O que começou como uma das apostas mais ambiciosas da hotelaria brasileira transformou-se, ao longo dos anos, em um caso emblemático de atrasos, disputas e frustração de expectativas. Lançado em 2017 com a proposta de erguer uma série de hotéis da bandeira Hard Rock International no país, o projeto bilionário previa a abertura das primeiras unidades a partir de 2020. Agora, após sucessivos adiamentos, a previsão mais recente indica que parte dos empreendimentos pode ser concluída apenas no fim deste ano — ainda assim cercada de incertezas, aponta o Estadão.
No percurso, o plano deixou um rastro de impactos relevantes: investidores afetados, investigações por suspeitas de fraude, disputas judiciais envolvendo milhares de compradores de frações imobiliárias e, mais recentemente, a saída da própria marca Hard Rock, que era o principal atrativo comercial do projeto.
Atualmente, a condução da iniciativa está nas mãos da Residence Club, que não se manifestou até o momento. Já a Hard Rock International informou, por meio de nota, que não fará comentários adicionais, mas reiterou o interesse no mercado brasileiro. “O Brasil continua sendo um mercado relevante e estratégico para a Hard Rock International”, afirmou a empresa.
A ruptura entre a matriz americana e sua principal representante no Brasil ocorreu no início deste ano, motivada por atrasos e dificuldades na execução do projeto. Inicialmente desenhado para incluir oito empreendimentos, com potencial de vendas estimado em R$ 8 bilhões, o plano foi reduzido a três unidades: uma na Ilha do Sol (PR), outra em Fortaleza e uma terceira, ainda não iniciada, em Jericoacoara (CE). As obras avançam lentamente e enfrentam escassez de recursos, apesar de diversas tentativas de captação no mercado financeiro.
Entre as iniciativas de financiamento estiveram a emissão de debêntures de R$ 100 milhões e de CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários) de R$ 30 milhões, distribuídos a fundos com participação de entidades de previdência municipal. A primeira operação tornou-se alvo de investigação conduzida pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal, sob suspeita de irregularidades. Posteriormente quitada, a operação segue sob apuração em sigilo.
Ainda na fase inicial, houve tentativas alternativas de captação, como o lançamento de uma criptomoeda própria — chamada Rocktoten — e a divulgação de um aporte de cerca de R$ 330 milhões por meio de um fundo de Singapura. Em 2022, a gestora Urca Capital Partners ingressou no projeto ao adquirir cotas de um FIDC (Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios) no valor de R$ 120 milhões. Posteriormente, um grupo de investidores do Sul do país comprometeu-se a aportar mais R$ 100 milhões, diante da necessidade adicional de capital.
Mesmo com as obras em ritmo lento, a comercialização das frações imobiliárias, no modelo de multipropriedade, seguiu ativa. Cerca de 20 mil compradores adquiriram cotas, com a expectativa de usufruir estadias futuras nos hotéis, gerando mais de R$ 1 bilhão em vendas.
Ceticismo crescente
Apesar dos recursos levantados ao longo dos anos, os valores não foram suficientes para concluir os empreendimentos iniciados no Paraná e em Fortaleza. No mercado, o projeto passou a ser visto com crescente desconfiança por investidores, clientes e operadores do setor. Segundo relatos de profissionais próximos ao caso, há dúvidas generalizadas sobre a entrega das unidades.
Além disso, persistem problemas relacionados ao pagamento de fornecedores, o que contribui para o desgaste da imagem do projeto e da marca associada no país. Na tentativa de reestruturar a iniciativa, a Residence Club busca reposicionar parte do portfólio. Para o empreendimento mais avançado, no Paraná, foi firmada parceria com a Wyndham Hotels & Resorts, que assumirá a operação. A rede foi escolhida pela investidora, mas afirmou não ter participado de negociações anteriores nem ter envolvimento com o histórico do projeto.

O hotel paranaense prevê 509 unidades e está localizado em uma ilha de água doce, com acesso por embarcação. A previsão mais recente aponta conclusão até o fim de 2026. A parceria com a Wyndham Hotels & Resorts, contudo, não inclui o empreendimento de Fortaleza, cuja situação é considerada mais delicada. Com obras menos avançadas e ritmo lento, o projeto foi alvo de medida do Ministério Público estadual, que proibiu a venda de novas cotas devido aos atrasos.
Nos canais oficiais da Hard Rock International, os projetos do Paraná, Fortaleza e Jericoacoara deixaram de ser mencionados. Atualmente, há referência apenas a uma unidade em desenvolvimento em Gramado (RS), conduzida por outro parceiro, a construtora Mundo Planalto.
Impactos financeiros e judiciais
O impasse atingiu não apenas os compradores de frações — muitos dos quais recorreram à Justiça para rescindir contratos de cerca de R$ 100 mil —, mas também investidores institucionais. Há registros de inadimplência em CRIs vinculados ao projeto, afetando fundos com participação de entidades de previdência.
Cerca de 60 mil cotistas de um dos principais fundos da Urca Capital Partners também foram impactados. O empreendimento representa o maior ativo do Urca Prime Renda FII, que possui patrimônio de R$ 1,2 bilhão. Os atrasos nas obras pressionaram a distribuição de dividendos e contribuíram para a desvalorização das cotas, que recuaram cerca de 13% nos últimos 12 meses, sendo negociadas por volta de R$ 34 — bem abaixo do pico histórico, superior a R$ 120. O número de investidores também diminuiu, passando de quase 90 mil para cerca de 63 mil.
Diante desse cenário, a gestora passou a tratar sua exposição como um caso de recuperação de crédito e avalia alternativas, como a venda dos ativos ou a conversão da dívida em frações imobiliárias. Até o ano passado, estimava-se a necessidade de aproximadamente R$ 200 milhões adicionais para concluir o projeto de Fortaleza.
A Urca Capital Partners destacou que não possui relação contratual com a Hard Rock International, atuando apenas como credora indireta da operação. A gestora também afirmou que sua participação é exclusivamente financeira e que não tem envolvimento na gestão dos empreendimentos.
“Reiteramos que o papel da Urca se limita à gestão de fundos que investem em direitos creditórios, sem qualquer envolvimento na gestão operacional dos empreendimentos ou na sua relação com as marcas parceiras”, pontuou a empresa.
(*) Crédito das fotos: Divulgação












