O endividamento das famílias paulistas voltou a subir e chegou a 72,9% em abril, maior patamar registrado em três anos pela Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), pesquisa mensal produzida pela FecomercioSP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de São Paulo). Ao todo, 3,28 milhões de lares na capital paulista estão com algum tipo de dívida aberta, aponta o estudo, que ouviu 2,2 mil consumidores.
O último pico da Peic ocorreu em setembro de 2025, quando 72,7% dos lares estavam com dívidas. Após isso, o indicador caiu e voltou a ganhar tração em janeiro, quando chegou a 68,9%. Para a entidade, a alta reflete a necessidade de as famílias recorrerem ao crédito para cobrir despesas mensais, diante do impacto da inflação de março sobre alimentos e combustíveis, ambos pressionados pela guerra no Oriente Médio.
Para a Folha de Paulo, a FecomercioSP disse que a situação só não se agravou em decorrência de um mercado de trabalho ainda aquecido, o que atenua, por ora, a pressão sobre o orçamento familiar.
Todas as faixas de renda que compõem a pesquisa apresentaram avanço no endividamento. Entre as famílias que ganham até 10 salários mínimos, a taxa subiu de 74,5% para 76,3% em um mês. Entre os que recebem acima disso, a alta foi de 61,3% para 63,1%.
O cartão de crédito segue como o principal causador de dívidas entre os entrevistados, presente em 79,6% das respostas. Em seguida estão o financiamento de casa (16,3%), crédito pessoal (11,9%), financiamento de carro (10,7%), carnês (7%) e crédito consignado (5,7%).
Enquanto o endividamento cresceu, a parcela da renda comprometida com as dívidas apresentou leve recuo, de 26,7% em março, para 26,5% em abril. O indicador está abaixo dos 29,2% registrados em abril de 2025. O prazo médio das dívidas também diminuiu na comparação com o mesmo período de 2025, de 7,5 meses para 6,8 meses.
Inadimplência
Além do endividamento, a Peic também mede inadimplência e a parcela dos lares que declaram não ter condições de quitar suas dívidas. Em abril, ambos os indicadores mantiveram estabilidade: 21% das famílias estão inadimplentes, o equivalente a 946 mil lares na capital, enquanto 9,1% afirmam não conseguir honrar seus compromissos mesmo que queiram.
A intenção de contrair crédito subiu de 11,4% para 12,2% e quase 84% dos que pretendem contratar empréstimos querem utilizar os recursos para consumo e compras do cotidiano —somente 10% deste grupo pretende quitar dívidas existentes, o menor índice desde junho de 2025, o que indica manutenção do ciclo de endividamento para os próximos meses.
A FecomercioSP analisa que, no curto prazo, a tendência é de leve piora da inadimplência. “A conjuntura ainda está distante de uma crise, mas a combinação de endividamento em máxima histórica recente, atrasos mais longos, expansão do crédito de curto prazo e pressão inflacionária persistente merece atenção. Qualquer enfraquecimento do mercado de trabalho pode acelerar essa deterioração.”
O avanço do endividamento das famílias tende a impactar o consumo de viagens e lazer, especialmente no mercado doméstico, caso essa trajetória de alta de consolide. Com maior comprometimento da renda mensal e crescimento do uso do crédito rotativo, despesas consideradas não essenciais, como hospedagem, turismo e entretenimento, costumam ser postergadas ou reduzidas.
(*) Crédito da foto: imagem gerada pelo ChatGPT











