A disputa entre a holding CTF (Chow Tai Fook) e o empresário francês Alexandre Allard ganhou um novo capítulo. A CTF, controladora da BM Empreendimentos — dona do hotel de luxo Rosewood São Paulo — aprovou a abertura de uma ação de responsabilidade civil contra o sócio minoritário, alegando conflito de interesses. Allard, por sua vez, prepara uma ação própria contra a parceira, revela o Pipeline Valor.
Em meio à escalada da tensão, Allard foi afastado do conselho de administração do empreendimento. Agora, o colegiado passa a ter três representantes da CTF e apenas um indicado pelo empresário francês.
O estopim da crise envolve comissões recebidas por Allard na revenda de apartamentos — cerca de 10 mil metros quadrados (m²) de área comprada anteriormente pela Gafisa. O francês afirma que a remuneração havia sido aprovada pela administração da BM Empreendimentos.
Criador do complexo Cidade Matarazzo, onde o Rosewood está instalado, Allard acusa a CTF de abuso de poder por ser acionista majoritária da BM. A disputa já tramita na Justiça: em outro processo, o empresário alega que foi alvo de espionagem e teve direitos autorais relacionados a elementos artísticos e arquitetônicos do hotel usurpados após sua participação societária ser diluída.
A parceria entre Allard e CTF começou há mais de uma década. O empresário comprou o antigo Hospital Matarazzo em 2010 e iniciou o projeto do Cidade Matarazzo. Três anos depois, a CTF — conglomerado com atuação em setores como cassinos, hotelaria, telecom e energia — entrou no empreendimento com 25%. Em 2019, os sócios separaram a operação de varejo da gestão hoteleira. A BM Retail, responsável pela Casa Bradesco, Soho House, restaurantes, lojas e teatro, ficou sob liderança de Allard, ao lado de investidores como Gafisa, Nelson Tanure e Robert Gibbins, da Autonomy. Na BM Empreendimentos, que controla o hotel, Allard manteve 35%.
O trâmite
A evolução da obra do Rosewood e da área residencial exigiu novos aportes. Como a CTF assumiu o investimento, Allard se comprometeu a pagar sua parte proporcional. Porém, a dívida de R$ 290 milhões venceu no início do ano sem pagamento, o que levou à diluição de sua fatia para 20%. O francês contesta o cálculo, alegando que custos extras de obra e juros foram somados indevidamente.
O empresário também enfrenta pressão financeira na BM Retail. Para comprar ações da CTF nesse braço, contraiu um empréstimo pessoal de R$ 360 milhões, refinanciado em 2023 pelo Banco Master. As ações da BM Empreendimentos foram usadas como garantia — e, com a diluição de sua participação, o valor atrelado ao empréstimo encolheu. Embora o contrato não exigisse recomposição das garantias, o caso será analisado pelo liquidante do Master, atualmente em liquidação extrajudicial.
A carência do empréstimo termina em fevereiro de 2026. A partir daí, Allard precisará desembolsar R$ 9 milhões mensais entre juros e principal. O cenário é desafiador: a BM Retail ainda não atingiu maturidade operacional, acumula atrasos com fornecedores e tem 282 títulos protestados. A empresa espera normalizar a situação com a abertura gradual dos espaços comerciais — a projeção é alcançar 60% de operação até junho do próximo ano.
A BM Retail já gera receita com a Soho House, clube de luxo com 32 quartos, spa, academia, piscina, restaurantes e áreas exclusivas. Esses valores vêm ajudando a amortizar os CRIS (Certificados de Recebíveis Imobiliários) do projeto, que somam R$ 515,6 milhões e vencem em 2040. Na BM Empreendimentos, o Rosewood — inaugurado em 2022 — afirma ter atingido o breakeven. Ainda assim, carrega R$ 365 milhões em CRIs, com vencimento em 2033.
Apesar de a CTF enfrentar dificuldades de liquidez em sua subsidiária imobiliária, a New World Development, o ativo brasileiro não estaria à venda, segundo fontes do setor. A empresa reforça que a operação ainda está em fase de maturação.
Em nota, a BM Empreendimentos garante que “não existe qualquer processo, estudo, proposta formal ou informal relacionado à venda do Hotel Rosewood em São Paulo”.
A defesa de Allard, por sua vez, afirma que a assembleia de acionistas conduzida pela CTF foi permeada por “graves irregularidades societárias” e demonstraria um “caso emblemático de abuso de maioria”. O comunicado diz ainda: “O Sr. Alexandre Allard sempre pautou sua atuação pela ética, pelo respeito às instituições e pela absoluta conformidade legal. E continuará a fazê-lo, independentemente das sucessivas tentativas de distorcer fatos ou instrumentalizar a governança societária de uma empresa que ele próprio idealizou, criou e transformou em um dos melhores hotéis do mundo“.
(*) Crédito da foto: Divulgação/Rosewood São Paulo












