. É posicionamento, receita, experiência e cultura.
Quando fala sobre hospitalidade, Kei sintetiza com elegância algo profundo: independentemente do país, a gastronomia sempre comunica acolhimento — o que muda é a forma. “No fundo, todos dizem a mesma coisa: você é bem-vindo aqui.”
No Brasil, isso surge na generosidade espontânea. No Japão, no detalhe e no respeito. No Oriente Médio, na abundância e no compartilhar.
Mas sua relevância aparece ainda mais quando trata das dores reais do setor.
Em um momento em que hotéis, restaurantes e resorts enfrentam escassez de mão de obra qualificada, alta rotatividade e crescente exigência por produtividade, Kei defende que não existe solução mágica. Existe construção diária. E essa construção passa por treinamento contínuo, formação de lideranças intermediárias e valorização genuína das equipes.
Para ela, uma das respostas mais consistentes está em incorporar aprendizado à rotina operacional, e não tratá-lo como ação pontual. “Os padrões de serviço e os treinamentos precisam incorporar esse tema no dia a dia, como parte da cultura.”
Na prática, sua atuação dentro da CORE tem buscado traduzir esse pensamento em ferramentas concretas: padronização inteligente, suporte aos gerentes de A&B, disseminação de boas práticas entre unidades, estímulo à autonomia local e criação de espaços permanentes de aprendizado.
Outro ponto que Kei defende como solução contemporânea para alimentos e bebidas é rever processos com inteligência sustentável: valorizar ingredientes locais, reduzir desperdícios, melhorar o aproveitamento dos alimentos e ampliar opções plant-forward de forma natural nos cardápios.
Entre esses projetos, um merece destaque especial: a F&B Academy, iniciativa interna dedicada ao desenvolvimento dos profissionais de alimentos e bebidas da rede.
Mais do que um encontro técnico, a F&B Academy tornou-se uma plataforma de cultura, troca e reconhecimento. Reúne equipes de diferentes marcas, categorias e regiões para discutir tendências, gestão, performance, operação e experiência do cliente. Também aproxima hotéis econômicos, midscale, premium e luxo em torno de um mesmo princípio: excelência operacional nasce de conhecimento compartilhado.
Kei acompanha essa jornada desde seus primeiros formatos e fala com emoção sobre a edição de 2023, realizada no período pós-pandemia. Para ela, aquele momento representou uma virada de chave.
Depois de anos difíceis para a hotelaria, reencontrar equipes mobilizadas, ver profissionais retomando o entusiasmo e testemunhar a entrega coletiva do evento trouxe a confirmação de que o setor havia recuperado sua energia. Tive a oportunidade de participar dessa edição com uma palestra sobre comunicação aplicada à hospitalidade gastronômica — e pude perceber de perto a seriedade e o cuidado com que esse movimento foi conduzido.
Esse talvez seja o ponto mais interessante em Kei Nakai: sua liderança não se impõe pelo volume, e sim pela consistência.
Ela entende que ESG, por exemplo, não começa no relatório — começa na cozinha, no desperdício evitado, na escolha de fornecedores locais, no melhor uso dos insumos, em opções mais conscientes de cardápio e no respeito às pessoas que sustentam a operação todos os dias.
Também reconhece que ambientes colaborativos produzem melhores resultados. “A liderança feminina traz conexão com as pessoas, cuidado e uma visão mais integrada da operação.”
Há lideranças que brilham no palco. Outras transformam estruturas longe dos holofotes. Kei pertence à segunda categoria.
Na gastronomia, como na hospitalidade, são justamente essas presenças discretas que muitas vezes garantem que tudo funcione com elegância.
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Reila Criscia é jornalista, especialista em gastronomia e hospitalidade, curadora de experiências e colunista da Hotelier News. Diretora da Anagrama e membro do Comitê de Jovens Empreendedores da FIESP.
(*) Crédito das fotos: divulgação












