sábado, 25/abril
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Geopolítica pressiona, mas Accor mantém trajetória de alta no 1º tri

A Accor iniciou 2026 com crescimento moderado de receitas e avanço operacional, mesmo diante de um cenário geopolítico mais instável. No primeiro trimestre, a companhia registrou faturamento de € 1,3 bilhões, alta de 2,3% em moeda constante, sustentada principalmente pelo desempenho das operações de gestão e franquia, que cresceram 8,3% e alcançaram € 332 milhões. O RevPAR avançou 5,1% na comparação anual, refletindo a continuidade da recuperação observada no fim de 2025.

A leitura dos números indica uma dinâmica de crescimento mais qualitativa do que expansiva, com ganho de eficiência operacional e maior contribuição de receitas menos intensivas em capital. Ao mesmo tempo, o avanço de 3,8% no crescimento líquido de unidades nos últimos 12 meses reforça a continuidade da estratégia de expansão, com a abertura de 48 hotéis e mais de 6,7 mil quartos no período. Com isso, a rede alcançou 879,6 mil quartos distribuídos em 5,8 mil hotéis, além de um pipeline de 260 mil quartos (1,5 mil hotéis), sinalizando visibilidade de crescimento no médio prazo.

Na avaliação de Sébastien Bazin, o desempenho reflete a capacidade de adaptação do grupo diante de choques externos. “No primeiro trimestre de 2026, o Grupo registrou mais uma vez um crescimento estável, visto que o forte impulso do início do ano compensou amplamente os efeitos do conflito no Oriente Médio. Nossas equipes estão totalmente empenhadas em adaptar nossas operações às necessidades de nossos proprietários e clientes. O Grupo também implementou medidas para proteger os resultados, permitindo-nos minimizar o impacto da situação em nosso desempenho, preparar-nos para a retomada e capturar o crescimento em regiões que se beneficiam temporariamente do aumento da demanda, como a Europa e o Sudeste Asiático. Nossa presença geográfica diversificada, a qualidade de nosso portfólio de marcas e nossa capacidade de adaptação nos permitem ter confiança em nossa capacidade de apresentar, mais uma vez, um desempenho ainda melhor em 2026.”

Sebastien Bazin
Bazin destaca avanços em meio a cenário instável

Geopolítica pressiona, mas demanda se redistribui

O conflito no Oriente Médio, iniciado no fim de fevereiro, alterou o equilíbrio da demanda global. A região foi diretamente impactada, com destaque para os Emirados Árabes Unidos, enquanto outros mercados absorveram parte desse fluxo. Europa e Sudeste Asiático surgem como beneficiários indiretos dessa redistribuição, mantendo níveis estáveis de atividade. Ainda assim, a companhia reconhece que o cenário segue incerto e dependente da evolução geopolítica.

Na prática, o trimestre mostra um setor resiliente, mas cada vez mais sensível a eventos macroeconômicos e políticos. O desempenho sólido nos dois primeiros meses do ano foi parcialmente compensado pelas tensões internacionais, reforçando a importância da diversificação geográfica como mecanismo de mitigação de risco.

RevPAR avança com foco em preço e seletividade

O crescimento do RevPAR foi puxado majoritariamente por preço, especialmente nas divisões Premium, Midscale e Economy, que registraram alta de 4,5%. Na Europa e Norte da África, o avanço de 2,7% foi sustentado pela ocupação, enquanto mercados como França e Reino Unido mantiveram desempenho consistente após um fim de 2025 aquecido. Já a Alemanha apresentou leve retração, com forte dependência de eventos e feiras.

Na Ásia-Pacífico e Oriente Médio, o RevPAR cresceu 5,5%, com destaque para o Sudeste Asiático, que retomou tração após um 2025 mais fraco. Tailândia e Indonésia voltaram ao campo positivo, enquanto Singapura e Japão mantiveram crescimento. No entanto, o impacto do conflito foi visível nos Emirados Árabes Unidos, com queda de 9% no indicador.

Nas Américas, o desempenho foi mais robusto, com alta de 9,1% no RevPAR. O Brasil, responsável por 59% da receita de quartos da região, manteve crescimento de dois dígitos, consolidando-se como um dos principais vetores de expansão operacional do grupo.

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Mudança no mix de receitas ganha força

A estrutura de receitas reforça uma tendência já observada nos últimos anos: maior peso das receitas recorrentes e asset light. A divisão Premium, Midscale e Economy gerou € 663 milhões (+4,6%), com destaque para gestão e franquia (€ 201 milhões) e SMDL (€ 216 milhões). Já o segmento de Luxo e Lifestyle apresentou retração de 0,7%, impactado por alienações que reduziram a base comparável.

Ainda assim, dentro do segmento de luxo, a performance operacional segue consistente, com crescimento de 6,8% no RevPAR, sustentado por demanda global resiliente. O lifestyle, por sua vez, mostrou maior exposição ao Oriente Médio, com impacto mais direto do cenário geopolítico.

Câmbio, desinvestimentos e disciplina financeira

O resultado também foi pressionado por efeitos cambiais negativos de € 66 milhões, principalmente ligados ao dólar americano (-10%), ao dirham dos Emirados Árabes Unidos (-10%) e ao dólar canadense (-6%). Além disso, a venda de ativos, como a operação “Festiva”, gerou impacto adicional de € 18 milhões.

Ao mesmo tempo, a companhia mantém disciplina na alocação de capital. O anúncio de um programa de recompra de ações de € 450 milhões em 2026, com primeira tranche de € 225 milhões já iniciada, indica foco em retorno ao acionista, mesmo em um ambiente de incerteza.

Movimentos estratégicos e riscos reputacionais

Entre os eventos recentes, a venda parcial da participação na Silenseas, ligada à marca Orient Express, gerou € 66 milhões em caixa, reforçando a estratégia de otimização de portfólio. Paralelamente, a negociação para venda da participação de 30,56% na Essendi (ex-AccorInvest) avança como parte da reorganização de ativos.

No campo reputacional, a empresa também enfrenta questionamentos após um relatório que levanta suspeitas sobre práticas de direitos humanos. A companhia afirma que “nega veementemente qualquer envolvimento na alegada exploração sistêmica de pessoas ou crianças por meio do tráfico de seres humanos” e informa que conduz investigação interna com apoio externo, cujos resultados serão divulgados.

Entre resiliência e seletividade

O conjunto dos dados aponta para um ciclo de crescimento mais seletivo na hotelaria global. A Accor mantém expansão e melhora de indicadores operacionais, mas em um ambiente mais volátil, onde geopolítica, câmbio e gestão de portfólio ganham peso equivalente ao desempenho comercial.

(*) Crédito da foto: Divulgação/Accor

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