Em um cenário global marcado por pressão tarifária, desaceleração econômica e busca crescente por eficiência corporativa, a indústria de viagens de negócios continua mostrando resiliência — e passa por uma transformação estrutural que deve redefinir a hotelaria corporativa nos próximos anos. Esse foi o tom da apresentação de Andrés Bernal, diretor de Vendas Globais da Wyndham Hotels & Resorts para América Latina e Caribe, durante a conferência regional da companhia realizada em Porto Rico.
Bernal apresentou um panorama sobre o novo comportamento do viajante corporativo, o avanço do bleisure, a retomada do mercado MICE e o impacto da inteligência artificial no futuro das viagens de negócios. Segundo o executivo, mesmo em um ambiente econômico mais desafiador, os gastos corporativos com viagens seguem avançando globalmente. Em 2024, o segmento registrou crescimento de 9%, enquanto, para 2025, a projeção é de 3%, movimento considerado relevante diante das atuais tensões macroeconômicas.
“Existe hoje uma percepção clara dentro do mercado corporativo de que o crescimento orgânico já não virá da mesma forma que no passado. As empresas estão sob pressão por eficiência, mas continuam entendendo o valor estratégico das viagens e dos encontros presenciais”, afirmou.
Bernal destacou que o setor corporativo vive um “novo paradigma do gasto empresarial”, no qual os travel managers deixaram de atuar apenas como controladores de orçamento e passaram a ser responsáveis também pela experiência, bem-estar e satisfação dos viajantes.
“Hoje não basta apenas negociar tarifas. As empresas querem garantir que seus colaboradores tenham boas experiências, produtividade e qualidade durante as viagens”, explicou.
Esse novo comportamento vem impulsionando diretamente o crescimento do bleisure, apontado como uma das tendências mais fortes da hotelaria global. Segundo dados apresentados durante a conferência, 42% dos viajantes corporativos já planejam viagens nesse formato, enquanto 75% afirmam estar dispostos a pagar mais por hotéis melhor avaliados.
Ao mesmo tempo, 60% das decisões de compra já sofrem influência direta das redes sociais, e 90% dos consumidores planejam realizar ao menos uma viagem de lazer nos próximos 12 meses.
“O hotel corporativo precisa deixar de pensar apenas de segunda a quinta-feira. Se o empreendimento não é atrativo para o fim de semana, é preciso revisar posicionamento, experiência e estratégia comercial”, pontuou Bernal.
Sustentabilidade e propósito
O executivo da Wyndham destacou ainda que sustentabilidade e propósito deixaram de ser diferenciais periféricos e passaram a integrar diretamente o processo de decisão dos viajantes. De acordo com o diretor, 84% dos consumidores consideram importante viajar de forma sustentável, e 93% desejam adotar práticas mais conscientes durante suas viagens.
Dentro da América Latina, o Brasil apareceu como um dos mercados mais relevantes para a companhia. Bernal destacou especialmente a força de cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, que seguem liderando a atração de viagens corporativas e eventos na região.
Segundo os dados apresentados, o mercado brasileiro possui atualmente antecedência média de compra de 22 dias, estadia média de 2,06 noites e forte predominância do cartão de crédito, responsável por 78% dos pagamentos corporativos.
Outro ponto central da apresentação foi a retomada do segmento MICE, considerado pela Wyndham um dos grandes motores da hotelaria regional nos próximos anos. Segundo Bernal, 60% dos profissionais da indústria acreditam que os eventos presenciais voltarão a dominar o mercado, enquanto 43% das reuniões na América Latina e Caribe já ocorrem presencialmente. Outros 57% dos executivos entrevistados afirmam enxergar condições favoráveis para crescimento do segmento.
“O networking continua sendo cara a cara. O mercado percebeu que relacionamento, conexão e construção de negócios ainda dependem fortemente da experiência presencial”, disse Bernal.
Impacto da IA
Ao mesmo tempo, a inteligência artificial começa a transformar rapidamente a organização e a gestão dos eventos corporativos. Dados apresentados durante a palestra mostram que a adoção de IA em eventos saltou de 22% para 43% em apenas um ano, enquanto 46% dos eventos realizados no primeiro trimestre de 2026 já tiveram algum nível de planejamento apoiado por inteligência artificial.
Segundo Bernal, a tecnologia deve impactar desde a logística até a personalização da experiência dos participantes, passando por curadoria de conteúdo, eficiência operacional e análise de ROI.
“As agendas estão menos saturadas e os eventos estão mais focados em bem-estar, experiências memoráveis, cultura local e conexão genuína. A logística continua importante, mas deixou de ser suficiente”, afirmou.
Apesar das incertezas geopolíticas globais, Bernal reforçou que a América Latina continua demonstrando forte capacidade de adaptação e resiliência. Embora 49% dos profissionais da indústria temam impactos negativos nos negócios por conta das tensões internacionais, o turismo regional segue apresentando crescimento consistente.
“O mercado não está mais buscando apenas hospedagem ou espaço para reuniões. O que as empresas querem hoje são experiências capazes de gerar conexão, produtividade e valor real para as pessoas”, concluiu.
*Por Wagner Lima, especial para o Hotelier News
(*) Crédito das fotos: Divulgação/Wyndham Hotels & Resorts











